Análise – Call of the Wild: The Angler

“Mas Lucas, jogos de pesca fazem você perder o seu tempo!”, é o que me dizem toda vez que me veem jogando um desses. No caso de jogos free-to-play, sim, mas os poucos que são pagos e não possuem microtransações são sobre ter paciência, saber que tipo de vara usar, os melhores locais e horários para pesca. Call of the Wild: The Angler (Steam / Epic Games Store) quase, mas quase entra nessa categoria.

No minuto inicial que ele foi anunciado pela Expansive Worlds, criadores de theHunter: Call of the Wild, eu já fiquei entusiasmado. Um jogo de mundo aberto com uma grande variedade de peixes, múltiplos locais de pesca, progressão e multiplayer? Conta comigo! Foi então que eu comecei a jogá-lo e veio o choque de realidade; a desenvolvedora aparenta não ter aprendido nada com o lançamento de Call of the Wild.

Para quem não pegou o turbulento período de 2017, o jogo de caça que agora é “referência” do mercado saiu do forno como um pão queimado. A maioria das mecânicas não funcionavam, os animais desapareciam, não havia opção para personalizar nada e as missões raramente eram completadas com sucesso. Por incrível que pareça, boa parte das críticas que eu fiz na minha análise de theHunter: Call of the Wild também podem ser aplicadas em The Angler.

De início eu fiquei embasbacado com a apresentação das montanhas, das árvores, do cenário da reserva “Golden Ridge”. Eu não estava, porém, focado em caçar animais ou tirar belas fotos, eu estava lá para pescar. Fui levado para um tutorial básico de pesca e os primeiros choques de realidade chegaram.

The Angler
O maior desafio de The Angler não são os peixes, mas a água.

No presente momento The Angler pode ser considerado um jogo de pesca da mesma maneira que você passar três horas pescando em Animal Crossing pode ser considerado um jogo de pesca. Jogue a linha com a isca certa, espere alguns minutos e um peixe aparecerá. Ele provavelmente vai dar três beliscadas na isca até um imenso “STRIKE” aparecer na sua tela te indicando que é hora de fisgá-lo.

“Pera… isso é sério? Não, deixa eu ver as configurações de realismo do jogo. Ah, você pode ativar um assistente para facilitar lançar a linha, que bom, mas nada sobre desativar o strike”. Decepção não é o suficiente para descrever meus sentimentos.

Eu não estava na expectativa de um jogo com total realismo e imersão de pesca. Nem Call of the Wild é assim a respeito de caça, mas The Angler tem tanto medo de soltar a mão do jogador que ele dilui tudo o que envolve o ato de pescar em um minigame.

As doze espécies de peixe atualmente presentes no jogo são separadas apenas pelo local em que elas aparecem, horário, e profundidade. Temperatura da água e clima são fatores inexistentes em The Angler. Eu posso muito bem ir para um local pescar, esperar um minuto e um peixe vai aparecer. Isto é, se o peixe que eu quero não é um animal noturno. Caso seja, eu levanto e vou dar uma volta, pois não há nenhuma maneira de avançar o tempo no jogo.

Lagos menores sofrem menos com a péssima qualidade da água, mas muito abaixo do esperado para um jogo de pesca.

O próprio tempo é inconsistente, e ainda não sei se é um bug ou uma decisão da Expansive Worlds. Quando eu estou próximo de locais de pesca as horas parecem correr mais lentamente e quando eu estou em outras áreas do mapa o jogo vai da noite para o dia em cinco minutos. Uma excelente opção se você gosta de fazer fast travel, ou pegar o carro e sair dirigindo que nem um louco para chegar em um lago do outro lado do mapa antes que amanheça ou anoiteça.

Como o pescador virtual veterano que eu sou, não me dei por vencido e almejei testar todos os diferentes tipos de iscas – naturais ou não –, a profundidade delas e outros estilos de pesca. Quase fui impedido por outro fator inesperado: o visual da água, que é horrível.

