Análise – Cities Skylines: Green Cities

“Se não tem como me divertir pelo gerenciamento, há de haver outra maneira de aproveitar Cities: Skylines”. Essa foi a minha última mensagem para um amigo após criticar a falta de interatividade do game da Colossal Order. Agora, depois de dois meses desde seu anúncio, a sexta expansão, Green Cities (Steam), é lançada, e parece que a desenvolvedora ouviu — ao menos em parte — do que falava.

Com o foco em construir cidades sustentáveis, Green Cities não é tão desafiador no âmbito econômico; este, ainda uma pedra no sapato de Cities: Skylines. O que a coloca próximo a After Dark e Snowfall é a minha nova visão sobre sobre o desenvolvimento e planejamento cidades.

Poluição, seja ela ambiental ou sonora, é um conceito que muitos jogadores — incluindo eu — tendem a ignorar em Cities: Skylines. Afinal, era só colocar um lixão ali, um parque acolá, uma estação de tratamento d’água e estava tudo certo. Bom, estava até eu ver como as minhas cidades se comportavam com as novidades inclusas na atualização 1.90 e em Green Cities.

Dessa vez mais da metade delas tinham se tornado um caos. Ok, eu não sou muito bom (ou criativo) em planejar cidades, mas elas funcionavam; o trânsito não era tão ruim, a saúde pública era “ok” e pouca violência. Não tardou para que metade dos meus habitantes fizessem as malas e fossem embora. Ué, o que aconteceu? Decidiram não gostar mais do bairro? Nada, era a poluição sonora, algo que eu negligenciei, a causadora.

A mudança doalgoritmo de poluição sonora está inclusa na atualização gratuita, e provavelmente vai pegar muita gente — como me pegou — de surpresa. Anteriormente o game fazia um cálculo da poluição meio que de forma geral, ou seja, cada área tinha um valor “X”, enquanto que agora o mesmo é calculado por cada rua. Como alguém que já morou em avenidas extremamente movimentadas, eu entendo eles terem abandonado as casas (só espero que tenham empregos em outras cidades).

Ainda que não torne o jogo base completamente impossível (ainda bem, pois já vi isso acontecer com DLCs da Paradox para Europa Universalis IV), esse pequeno gesto na poluição sonora faz com que o planejamento de cidades, e o consequente gerenciamento das mesmas, seja muito mais recompensador.

Green Cities

Onde tinha uma cidade estática, vejo uma cidade viva. Estipulava novas políticas de redução de sons em zonas residenciais, adicionava novas avenidas para desviar o trânsito ou priorizar veículos de carga pesada cheguem aos seus destinos apenas por vias específicas e ao mesmo tempo tentava impedir que congestionamentos afetassem outros bairros.

Tudo isso já estava em Cities: Skylines, mas de uma forma ou outra, eram funções que nunca foram muito bem aproveitadas. Incluídas com uma cara de “um dia isto vai servir a um propósito”, eis que chegou quase dois anos depois do lançamento.

Essa ideia de manutenção se une muito bem com conceito de uma cidade sustentável — a base de Green Cities — que junto com os novos prédios, zonas e políticas, torna o DLC ainda mais interessante. Tipicamente o que vemos em artigos, ou frases balbuciadas por “profetas” do vale do silício, é criação de uma cidade utópica e maravilhosa onde tudo vai funcionar, ser autossuficiente, e ao olhar superficial do transeunte, as engrenagens que a mantém ativa seriam quase invisíveis. A mudança do estilo crude de uma cidade para uma meticulosamente criada, planejada até o último detalhe, onde cada peça se encaixa como um quebra-cabeça de um milhão de peças.

Mas a falácia cai por água abaixo quando se percebe que, manter uma cidade viva — independentemente da forma que ela foi construída — é uma questão de manutenção. As prioridades são trocadas? Claro, mas ainda assim os nuances que a mantém em atividade são os mesmos.

Decidi tornar uma das minhas cidades um cluster de tecnologia da informação, transformando zonas de escritórios em um exuberante parque de diversões para Startups, e ao mesmo tempo, criei bairros autossuficientes. Essas duas zonas provêm um intrigante balanço na forma que você aproxima o desenvolvimento de uma cidade. Bairros autossuficientes geram menos energia, mas também menos renda. Já clusters de tecnologia equilibram isso com um maior uso de energia, mas também de renda.

Com essas zonas vem uma nova demanda de parques, de mais variedade de prédios ecológicos, de menos barulho, de mais felicidade para os habitantes. Percebe como os objetivos podem ter mudado, mas ainda assim, a necessidade humana entra como prioridade?

Green Cities

Claro que a decisão de alterar as zonas foi muito impulsiva da minha parte e isto desequilibrou (mesmo que por um tempo menor do que eu esperava) os meus cofres. Não ajudou em nada fazer isso depois da imensa debandada de habitantes devido ao alto barulho de avenidas e — por algum motivo — a existência de uma usina elétrica no meio da cidade. Por favor não questione, devo ter feito em alguma madrugada sem pensar nas consequências.

Horas depois de ressurgir do caos, com novos habitantes e agora economicamente estável, me peguei observando o quanto eu havia mudado a minha interação com o jogo. Voltou a hesitação que eu sentia quando comecei a jogar. Não tinha mais a história de “ah, deixa só eu colocar a avenida aqui e depois vejo o que faço”. Comecei a dar um pouco mais de valor a felicidade da população, adequá-la ao tema de ser esse “paraíso” ecológico.

É menos um impacto na jogabilidade em si e mais na minha visão de mundo, ou do microcosmo que compõe as cidades virtuais de Cities Skylines. Era esse tipo de interação que eu buscava em Mass Transit, que tanto prometeu “novos meios de transporte” e entregava mais “variedade a troco de nada”. Ainda bem que Green Cities existe.

Eu não tenho mais tanta convicção que a Colossal Order vai alterar fundamentalmente a base de Cities Skylines, não como eu idealizo. Entretanto, a empresa mostrou que ainda existem pequenos detalhes que podem trazer um ar de novidade para o game. Eu aprecio o gesto, e se ele me fez questionar a composição de uma cidade — seja elas autossuficientes ou não — diria que cumpriu o seu objetivo.

Cities Skylines: Green Cities

Total
Pequenas mudanças na forma que você enxerga uma cidade e as suas necessidades fazem com que Green Cities seja uma expansão mais impactante do que imaginava. Para um jogo que, por muito tempo, permaneceu demasiadamente “estático”, é uma agradável mudança de ritmo.
Bom

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Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.