Primeiras Impressões – WARNO

“Lucas, o que é SEAD?” “Uh… ‘Supression of Air Defense’, porque?” “Ah, é que eu estava jogando WARNO aqui e um dos meus aviões tinha isso e eu não sabia para o que servia”. Esta é a atual experiência de jogar WARNO – o sucessor espiritual de Wargame: Red Dragon – que está disponível em acesso antecipado no Steam sem o menor conhecimento da franquia que o originou ou da Eugen Systems.

A pergunta feita pelo meu amigo, o pobre coitado que pegou o jogo depois de me ouvir comentar por pelo menos uma semana, é a mesma feita por provavelmente dezenas de pessoas. WARNO sem dúvidas atende todas as expectativas de alguém que já tem o mínimo de experiência com a série Wargame, mas deixa um componente essencial de fora: um simples tutorial.

Pode ser até estranho para quem está acostumado a ler as matérias do site ver eu reclamar da ausência de um tutorial em um jogo em acesso antecipado – algo que muitos devem dar com “óbvio”. A questão aqui é que WARNO, diferente de tantos outros jogos que eu já cobri, apresenta uma densidade absurda antes mesmo de você começar uma partida.

Muito como Wargame e Steel Division, ambas crias da Eugen Systems, WARNO mantém o sistema de decks e grupos de batalha. Você pode jogar com um deck pré determinado pelo jogo ou construir o seu próprio. Nesse ponto chave que boa parte das pessoas que não jogaram algo produzido pela Eugen se embolam. Qual unidade escolher? Devo focar em infantaria, artilharia, tanques, reconhecimento ou reforço aéreo? A minha resposta: “Depende”. Depende do inimigo, depende do mapa, depende do tipo de equipamento e munição que a tropa que você escolheu está usando.

WARNO
Sistema de decks e grupos de batalha, um dos elementos que diferencia a Eugen de outras desenvolvedoras, volta com tudo em WARNO, e continua tão impenetrável quanto antes.

Ainda que não chegue aos pés de um wargame como War in the East ou até mesmo Decisive Campaigns: Ardenness Offensive, a Eugen Systems continua a tentar trazer um grau impressionante de “realismo” para o campo de batalha. Soldados que não estiverem protegidos serão aniquilados por um helicóptero, é preciso levar em consideração a posição que você colocou um tanque e quanto de combustível um helicóptero tem antes de se espatifar no chão. Isto é, se não for trucidado por uma bateria antiaérea antes disso.

Como um veterano, ao menos no que diz respeito à construção de decks e jogabilidade no geral, WARNO já está em um estágio onde eu consigo encontrar a minha própria diversão – mesmo que seu conteúdo seja limitado a partidas locais contra IA, que aliás dá um show à parte comparada com a de Wargame ou até a de Steel Division 2, ou o modo online. As quatro divisões presentes no jogo já são mais do que o suficiente para garantir múltiplas combinações com foco em diferentes áreas. Já tenho decks para partidas 4vs4 com um misto de infantaria e reconhecimento, outras para partidas 10vs10 que envolvem o uso de helicópteros e aviões em conjunto com sistemas de defesa aéreos que são primordiais para batalhas em grande escala.

O melhor é que muito do que a Eugen Systems introduziu em Steel Division 2, como um sistema mais robusto de mensurar a distância de efetividade de armas e ações que podem ser “automatizadas” – como tomar um ponto de controle – reduz uma grande parcela do terrível micro gerenciamento que acontece nas partidas.

Outra mudança crucial, e bem favorável, é o sistema de captura de pontos. Onde Wargame usava um conceito de “se você tem uma unidade de comando em um ponto, ele é seu”, WARNO segue a linha de Steel Division 2 de: “você precisa ter uma unidade de comando em um ponto e eliminar toda a resistência para ganhar a pontuação máxima”.

WARNO
Nova ferramenta para mensurar a distância e campo de visão é uma excelente ajuda durante as partidas.

O novo sistema traz atritos em regiões dos mapas que se fosse em Wargame, seriam completamente ignoradas. Incontáveis vezes eu posicionei emboscadas em estradas ou em florestas na região da minha unidade de comando para eliminar a maior quantidade de tropas do oponente possível. Foi se o tempo de partidas onde a maioria das unidades ficavam em cruzamentos ou escondidas em prédios esperando o momento oportuno para atacar. A quantidade de novas táticas criadas pela comunidade nesse pouco tempo de acesso antecipado (um mês da data desta publicação) é igualmente fascinante e assustadora.

Toda partida online me fez sentir que as dezenas de horas que gastei em Wargame e Steel Division não serviram para nada. Era entrar em uma partida e saber que iam acontecer três coisas: eu ia ser esmigalhado, o inimigo ia vir com uma nova tática, alguém do meu time ia me xingar pois eu coloquei uma unidade ligeiramente fora do ângulo que é dado como “correto”.

Este continua a infelizmente a ser o ponto: “ame ou odeie” de tanto WARNO quanto todos os jogos da Eugen Systems, o grau de toxicidade da comunidade só não perde para as comunidades de MOBAs. Ou você chega sabendo absolutamente tudo, ou você será continuamente humilhado nas partidas até aprender. Antes que pergunte, não, a comunidade não lembra que uma vez esteve na mesma situação.

Por isso que tenho uma grande hesitação em recomendar WARNO na presente situação. O jogo em si é excelente e tudo indica que, quando for propriamente lançado e seus bugs corrigidos (embora eu não tenha visto tantos assim nas minhas horas com a versão de acesso antecipado), vai ser o sucessor de Wargame que todos nós merecemos. Eu fico ansioso e esperançoso para que a campanha siga o molde de Steel Division 2 e me dê o comando de múltiplas divisões em uma frente de batalha dinâmica, fico ansioso para ver quais facções darão as caras, mas eu não consigo engolir mais esse tipo de abuso no modo online.

Partidas que, é claro, continuam intensas e complexas, mas com um pouco menos de micro gerenciamento dado o novo sistema de ordens automatizado.

Eu até consigo ver o caso de um grupo de pessoas comprando WARNO e aprendendo, na base da tentativa e erro, as mecânicas e nuances das tropas. Todavia, com o preço pouco atrativo para o Brasil (R$199,49), eu espero que essas pessoas estejam com um bom dinheiro sobrando.

Com cada atualização que a Eugen Systems lançou, e olha que não foram poucas, desde o final de janeiro, uma dúvida permanecia na minha cabeça: como que diabos você quer reter usuários sem um tutorial ou ter uma conduta mais rigorosa com a comunidade que você criou?

A semana do lançamento estava repleta de partidas, agora todas as salas estão vazias. Todos estão esperando por mais facções, mais mapas ou alguma forma de aprender o jogo que não seja por guias no Steam ou vídeos no youtube.

WARNO tem um potencial imenso, a Eugen Systems tem a faca e o queijo na mão para vencer dos seus competidores diretos – Broken Arrow e Regiments –, mas sem um tutorial decente, uma comunidade mais amigável e o mínimo de um componente single-player que não seja só partidas contra a IA, ele vai acabar sendo esquecido tal como foi Steel Division 2.

No que diz respeito a mim, WARNO vai continuar instalado no meu HD, pois como disse acima, eu me divirto com as partidas contra a IA e fico teorizando novos decks. Estou esperançoso pelo seu futuro, mas se você se pergunta o que diabos é SEAD, é melhor ficar longe dele por ora.

Primeiras Impressões – WARNO

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.