Análise – Way of the Hunter

Não é sempre que eu tenho a oportunidade de comentar sobre o que eu estou jogando com outra pessoa antes de uma crítica ir ao ar. “Way of the Hunter” (Steam / PlayStation / Xbox) é um caso à parte devido a minha constante “reclamação” para um amigo sobre a minha insistência de abater um veado após atingi-lo com um disparo. “Lucas, você percebeu quanto tempo você está nessa busca?”. “Sei lá, uns 30 minutos?”, respondi. “Não, três horas”. Olhei assustado e… era verdade. Eu fui absorvido pela cadência metódica e cuidadosa de encontrar pistas e tentar achar o veado que ia me deixar acordado à noite. Não o encontrei, mas voltei para o jogo de caça da Nine Rock Games na manhã seguinte sem pestanejar.

Antes de adentrar nesses e tantos outros aspectos de “Way of the Hunter”, vamos comentar sobre os dois grandes elefantes na sala: jogos de caça e “theHunter: Call of the Wild” – o seu competidor direto. Eu não sou ninguém para falar se você deve ou não apreciar jogos de caça. Eu sempre gostei do gênero desde muito novo, embora não seja muito a favor de caça esportiva na vida real. Se você tem alguma questão moral acerca do abate de animais virtuais, passe longe dele.

O segundo ponto é um pouco inevitável. Comparações com “theHunter: Call of the Wild” serão feitas ao longo dessa crítica, mas no fim das contas, “Way of the Hunter” e o jogo da Expansive Worlds possuem filosofias diferentes no que diz respeito à caça de animais e como ambos apresentam os seus sistemas – para o bem ou para o mal.

A começar que “Way of the Hunter” não tenta esconder que é um jogo de caça, ou justificar as ações que o jogador irá fazer ao longo de dezenas ou centenas de horas de jogo com missões peculiares como “ajudar cientistas a tirar fotos de uma espécie rara” como a Expansive Worlds faz. A mesma espécie rara que vai virar um troféu na sua sala minutos depois.

Way of the Hunter
A mecânica opcional “Hunter Sense” é um ótimo apoio para quem está começando em jogos de caça.

Aprecio a honestidade da equipe de “Way of the Hunter”. Isso torna mais fácil a narrativa do jogo em si (acredite, ele tem uma história que atua como um longo tutorial e até que não é das piores) e também ajuda a estabelecer propriamente as suas mecânicas.

Para mim o maior traço que um jogo de caça precisa ter é entender que ele não é só sobre a caça em si, mas também sobre o processo que envolve encontrar pistas sobre o animal, descobrir as zonas que ele utiliza para descansar e se alimentar. Essas etapas tendem a ser lentas; minutos viram horas, horas viram dias, dependendo da proficiência do jogador. No meu caso, não das melhores – estou mais enferrujado do que imaginava.

No que tange a esse aspecto, a equipe da Nine Rock Games utiliza todo o potencial das duas imensas regiões que estão presentes na versão de lançamento. A desenvolvedora acerta um equilíbrio singular entre apreciar a beleza dos mapas – seja no amanhecer, entardecer, ou à noite – com momentos de tensão e cuidado ao encontrar uma presa.

Uma das minhas grandes críticas sobre “theHunter: Call of the Wild” é uma certa “facilidade” de encontrar animais dependendo do mapa escolhido. Embora saiba que a Expansive Worlds continua a trabalhar no jogo, em muitos momentos eu me sentia em uma galeria de tiro com tantos animais sendo “presas fáceis”. Deixava de ser um jogo de caça para se tornar algo um tanto… cruel. Para mim, abater uma presa é – como disse – parte de um longo processo. Eu não quero que ele simplesmente “apareça” para mim e finja que eu não estou a 20m dele para um disparo fácil.

Way of the Hunter
Cálculos balísticos e diferentes calibres são modelados com surpreendente “realismo” em Way of the Hunter.

