Análise – Boomerang X

Das dezenas de problemas de saúde que eu tenho, um dos mais irritantes é conviver com enjoo. É enjoo de manhã, enjoo na parte da tarde, acordar no meio da noite enjoado. É um efeito colateral dos meus remédios, e um que não é contornado com facilidade. Nos meus piores dias eu tenho uma única ferramenta eficaz contra o problema: shooters em primeira pessoa com uma incrível velocidade e agilidade. Sei que soa o contrário do que deve ser feito — e não recomendo que o faça sem antes consultar um médico. O que tenho certeza é que Boomerang X (Steam / Nintendo Switch) da Dang! e publicado pela Devolver Digital segurou uma barra e tanto para mim.

Embora eu não saiba o motivo pelo qual o meu cérebro consegue se focar na ação frenética de Boomerang X, não precisei nem de 20 minutos para descobrir que ele seria meu companheiro “perfeito” para uma semana que estava sendo um tanto quanto dolorosa. Ele começa chutando a porta com os dois pés: você acorda em uma ilha desconhecida, recebe um escudo e um bumerangue e parte logo para a ação.

O melhor jeito que eu posso descrever a sensação de jogar Boomerang X é ser colocado dentro de uma batedeira que é ligada de tempos em tempos. Você é jogado para tudo quanto é lado e tem um pouco de descanso entre cada uma das várias arenas, nas quais você deve se esquivar de hordas de inimigos, pular, teleportar e alinhar os disparos do seu bumerangue para eliminar inimigos específicos (marcados com uma medalha) e avançar.

“Lucas, isso é a coisa mais absurda que eu já li; como você consegue, enjoado, jogar isso”? Primeiro, se você tem uma conta no Twitter eu sei que não foi a coisa mais absurda que você já leu, mas eu concordo com você, caro leitor(a) que está embasbacado com a ideia. Mas aí é que está o ingrediente secreto, ao menos na minha situação, com esse tipo de jogo: Boomerang X dispara todos os sentidos e requer um reflexo um tanto aguçado, o que acaba fazendo com que eu ignore o desconforto do enjoo e me foque em dar o melhor de mim para vencer cada mapa.

Nesta área a “Dang!” não deixa nem a peteca nem o bumerangue cair. Tudo o que diz respeito ao ritmo de cada mapa — da obtenção de novas habilidades até a aparição de novos e mais elaborados inimigos — é conduzido como uma orquestra que praticou por anos até chegar o mais próximo da perfeição. Até as arenas mais difíceis não te frustram. Toda vez que eu completava uma arena — que varia de 5 a 6 ondas de inimigos — já vinha o pensamento de “Eita, o que será que vem pela frente?”

Quando não era uma habilidade nova, como a capacidade de tornar o tempo mais lento — uma que você vai usar bastante para alinhar os disparos do bumerangue —, ou a capacidade de se teleportar, ou de soltar mini-bumerangues, era algum pedaço de história. A “Dang!” mantém a narrativa para o lado menor da coisa, mas a sensação de estar tanto em um mundo peculiar como um que passou por uma devastação há muitos anos é marcante.

Com cada área tendo o seu próprio “bioma”, por assim dizer, e sua própria série de desafios, plataformas e perigos, eu me sentia em parte como um invasor — tanto como os inimigos que permeiam as arenas. Um certo desconforto de não pertencimento àquele lugar, que eu estava lá para fazer o “trabalho sujo” e ponto.

Falando nelas, algumas das áreas são a causa de uma das minhas poucas críticas sobre Boomerang X. O estilo visual distinto dele em relação a outros “shooters” do mercado já vale o investimento, mas queria que a “Dang!” tivesse dado um pouco mais de atenção para facilitar a visualização de certos perigos no mapa. Eu perdi uma rodada em uma arena porque eu imaginei que o fundo do mapa era água rasa e não um poço sem fundo. E isto chega a ser o máximo da exceção que eu tenho a fazer pelo jogo.

Boomerang X

Pois o resto é sublime. A “Dang!” acerta a mão na dificuldade crescente e na precisão dos controles, seja com o mouse e teclado ou com um controle (com a opção de alterar a dificuldade de acordo com o dispositivo usado). Eu jamais senti que o jogo tinha “trapaceado”, ou que eu fui impedido de avançar por um erro que não partiu de mim. A fluidez da movimentação, das animações, e o quão responsivas são quando você dispara seu bumerangue contra os inimigos é digno de ser estudado por qualquer pessoa que tem um interesse em desenvolver um shooter.

E, mesmo que você não seja alguém como eu — que tem um certo fanatismo por jogos de horda e quer que seus reflexos sejam levados ao limite — há várias opções de acessibilidade, que incluem suporte a diferentes cores para pessoas com daltonismo ou “invencibilidade” para certas habilidades.

Da minha parte, agora que completei a campanha principal, já pulei para o New Game+ — um tanto mais difícil já na sua primeira área — e planejo levar até o final. Quem sabe até, se eu estiver com paciência, ativar o modo speedrun e ver em quanto tempo eu consigo completar cada área.

Uma coisa é certa: Boomerang X não deve sair da minha rotação de jogos tão cedo. É fantástico em sua execução e um ótimo “remédio” para os meus enjoos. É também um ótimo reforço para mim, tanto como crítico como jogador, de que você não precisa seguir a onda de lançamentos, cada vez mais brutal para quem tem um site, ou esperar que um jogo que te trouxe paz um dia vai surtir o mesmo efeito em outra situação.

Boomerang X

Falo isso principalmente por textos como os que fiz de Cloud Gardens e Dorfromantik. Eu ainda os amo e não duvido que cedo ou tarde eu vá revisitá-los, seja por causa de uma atualização ou porque me deu vontade de criar algo criativo.

Mas quando você está no ápice de uma crise, de uma sensação constante de desconforto, às vezes o melhor que pode ser feito é pegar um arena shooter e destruir tudo o que vê pela frente. Não é o remédio recomendado pelos médicos, como muito bem falei no começo do texto, mas foi o remédio que me fez superar uma semana caótica. Agradeço e muito o impacto que Boomerang X trouxe para este momento tão crítico da minha vida.

Além do que, estamos em 2021; não há como negar que vivemos em um mundo tomado pelo caos, desconfiança, desamparo e desespero. O que é uma dose extra disso, mas com a exceção de que você está potencialmente no controle da situação? Pegue o bumerangue, salte, destrua inimigos, faça o que achar melhor, mas se isso te deixar com um sorriso na cara no final do dia, valeu a pena. E Boomerang X vale a pena.

Boomerang X

Total - 9.5

9.5

Sublime em sua execução, Boomerang X não perde tempo em te dar as ferramentas para enfrentar arenas insanas, frenéticas e caóticas. Dentro desse caos eu encontrei uma paz interior em um momento grande de crise. Ele pode não ter o mesmo efeito com você. Mas mesmo que não tenha, ainda é um dos melhores jogos em primeira pessoa do ano. É bom preparar sua mira e seus reflexos, pois você vai precisar.

Análise – Boomerang X

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.