Análise – Brigador

Uma rua que você já conhece. Já esteve nela inúmeras vezes. A munição está prestes acabar, apenas mais um quarteirão e o objetivo será completo. Entre você e ele, um exército de robôs que irá te dizimar em segundos no instante que você mostrar um centímetro de sua armadura. Brigador é intenso do começo ao fim, mas também não sabe muito bem o que quer da vida. Ele está disponível no Steam por R$ 55,99.

Os primeiros minutos de jogo de Brigador foram como um longo tapa na cara. Ele se vende como um jogo puramente de ação onde você apenas deve destruir tudo o que vê pela frente. Em partes, sim, é bem provável que você destrua tudo que ver pela frente, mas como você faz isso é o que traz a diversão.

Seu arsenal é no mínimo digamos que… peculiar, como uma torre de carros empilhados armada com um canhão laser e uma espingarda de curto alcance. Ou, talvez o meu favorito, o Party Van. Nada mais, nada menos que uma pequena van que é capaz de desviar dos disparos inimigos com certa agilidade, ter artilharia e metralhadoras de longo alcance.

A forma que as mecânicas são apresentadas, porém, são decepcionantes. Quando comecei a jogar demorei a entender o motivo de não causar dano, ou ao menos não o dano que esperava nos oponentes. Ele aplica um terrivelmente mal explicado sistema de distância das armas onde você tem de mirar em um ponto específico do inimigo para danificá-lo propriamente.

O conceito em si me empolga horrores, enquanto a aplicação me incomoda. Foi basicamente uma mistura de tentativa e erro em várias missões até descobrir qual a distância entre o chão e o inimigo que deveria acertar. E o pior, tudo isso em um período de tempo minúsculo onde cada vez mais tropas vem em sua direção como se não existisse fim.

Entre tapas na mesa e palavrões, comecei lentamente a pegar o ritmo das coisas em Brigador. É um jogo de ação, onde planejamento deve ser a sua primeira arma. Atacar uma fortificação inimiga na força bruta apenas resulta no desejo de não ter feito isso em primeiro lugar. Ter conhecimento da distância entre o oponente e o campo de visão também é de suma importância, mecânica reforçada com habilidades especiais como camuflagem e granadas de fumaça para interromper o contato com o inimigo, se distanciar e tentar outra aproximação ao objetivo.

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Esta camada tática triplica a variedade de possibilidades de alcançar um objetivo. O mapa vai além de um playground para algo onde táticas são desenvolvidas em segundos. Traçar rotas, aprender a fraqueza do inimigo, estabelecer zonas de controle com armamentos que impedem o inimigo de te alcançar. Isto impulsionado pela trilha sonora e as explosões que ocorrem a sua volta.

Foi depois de algumas horas que a genialidade da sua implementação veio à tona. A liberdade do modo Freelancer, de ser o que quer, como e quando quer. Sai de uma estrutura típica onde você tem de fazer as coisas da maneira que ele te pede — apesar da campanha ainda ser um grande componente — funciona como uma caixa cheia de brinquedos para decidir o que fazer no próximo combate.

Ao mesmo tempo, como apontei, ele não sabe bem o que quer. Você é obrigado a ganhar dinheiro na campanha para aí poder desbloquear novos veículos e armamentos no modo freelance. O que ao meu ver, é frustrante, pois as missões da campanha são bem menos interessantes do que o modo Freelance.

Nelas você é limitado a quatro tipos de robôs com armamentos específicos. Em grande parte delas me sentia restringido a usar armamentos que não gostava, fazer objetivos que não me agradavam, tudo para conseguir me divertir depois.

Entendo, em partes, da necessidade de um sistema de progressão para fazer com que o jogador se sinta engajado. Mas, puni-lo por não ser bom o suficiente ou não ter a habilidade necessária com um dos veículos disponíveis na campanha e ao mesmo tempo não o deixar ter acesso ao modo Freelance de cara não cai bem. Isto me lembrou bastante da minha infância, não aqueles momentos felizes, mas aquelas horas que a minha mãe me fazia comer chuchu para depois poder comer cheetos. Ao menos nesta breve história eu aprendi a ser recompensado e não ter meu robô esmagado pela milésima vez apenas porquê o estilo de jogo não se adaptava ao meu.


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Quanto mais penso nisto, mais me frustra, pois eu empacava em fases por horas apenas por não ter a mobilidade ou a coordenação necessária para alguns dos veículos disponíveis. E acredite, são muitos. Uma das fases quase me fez jogar o mouse na parede pois ou eu usava um tanque gigante e lento ou um robô ágil demais que tinha de se esconder a cada segundo para não virar destroços.

Não ajuda também a câmera isométrica o que, sinceramente, é o menor dos meus problemas em Brigador. Controlar alguns robôs é uma questão de paciência e prática. Controlar a parte superior do robô com o mouse e as pernas com o teclado é uma receita básica para se enrolar todo, mas aprecio o desafio. No momento que você pega o ritmo, é só destruição e caos na sua frente.

Entre o futuro distópico, uma trilha sonora estilo anos oitenta, uma cidade a ser libertada de um terrível tirano, Brigador fica em uma estranha posição. Por um lado, encoraja o jogador a jogar da maneira que quiser, mas desde que siga algumas regras primeiro. A partir do momento que você se solta dessas amarras irritantes; e constrói um poderoso e diversificado arsenal, você simplesmente não para de jogar.

“O que aconteceria se eu usasse essa artilharia junto com essa metralhadora e depois acoplasse em um tanque?” Ou “Quem sabe eu não posso causar destruição completa com um lançador de granadas e destruir inimigos menores com um laser?” Eram alguns dos meus pensamentos enquanto descia a lista de opções do modo Freelance, apenas para lembrar que por perder a última missão eu não tinha dinheiro o suficiente para desbloquear algo.

Tenho grande apreço por jogos independentes quando eles se focam exclusivamente em uma mecânica e fazem o melhor uso dela. Brigador atinge isso na jogabilidade, mas se perde entre tentar agradar um público maior do que deveria. Uma campanha bem estruturada ou um modo que te dá mais liberdade? Escolhas difíceis a serem feitas. No final de tudo são apenas robôs destruindo uns aos outros e a ação de momento-a-momento me enche de adrenalina. Só gostaria que não tivesse que sofrer tanto para chegar nela.

Brigador

Total - 8

8

Brigador oferece mecânicas que dão grande espaço para o jogador montar o próprio arsenal de destruição, porém não consegue se decidir entre fazer uma campanha bem estruturada ou um modo aleatório com mais profundidade. Você quer robôs gigantes, exageros como vans com metralhadoras? Vá em frente, apenas saiba que terá de passar por uma espessa camada de gordura para aproveitar o que realmente diverte, a liberdade de escolha.

Análise – Brigador

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.