Análise – Watch Dogs 2

É interessante ver a evolução de algumas franquias da Ubisoft. No mesmo ano em que tivemos The Division, um jogo que tenta se levar extremamente a sério e perde o tom, enquanto Watch Dogs 2 toma uma dinâmica completamente diferente do que esperava. Ele está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4 a partir de R$159,99.

Uma das maiores dificuldades de jogos open world é manter a atenção do jogador durante um longo período de tempo. A história, tendo de ser cortada em partes e esticada o máximo possível, prejudica o ritmo e o tom. Watch Dogs 2 está ciente disso e faz o melhor que pode ser feito, joga-a pela janela para focar-se nos personagens.

Não que o jogo não tenha uma história, ele até tem. Apenas é insignificante o suficiente para que eu possa parar de jogar por alguns dias, voltar e ainda me divertir sem ter que ler logs ou resumos da trama para me reacomodar. Minha motivação para continuar a jogá-lo ficava em Marcus Holloway e seus amigos.

Marcus é um dos poucos personagens feitos nos anos recentes pela Ubisoft que são carismáticos do momento em que você o vê pela primeira vez. Sarcástico, ousado, um que qualquer um pode se identificar de uma forma ou outra. E, como alguém que raramente se importa com protagonistas, isto em já é um feito e tanto.

O restante da DedSec, grupo de hackers ativistas da série, não deixa a desejar. Com muito pé atrás antes do lançamento, esperava o ápice do esteriótipo, mas acaba que a interação entre eles e Marcus é tão interessante quanto Marcus em si. Wrench é energético, Sitara mostra-se como alguém determinada pela causa de lutar contra a Blume e o sistema operacional CtOS 2.0, e Josh mantém o jeito “quieto” e superespecializado em invadir sistemas.

Entretanto, a maior mudança de Watch Dogs 2 é se estabelecer como o “maior playground” desta geração do que qualquer outra coisa. São Francisco não tem o mesmo tamanho das imensas ilhas de Just Cause 3, mas o que tem é conteúdo de qualidade de sobra.

As missões primárias ainda são voltadas para “vá até um local específico, entre furtivamente ou não e obtenha um item”, e quem julgar Watch Dogs 2 puramente por isto, vai acabar com um gosto ruim na boca.

Feito as missões iniciais, gastei as minhas primeiras cinco horas passeando por São Francisco, talvez uma das cidades mais detalhadas e densas dessa geração. É agradável de se ver como a Ubisoft ampliou a interação entre o protagonista e o cenário, assim como as pessoas que vivem naquela região.

Em um dado momento eu decidi usar uma das habilidades de Marcus, desativar sinais de trânsito, para ver como o jogo ia reagir. Um terrível acidente de transito aconteceu, que resultou em uma equipe de paramédicos ser enviada para cuidar dos feridos. Coincidentemente, um assalto acabara de ocorrer nas proximidades, onde pude então ver a ação da polícia em capturar o bandido e colocá-lo na viatura.

Este é um tipo de interação que eu sentia falta em jogos como Grand Theft Auto 5, por exemplo. A cidade era bonita de se ver, mas a possibilidade de gerar cenários fora do roteiro ainda atingia barreiras pouco atrativas.

Watch Dogs 2

A barreira que Watch Dogs 2 atinge é outra, a de contextualizar as diferentes facetas de São Francisco. Há um sistema de facções mal explicado, onde a área central da cidade é dominada pela polícia e as áreas mais pobres, por gangues. Que local é o que, eu não tenho a menor ideia. Em certos momentos eu era perseguido por policiais, outros por gangues e eu não tinha feito nada a eles. Algumas zonas protegidas por estas gangues não faziam sentido a não ser preencher para buraco, que entra em conflito com a com a qualidade das de atividades adicionais disponíveis.

Divididas em três categorias, cada missão gera mais “seguidores”, o sistema de experiência usado por Watch Dogs 2. As Side Operations retêm um aspecto mais parecido às missões primárias, apenas com um pouco de exagero incluso. Como roubar dados ou… evitar que uma pessoa se suicide em um carro. Sim, isto é bem sério.

Já as atividades secundárias — como corridas de Kart  —, assim como o componente multiplayer, é onde o game deita e rola em exorbitância. Não esperava que pilotar Drones em corridas bestas fosse tão divertido. Até mesmo “brincar” de ser Uber em São Francisco gera momentos hilários, como um dos passageiros pedir para dar umas voltinhas pelo quarteirão apenas para fumar maconha. Adicionar as zonas protegidas mencionadas anteriormente, portanto, só adiciona uma camada de gordura desnecessária. Menos é mais e Watch Dogs 2 quase aprendeu esta lição.

O multiplayer, entretanto, varia de ótimo a péssimo. Felizmente sem problemas sérios de conectividade, ele mantém o aspecto onde você deve “invadir” outro jogador à la Dark Souls 3. Entretanto, alguns simplesmente não se dão ao trabalho de sequer te procurar ou impedir que isto aconteça. Em parte, faltam ações que incentivam ações para interromper a invasão.

Que justamente se liga ao segundo grande problema de Watch Dogs 2, as habilidades adicionais. Como outros jogos da Ubisoft, ele tenta ser “de tudo um pouco” neste quesito. As quatro árvores de habilidade dão uma sensação de liberdade, mas ao mesmo tempo nem mesmo um terço dela é de fato efetiva. As principais habilidades ficam disponíveis em questões de poucas horas de jogo e o resto é detrimento do tempo de jogo.

Isto, infelizmente, causa uma divergência de design nas missões principais, que acabam por se tornar fáceis demais. O desafio é ditado pelo ritmo que o jogador completa os cenários secundários, e não as missões em si. Elas passam a sensação terem sido criadas dentro de uma bolha sem consideração pelas ações que podem influenciar o seu aproveitamento.

É um tema recorrente em jogos da Ubisoft desde que a desenvolvedora começou a expandir as fronteiras de acessibilidade dos seus jogos. O que, de forma alguma é algo ruim, mas ainda não encontrar o equilíbrio entre desafio e acessibilidade começa a ficar cansativo após ver o mesmo se repetir em Far Cry 4, Primal, dentre outros.

Mas, no fim das contas, Watch Dogs 2 consegue ser o melhor jogo open world da Ubisoft lançado recentemente e uma definitiva evolução do fraquíssimo antecessor. Pode não ter uma história memorável, mas conquista com a diversidade de protagonistas e atividades a serem feitas.

Watch Dogs 2

Total
Watch Dogs 2 dá importantes passos para melhorar uma série que começou com o pé esquerdo. Longe de conquistar pela história e ainda com alguns problemas nas missões principais, ele se sobressai em atividades secundárias e se destaca como um dos jogos open world mais divertidos do ano.
Bom

Análise – Watch Dogs 2

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.