Análise – Rainbow Six Extraction

Você já ouviu falar na pessoa que pega jogos cooperativos e espera que ele funcione tão bem quanto, quando jogados em modo solo? Se não, prazer, eu sou essa pessoa e esse é um dos principais motivos que Rainbow Six Extraction (Uplay / Epic Games Store / PlayStation / Xbox / Game Pass) funciona para mim.

Antes de mais nada, vamos colocar alguns pingos nos “i”s. Rainbbow Six Extraction é uma obra prima? Não, longe disso. Um bom pedaço do jogo é usado para te dar pretexto para atirar em monstros / seres alienígenas. Os mapas podem ser um tanto repetitivos de acordo com a configuração deles e seus objetivos. A seleção de personagens é adaptada de Rainbow Six: Siege e esse pode ser um dos maiores méritos do shooter.

Por dias eu fiquei me questionando a razão de eu gostar tanto desse jogo. A sua estrutura é básica do começo ao fim: você recebe três objetivos por missão, cada um com um grau de dificuldade. Se você quiser, pode completar um objetivo e voltar para a base. Está se sentindo audacioso? Então tente completar os três e sair com vida. Multiplique isso por quatro episódios e você tem a receita de Rainbow Six Extraction.

E mesmo com uma estrutura tão básica, há severas falhas com a forma que ela é passada ao jogador. Como mencionei, os mapas em si são em parte decepcionantes por não trazerem muita diferença entre si. Os objetivos podem variar de “vá ali e destrua cistos” a “capture um inimigo que vai te derrubar na primeira porrada”. Jogue uma, duas, três vezes e você já meio que decorou o layout de cada mapa. O fato deles serem divididos em regiões como Nova York, São Francisco, Alasca e afins não colabora. Os mapas de Nova York podem muito bem ser colocados dentro de um mesmo saco que você não vai notar muita diferença na estética.

A progressão em si é na base do “ame ou odeie”. Cada agente sobe de nível separadamente e há uma progressão “global” que avança à medida que você libera novas fases e, por consequência, novos equipamentos. A “pegadinha” é que, se um agente for derrubado durante a missão, você precisa resgatá-lo. Isso incorre em uma penalidade no nível dele e também o deixa indisponível para ser usado até que a missão de resgate seja feita.

Rainbow Six Extraction
Layout de mapas e missões repetitivas são os pontos onde Rainbow Six Extraction mais decepciona

“Ora Lucas, isso soa como um jogo que só pode ser jogado com um time completo e bastante coordenação!”, em partes sim. O que Rainbow Six Extraction mais exige do jogador é coordenação e trabalho em equipe. As fases avançadas, onde a equipe da Ubisoft espera que o jogador já tenha pego todas as manhas do shooter são a mais pura suadeira. Acontece que, até chegar nessas fases avançadas, é provável que boa parte da sua equipe já tenha morrido de tédio.

Eu consegui convencer outras duas pessoas a me acompanharem nessa jornada. A primeira deixou o jogo assim que chegamos no final da campanha em São Francisco. “Os mapas são tão fáceis, não tem desafio fora a missão de reconhecimento “, alegou. A segunda me deixou na mão bem perto dos momentos finais. “Está difícil demais para dois jogadores”. Eu concordei com ela.

 Esse é tanto um dos problemas-chave de Rainbow Six Extraction e também o motivo pelo qual ele funciona tão bem para mim como um shooter solo. Ele não consegue capitalizar em uma curva de dificuldade “suave”. Há horas em que é difícil demais para dois jogadores, fácil demais para três. É inconsistente e compreensivamente frustrante para muitos. Agora quando jogado em modo solo, ele atinge a dificuldade perfeita.

 Embora não tenha muitos ajustes fora a ausência de bots e redução na quantidade de inimigos, Extraction consegue a façanha de me deixar tenso, atento e ao mesmo tempo empenhado em completar a missão. Feito que eu reservo para jogos como o excelente Deep Rock Galactic e o formidável Zombie Army 4. Os jogos citados compensam pela ausência de outros jogadores, mas não por conta de uma “falha” por assim dizer em seu design.

Rainbow Six Extraction
Subir o nível de cada agente pode ser tedioso para muitos, mas os desafios que eu impus a mim mesmo tornaram divertido.

Os 12 mapas, que ainda continuavam repetitivos, eram um “playground” para eu testar estratégias viáveis com os diferentes personagens. Perdi um agente? Tudo bem, outra hora eu resgato – o que é perder experiência para quem já perdeu uma partida de mais de 15h em roguelikes?

Confesso que também que Rainbow Six Extraction me prendeu também pela ótima jogabilidade mais “tática e furtiva” adaptada de Rainbow Six: Siege, que saiu da minha lista de jogos depois de tantas mudanças drásticas ao longo dos anos. Os inimigos não são lá os mais inteligentes, mas eles são variados — apesar da estética sem sal — e perigosos, ainda mais em partidas solo.

Mesmo assim lá estava eu, calculando meus passos, tentando decorar a posição de munições e criando rotas de fuga caso a situação ficasse impossível de ser controlada. Essas situações aparecem até mesmo em mapas mais “simples” em Nova York. Eu não consigo imaginar que esse tenha sido o propósito da Ubisoft com Rainbow Six Extraction, mas foi como eu me adaptei a ele.

Para não dizer que desisti, até tentei jogar algumas partidas no modo matchmaking – que aliás tem suporte a cross-play – mas boa parte dos jogadores que eu encontrei foram divididas em dois grupos: aquele que corre pelo mapa todo e chama a atenção dos inimigos e aquele que fica parado no ponto de início e faz você falhar a missão. Nessas horas, antes só do que mal acompanhado.

Rainbow Six Extraction
Alasca é o ponto alto de Rainbow Six Extraction, boa sorte tentando passar das missões solo.

Não ouso colocar Rainbow Six Extraction como o meu “guilty pleasure”, detesto o termo e não existe problema algum gostar de jogos que não agradam a todos. No caso dele, a minha criatividade e vontade de completar desafios impostos por mim mesmo (como completar uma fase com um personagem “fraco”, o que já é mais cativante do que os objetivos mundanos que a Ubisoft colocou no jogo) fala mais alto.

Se tem algo que eu quero, é que a Ubisoft não desperdice o conceito base. Eu acredito que ele tem um sério potencial e que com os devidos ajustes – quem sabe uma dose extra de mapas ou novos layouts em futuras atualizações – ele não venha a ser também um bom shooter coop? A bola está no campo da Ubisoft para fazer isso acontecer, e eu espero que ela não jogue fora a oportunidade.

E, apesar dos pesares, ainda que eu parasse de jogar Rainbow Six Extraction hoje, me daria mais do que satisfeito. Para um jogo que eu não dava nada, e um com tantos deslizes no seu modo cooperativo, ele me surpreendeu. Pode não entrar na minha rotatividade de shooters mensais, mas vai sempre ter um espaço no meu coração por ter me dado a chance de ser criativo em um ambiente que era para ser tão restritivo.

Rainbow Six Extraction

Total - 8

8

Rainbow Six Extraction se esforça para funcionar como um shooter coop, mas a sua progressão em termos de dificuldade é inconsistente e a repetitividade dos mapas cansa. Todavia, ele é um bom shooter solo para quem não tem receio de se sentir desafiado, pontos extras se você gosta de criar as suas próprias regras e ser criativo.

Análise – Rainbow Six Extraction

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.