“Way of the Hunter” vai em uma direção contrária — tão intensamente que em muitas sessões passei sem sequer ver um animal. Se eu me senti frustrado? Nem um pouco: era isso que eu queria de um jogo de caça. Ter o espaço para respirar, para analisar os meus arredores, e compreender como eu posso usá-los ao meu favor.

Se o parágrafo acima te assustou, deixa eu “te acalmar” apontando que “Way of the Hunter” possui um sistema opcional chamado “Hunter Sense” que ajuda a encontrar pistas e pontos de interesse. Felizmente ele atua mais como um auxílio para novatos do que algo que precisa ser usado para sair “vitorioso” de uma caçada. O grande astro do projeto da Nine Rock Games é sua balística.

A desenvolvedora entendeu muito bem que um jogo de caça precisa ter as duas principais partes do processo mencionados acima – a exploração e a caça em si – muito bem elaboradas. A balística de “Way of the Hunter” pode ser uma das melhores que vi até então. Calibre, distância, vento, todos esses elementos atuam de uma maneira mais realista do que em outros jogos de caça.

Um ótimo exemplo é a história do veado que comecei a contar no começo da crítica. Se fosse em “theHunter: Call of the Wild”, era bem provável que eu o teria levado para casa sem muitas dores de cabeça. Isso não foi possível em “Way of the Hunter” pois a distância era muito grande (pouco mais de 250m) e o calibre da munição que eu usei acabou sendo fraco demais para penetrar em algum órgão vital. Essa descoberta só foi possível em uma segunda caçada onde o jogo me mostrou em detalhes onde eu acertei o animal e qual foi o dano causado a ele.

Ainda luto para encontrar palavras para descrever o quão belo e tão libertador é explorar as belíssimas paisagens de Way of the Hunter.

Outro ponto positivo de “Way of the Hunter” é o seu sistema de “habilidades passivas”. Não existem no momento mecanismos que permitam você magicamente se tornar “invisível” para as suas presas ou habilidades que vão além de “você é capaz de segurar a sua respiração por mais tempo”. Outra vez, um contraste enorme em comparação a “theHunter: Call of the Wild”, com sua árvore de habilidades que faz as caças serem cada vez mais fáceis à medida que você fica “melhor” e ganha pontos de experiência.

A experiência obtida em “Way of the Hunter” parte diretamente da sua capacidade de compreender e conhecer a região que você está. Mesmo que você decida usar o tal do “Hunter Sense”, ele só vai te ajudar até certo ponto. No fim, é você quem vai estar com o dedo no gatilho e decidir se está na hora ou não de pressioná-lo vai vir com o tempo.

Isso não significa que “Way of the Hunter” seja um jogo hostil; é apenas indiferente ao jogador. Você pode pegar o seu jeep e explorar o mapa todo, encontrar novos pontos de interesse como fogueiras que habilitam “fast travel”, torres para ter uma visão melhor do mapa, mas nada vai ser entregue para você de mão beijada.

Essa indiferença para com o jogador é libertadora para mim. Eu estou tão, mas tão cansado de jogos que te dão tudo “fácil” — ou que te entopem de habilidades “poderosas” muitas vezes absurdas e irreais — que o meu apreço por “Way of the Hunter” só aumentava. Os momentos de caça eram intercalados por momentos de fotografia dos belíssimos cenários, de ouvir o canto dos pássaros, o barulho de uma correnteza ou do vento cortando as árvores. A Nine Rock Games poderia muito bem fazer um “spin-off” focado em fotografia que eu compraria sem pestanejar.

A imagem acima, retirada das minhas 5 horas iniciais, não apresenta nem 1/16 de um dos mapas de Way of the Hunter. Eles são imensos.

