Análise – OlliOlli World

“Lucas, se acalma, os créditos acabaram de rolar na tela mas tem mais coisa  pela frente, pensa nos desafios”, dizia meu cérebro. “Não, eu não quero, eu não quero que acabe, eu estou empolgado, vibrando, eu quero pular da cadeira e mostrar ao mundo o que eu consegui!”, meu corpo respondia. Esse conjunto de reações se deu em meio a uma madrugada chuvosa e quente na minha cidade. Mas o calor não era só da umidade que perdurava no ar, nem do brilho emanado da tela do meu computador, mas sim de ter — depois de muitas tentativas — completado a fase final de OlliOlli World (Steam / Nintendo Switch / PlayStation 4 e 5 / Xbox).

O terceiro game de uma das minhas franquias favoritas de skate desde que a Electronic Arts decidiu dar fim a “Skate” chegou de forma sorrateira. Eu não dei muita bola para o seu anúncio em 2021; “Ah, é só mais OlliOlli, eu não consigo imaginar o que a Roll7 vai adicionar para aprimorar a fórmula de OlliOlli 2”. Céus, eu estava errado. Muito errado.

Comparar OlliOlli World com OlliOlli 2 chega a ser um insulto para a Roll7; há um abismo de diferenças cujas possibilidades sequer passaram pela minha cabeça quando eu comecei a jogá-lo. Esperava por um OlliOlli em 3D com a típica jogabilidade de “use o analógico esquerdo para realizar combos, acerte o timing para ganhar mais pontos” e fui recebido com uma repaginada visual que é melhor descrita como “Hora da Aventura versão skate”, com uma série de refinamentos e locais ainda mais curiosos para explorar.

Para atingir esse feito, que para mim ainda parece algo surreal, a Roll7 decidiu deixar para trás parte do jeito puramente “arcade” de OlliOlli para introduzir um tiquinho de história. Mapas conectados apenas em tema agora fazem parte de uma grande narrativa sobre a Radlandia, um local onde todo mundo é fã de skate e abençoado pelos deuses do skate.

OlliOlli World
Cada início de fase traz uma breve interação entre os personagens, mas você pode ignorar e partir direto para a ação.

Embora tenha torcido o nariz de início e falado “Ah, mas para que enfiar história, eu só quero completar fases e desafios”, lentamente fui caindo de amores pelo imenso carisma dos personagens que me acompanharam na jornada. De Suze e seu desejo de filmar todas as manobras, de Chiffon, uma “maga do skate” que tem o poder de falar com os deuses, ou Mike, o “Mestre dos desafios” e o mais empolgado do grupo para saber quem vai ser o próximo deus do skate — que é, obviamente…você.

Além de muito bem escritos e com trocadilhos de dar gargalhadas gostosas, o trio ainda tem a ocasional companhia do… “Pai” — que, como você imagina, faz “piadas de pai” — e de tantos outros personagens carismáticos que você encontra em cada uma das quatro regiões do jogo. De “lendas locais do skate” até pombos marombeiros, ufólogos, e pessoas que se vestem de “marcianos”. E caso você não queira fazer parte dessa trupe, ou sequer ler os diálogos entre personagens no início de cada fase, a Roll7 responde “Então tá, tudo bem, jogue do seu jeito!”. Escolha não interagir e pronto, você já vai direto para a ação.

“Jogue do seu jeito”, é esse molde que a Roll7 abraçou, e a principal diferença entre OlliOlli World e seus antecessores. Onde OlliOlli e OlliOlli 2 eram voltados para um público que tinha que se dedicar para decorar todas as fases, manobras e caminhos alternativos, OlliOlli World te dá uma incrível liberdade para fazer o que bem entender. Não quer se estressar nas fases? Vá pelo caminho mais simples, deixe os desafios de lado e aproveite a excelentíssima trilha sonora que acompanha o game. Os controles, como descrevi antes, são “simples” o suficiente para você pegar o jeito em poucas tentativas. O analógico esquerdo vai ser a sua principal ferramenta para realizar manobras, junto com o botão A/X para acertar o timing e ganhar mais pontos.

O ritmo e a progressão na qual novas áreas e novas opções de personalização para o seu personagem são liberadas é impecável. Pode ser exagero da minha parte, mas a quantidade de jogos que eu vejo por aí cuja progressão ou é rápida demais ou desinteressante demais não está no papel. OlliOlli World encontra o ponto certo. Até mesmo aqueles que escolherem OlliOlli World para uma experiência mais “tranquila” vão poder ter acesso a dezenas de roupas, estilos de cabelo, e outros tantos jeitos de deixar o seu personagem com a sua cara.

OlliOlli World
Mudanças positivas no sistema de combos e manobras é um dos maiores atrativos de OlliOlli World.