Uma das técnicas que eu mais estou acostumado a usar em jogos de pesca é o “Stop and Go” para as crankbaits, que vão de 1,5m a 3m de profundidade. Em suma, você recolhe a isca com intervalos moderados fazendo com que a isca fique em repouso e mude a sua trajetória inicial. The Angler não altera a trajetória inicial da isca, algo com o qual eu consigo conviver, mas eu sequer consigo enxergar onde está a minha linha de tão borrada que é a água. Passei mais tempo olhando para o indicador no canto direito da tela do que para a água.

Esse problema afeta todo estilo de pesca do jogo. Até mesmo a mais básica com boia e uma isca de superfície requer que eu cole a cara no meu monitor para conseguir distinguir a boia do borrão que é a água.

Esta imagem captura a “diversão” que eu estava tendo com as mecânicas de The Angler

A Expansive Worlds mencionou em um post após o lançamento de The Angler que eles estão trabalhando para que a visualização da boia se torne mais fácil. Mas, para um jogo de pesca, isso não era para sequer ser um ponto de discussão. Outros jogos como “Ultimate Fishing Simulator” e “Fishing Planet” nas suas opções de realismo ao menos oferecem uma câmera debaixo d’água para compensar, mas isso não está presente em The Angler. Lembre-se, ele é sobre “realismo”, ou é o que a desenvolvedora almeja.

Nem mesmo no sistema de progressão a Expansive Worlds acerta a mão. Ao invés de seguir o modelo Call of the Wild de liberar novos equipamentos de acordo com o nível, o que garante ao menos que você tenha noção de como usar o tipo de isca ou o estilo de pesca, ele é apenas um número. Você ganha dinheiro ao subir de nível e… bem… é isto.

O que me leva para a seguinte pergunta: The Angler quer trazer autenticidade para o ato de pescar, mas não inclui sistemas cruciais, falha em considerar diferentes estilos de pesca e ainda tem defeitos visuais seríssimos. Que parte da pesca eu devo considerar “autêntica” ou “realista”? O fato dele não ter uma câmera submersa? De que eu não posso avançar o tempo? Ou estamos falando de mais um episódio de “quem sabe, daqui a três anos, The Angler possa valer a pena”? Creio que seja a última opção.

The Angler
Bom, ao menos você pode admirar belas paisagens.

Eu teria facilmente trocado o gigantesco mundo aberto – que não serve para muita coisa além de te trazer missões que contam a história da reserva, claramente algo que é de suma importância em um jogo de pesca – por um com múltiplos lagos e mais espécies de peixe. Entretanto, isso acabaria fazendo The Angler ser só mais um jogo de pesca no mercado — que é exatamente o que a Expansive Worlds não quer.

Em virtude de tantos problemas e decisões bizarras, acaba que justamente não querer ser igual aos outros jogos de pesca é o maior acerto e erro de The Angler. Atualizações virão, novas reservas – provavelmente em formas de DLC – e correções serão disponibilizadas ao longo dos próximos meses. Isso não isenta a desenvolvedora de colocá-lo à venda em um estado tão precário e tão desmotivador.

The Angler é o primeiro jogo de pesca pago sobre o qual falo com propriedade: eu perdi o meu tempo nele, em alguns momentos até mais do que os jogos free-to-play contra os quais ele tenta competir. As coisas vão melhorar no futuro, eu acho, mas eu não devo voltar.

Call of the Wild: The Angler

Total - 4

4

Se você quer um jogo de pesca com um mapa imenso, The Angler é uma escolha certa. Infelizmente, esse é o único ponto positivo dele. Das mecânicas de pesca aos problemas visuais da água, a Expansive Worlds não aprendeu nada com o theHunter: Call of the Wild. Eu não estou disposto a esperar seis meses ou mais para ele estar “pronto”.

Análise – Call of the Wild: The Angler

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.