Entretanto, embora tenha tantos pontos positivos, “Way of the Hunter” ainda está dando os seus passos iniciais e, com isso, vêm alguns tropeços – a maioria deles de um ponto de vista técnico. A versão PC não possui suporte a monitores ultrawide, nem a opção de alterar as teclas padrão. Ainda que a comunidade já tenha encontrado uma solução para ambos os problemas e a Nine Rock Games apontado que ela irá implementar em futuras atualizações, é um pouco decepcionante de se ver.

Outro ponto significativo é o fato de que a seleção de animais e armas é um tanto quanto limitada. Rifles de diferentes calibres para animais de grande porte, espingardas para animais de médio e pequeno porte. Sair da enormidade de conteúdo que “theHunter: Call of the Wild” possui para um jogo de caça que tem menos de um terço dele é um baque. Mas eu estou mais do que disposto a aceitar isso por conta das mecânicas.

Outras mecânicas são um tanto…neutras por assim dizer. A Nine Rock Games comenta muito sobre um sistema dinâmico de migração dos animais de acordo com a quantidade de vezes que você caça em um local. Pessoalmente eu não vi grandes mudanças; pode ser que isso venha a ser mais proeminente quando você atinge 40h de jogo e não as minhas “míseras” 20h. Em contrapartida, os animais deixam rastros mais realistas quando fogem, amassando a grama ou outras plantas pequenas, mas o sistema de posicionamento sonoro bem que poderia ser um tiquinho melhor.

A ausência de um sistema de visualização de quanto “barulho” você está fazendo enquanto anda pelo mapa entra mais na categoria “ame ou odeie”. Eu considero a reação dos animais muito mais “realista” em “Way of the Hunter”, mas bem que eu gostaria de ter mais controle sobre a velocidade que eu ando. Neste caso a regra de ouro ainda é válida: faça a menor quantidade de barulho possível e você terá menos chance de alertar os animais. Isto é, a não ser que você decida andar de pé no meio de um campo aberto. Aí nem milagre vai te ajudar a achar um animal.

Na hora de caçar um urso, todo cuidado é pouco.

Quem vai sofrer mesmo, ao menos por ora, são aqueles que querem caçar juntos no modo online. Problemas de dessincronização e situações bizarras como um jogador entrar na sessão e ser de manhã na tela deles e na minha ser de noite eram a regra ao invés da exceção. Outro ponto que eu acredito será corrigido em atualizações futuras, mas se você não é um caçador solitário como eu, é melhor esperar um tempo até que o jogo seja estabilizado.

Para muitos a pergunta que não quer calar é ser a seguinte: “Deveria eu comprar ‘Way of the Hunter’ se eu já tenho ‘theHunter: Call of the Wild?”. Sim e não. No momento são jogos que se complementam, com pontos fortes e fracos e filosofias bem diferentes. Mas eu me lembro muito bem dos primeiros meses de “Call of the Wild”, da época em que os animais ficavam presos em pedras, onde o jogo sequer funcionava direito. É injusto esperar que um jogo recém-lançado tenha a mesma quantidade de animais de um que foi polido por cinco anos.

Mas agora, quando eu decido gastar uma tarde caçando animais virtuais, meu mouse vai quase que imediatamente para “Way of the Hunter”. Eu quero sentir a sensação de isolamento, de explorar um mapa imenso, de me sentir desafiado em um ambiente que não se importa comigo. A natureza é assim, e o jogo da Nine Rock Games faz um trabalho excepcional em demonstrar isso. Anote aí; “Way of the Hunter” vai longe.

Way of the Hunter

Total - 8.5

8.5

Total

“Way of the Hunter” tem um início humilde e com pouco “conteúdo” comparado a outros gigantes do mercado. Mas ele compensa ao criar uma sensação de isolamento e conexão com a natureza – natureza essa que não liga nem um pouco para você. Pegue o seu rifle, planeje a sua rota, encontre a sua presa. Já sei muito bem que as minhas 20h de jogo irão virar 100 em alguns meses.

Análise – Way of the Hunter

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.