Mas, se OlliOlli World é tão amigável assim, por que então a suadeira no começo do texto? Ah, se vocês pudessem ver o sorrisinho no canto da boca com que estou enquanto digito esse parágrafo. Porque OlliOlli para mim é competição, é tabela de liderança, é completar todas as fases sem errar, realizar magníficos combos e destruir minha pontuação anterior. OlliOlli 2 já era um prato cheio para isso, OlliOlli World é uma bacia imensa.

Tudo o que eu queria e nem imaginava querer está nesse jogo. Um sistema de rivais dinâmico que é atualizado toda vez que você bate o recorde deles, modo online assíncrono onde há uma liga que libera novos itens cosméticos, desafios adicionais que são liberados quando você completa o game, e um gerador aleatório de fases que podem ser compartilhadas. O último item é o ponto mais “fraco” do jogo, já que as fases geradas não são tão interessantes quanto as oficiais, mas é uma boa opção para quem só quer competir entre pessoas mais próximas.

Essa bacia de possibilidades dá as caras de vez nas duas últimas áreas. É nelas que  OlliOlli World combina a parte de “um jogo para todos” e também abraça os veteranos da franquia. Tanto que as fases não precisam ser todas completadas para avançar para a próxima área; a Roll7 sabe muito bem que vai começar a cobrar mais do jogador e não quer desencorajar os novatos.

Os mapas, que já eram visualmente estonteantes e com múltiplas rotas, se reinventam, fazem loops dentro de si mesmos, apresentam rotas terciárias, múltiplos modos de trocar de pista e locais que requerem uma precisão ferrenha. Soa assustador, mas é um sistema muito melhor do que as áreas “secretas” que OlliOlli 2 usava. Não nego que cheguei até a ficar um pouco sobrecarregado de tanta informação na tela, mas após apanhar um pouco, completei as fases mais difíceis. Só não acredito que falhei um desafio porque uma árvore me deu um joinha e eu perdi a concentração. Sério, uma árvore me deu joinha!

OlliOlli World
As duas últimas áreas de OlliOlli World são intensas, complexas, e uma das melhores que já vi da série.

Como se já não bastasse isso tudo, o sistema de combos recebeu uma repaginada, e o vejo como o melhor meio termo entre os controles “avançados” de Skate e a combinação de combos de Tony Hawk Pro Skater. Agora é possível usar artimanhas para combinar escadas e manuals, girar o personagem em 180º/360º/540º com os gatilhos do controle e usar o analógico direito para grabs. Lá se foram os dias de eu conseguir completar uma fase inteira em um único combo. OlliOlli World abriu (sem trocadilhos) um novo mundo de oportunidades para mim.

Era terminar uma fase, voltar para ela, ver quem era o meu rival, tentar bater o recorde dele, passar para a próxima fase, repetir o processo. Quando cansava disso, eu ia para a liga Gnarvana tentar chegar no topo da tabela contra os absurdos recordes daqueles mais experientes ou que pegaram as manhas de combinar manobras mais rápido do que eu. Nessas horas a opção de fazer o download do replay de seu oponente ajuda a ver as melhores rotas ou levantar os braços e falar bem alto “Mas como ele fez isso? Não é possível. Sério, eu tentei!”.  Ah tabelas de liderança, vocês são a minha dádiva e a minha maldição. De Devil Daggers, Project Cars, Nex Machina e agora OlliOlli World.

Para uma pessoa que tende a jogar boa parte do tempo quieto, fiquei assustado em quantas vezes eu senti o frio na barriga de tentar um pulo arriscado — e ver meu corpo reagir com um pequeno e patético salto na cadeira como se isso ajudasse —, o coração quase sair pela boca ao manter um combo de x50 na reta final de uma fase, seguido da euforia de terminá-la e ver que consegui dar o meu melhor e sair vitorioso nos meus termos.

Quando os créditos rolaram na tela, eu afundava na cadeira de cansaço, mas aquele cansaço que te deixa feliz. OlliOlli World abriu um imenso sorriso em mim, reaqueceu de maneira inimaginável o meu amor por jogos onde o desafio é fazer a melhor pontuação e me lembrou o motivo pelo qual eu me apaixonei pela franquia desde a sua primeira versão. A Roll7 manteve a sua visão e ainda entregou um jogo que — espero eu — atrairá ainda mais fãs. Se este era o jogo que a equipe sempre sonhou em fazer, então o sonho foi realizado.

OlliOlli World

Total - 10

10

OlliOlli World é fantástico, revigorante, amigável para quem nunca jogou a franquia, e desafiador para quem pensou que dominou tudo. Já deixa sua marca como um dos lançamentos mais fantásticos de 2022. Um a que eu me vejo voltando mais e mais vezes para me desafiar, batalhar na liga online, ou só curtir a sua estética vibrante. Radlandia que me aguarde; a nossa história ainda não acabou.

Análise – OlliOlli World

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.