Análise – Nex Machina

Toda vez que eu gasto horas em um game de um gênero, eu busco o mudar para outro, manter uma rotatividade de subgêneros, visões de mundo e seleções de design. Antes de começar a escrever sobre o novo game da finlandesa Housemarque, quero propor o mesmo para você, leitor. Há dias que eu estou cansado de menus, longas cinemáticas e horas para que a história engrena. Eu encontrei no Twin Stick Shooter Nex Machina, disponível para PC e PlayStation 4, o meu porto seguro temporário.

Já havia celebrado a minha paixão por arcades, tabelas de liderança e um excelente grau de desafio ao coroar Devil Daggers como um dos meus jogos favoritos de 2016 e comentar sobre o também finlandês Tormentor X Punisher, que ganha espaço pela experimentação e criatividade do jogador. O projeto da Housemarque com Eugene Jarvis (Smash TV, franquia Crusin’), crava o seu caminho próprio dentre os mares de lançamentos. Acima de tudo, é sobre encontrar padrões.

Nex Machina não baixa a guarda ou busca facilitar as coisas para o jogador. Um protagonista sem nome chega a uma área florestal corrompida por robôs e já é recebido com uma horda de pequenas aranhas partindo para cima dele. Um soco no estomago, um tapa na cara. Ninguém aqui está para brincadeira.

O conceito se aplica ao longo dos cinco mundos, cada um dividido por 14 pequenas áreas. Nada vai fazer muito sentido na primeira vez que jogar, isto eu garanto. Um show de explosões, luzes, pirotecnias que mais parece um show de fogos do Magic Kingdom ou a virada de ano em Copacabana.

“Como eu vou conseguir enxergar os inimigos com tantas luzes ao meu redor?”, eu pensei ingenuamente na primeira meia hora. Até que o ponto o meu raciocínio se tornou mais rápido, a prática levou a perfeição e a padronização dos “spawns” começou a se revelar. Não é o jogador que dita o ritmo de como as fases vão se desenrolar. Ele é um passageiro, confinado em um ambiente opressor onde tudo é sinônimo de morte. Assim que a barreira de ficar receoso em partir para cima dos inimigos, Nex Machina se deixa ser ligeiramente manipulado para encontrar situações proveitosas para o jogador.

Rapidamente usava o dash para esquivar de projéteis, já sabia onde um dos humanos — “pick-ups” que aumentam o multiplicador de pontos — estava posicionado, abria o caminho com lança-mísseis, bombas, tudo o que podia. Tentava decorar os ataques dos chefões, encontrar brechas para causar o máximo de dano e garantir que a luta seria curta. Comecei a prender a minha respiração, a gritar quando perdia um multiplicador, a sentir meu coração bater mais rápido na medida em que atingia uma nova fase, a tela se preenchia de inimigos. E depois afundar na cadeira quando uma primorosa pontuação foi por agua abaixo por conta de uma burrice.

Nex Machina

Continue?

9…8…7…6…5…4…3…2…1

*click*

Próxima rodada.

Comecei a mesclar os powerups encontrados nas fases. Troquei o lança-míssil por um detonador a distância. Fucei os mapas para encontrar áreas secretas, lutei contra chefões com uma vida restante e com o coração na boca até que o último disparo fosse realizado. Até que explosão de cores e voxels dominasse a minha visão e visse a minha pontuação subir. “Multiplicador 20x”, apontava no canto superior da tela. “Agora sim eu tenho uma chance de subir na tabela de liderança”, refletia enquanto tentava me recompor emocionalmente para a próxima fase. A injeção de adrenalina é insana, daquelas que deixam sua mão tremendo depois de uma longa partida.

Quando me cansava do modo arcade, ia para os modos secundários. Tentava sobreviver a hordas, atingir a pontuação máxima com modificadores que tornavam os inimigos ainda mais rápidos. Coletava moedas para liberar mais modos, tentava completar desafios. Começar, falhar, repetir. Começar, falhar, repetir. Começar, falhar, repetir. Fechava Nex Machina completamente exausto fisicamente, mas com um imenso sorriso no rosto.

Ele pega as convenções do que eu considero a base para um jogo arcade, old school ou não, e coloca uma roupagem moderna em cima deles sem medo de agradar muitos ou poucos. Reitera a necessidade de dar o seu melhor e apresenta com exímia clareza quais os elementos que precisam ser refinados pelo lado do jogador para isto. Aprender a priorizar inimigos, saber o “timing” de pick-ups, saber onde estão os humanos a serem resgatados.

Você vai se frustrar, você vai querer jogar o controle na parede, você vai olhar para a tela de “Continue” mais vezes do que você almoça ou janta. Mas também você vai ouvir uma das melhores trilhas sonoras de 2017 tocarem no fundo, juntar as forças e partir para mais uma tentativa.

Se lançado há 25 anos atrás, Nex Machina estaria em um fliperama, talvez com um grupo de pessoas em volta com os olhos grudados na tela para ver se a sua pontuação seria ou não finalmente batida. Agora com tabelas de lideranças online e os espaços de fliperama menos presentes do que nunca no Brasil, ter ao menos uma fração do que os tornou tão especial, dentro de casa, é no mínimo especial. Um impecável jogo tanto para a Housemarque como para Eugene Jarvis.

Nex Machina

Total - 10

10

Nex Machina combina tudo o que há de melhor num shooter arcade em um pacote desafiador e ao mesmo tempo recompensador. Exige do jogador disciplina e conhecimento, mostra o que deve ser feito para conquistar a melhor pontuação sem ajudinha nem um tapinha nas costas. A gratificação aqui vem da enorme pontuação e um sorrisão no rosto ao fim de cada partida.

Análise – Nex Machina

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.