Análise – Act of Aggression

Tenho um grande receio quando alguma empresa diz que “irá homenagear os clássicos”. Dessa frase, podem sair duas coisas: Um jogo que faz jus aos clássicos ou uma tentativa desesperada de se apoiar em nostalgia para entregar um produto mediano. Act of Aggression, disponível no Steam, consegue fazer ambos papéis.

Act of Aggression usa como pano de fundo um futuro próximo rodeado pelo caos, com grandes conflitos terroristas pelo planeta, a perda do balanço da ordem global e todos os outros estereótipos que vemos em games que simulam conflitos “modernos”.

Três facções estão disponíveis: Cartel, Chimera e o exército dos EUA. Cada uma oferece um estilo de jogo diferente. Chimera é voltada para unidades mais defensivas, enquanto tanto o Cartel quanto o exército dos EUA utilizam unidades voltadas a preencher certos papéis na batalha e devem ser utilizadas em situações específicas.

A campanha para um jogador oferece dois pontos de vista, a facção Cartel e Chimera. Apesar da estrutura linear, ela “te joga” no meio das coisas sem uma explicação coerente. Ao selecionar a primeira missão, um vídeo me informa sobre um suposto terrorista que está a solta e que a próxima missão seria a única chance da Chimera de captura-lo. Qual é a importância desse terrorista, quais são seus planos, nada disso estava presente. Junto a isso o vídeo em si é bem mediano, uma atuação fraca e uma apresentação risível.

A falta de uma narrativa envolvente é um problema constante em jogos de estratégia. Há uma certa dificuldade em conectar o jogador com os personagens ali apresentados. Os objetivos se tornam apenas caixas a serem marcadas, não me davam uma sensação de que eu havia alcançado algo. Eles estavam ali apenas para gastar meu tempo até a próxima cinemática mediana com mais informações confusas e desinteressantes.

Não é de hoje que a Eugen Systems lança um jogo com uma campanha mediana, já que a franquia Wargame – a qual trabalhou nos últimos anos – apresenta os mesmíssimos problemas. Esperava que com a adição de uma trama mais elaborada isso seria quebrado, infelizmente não foi dessa vez.

Assim como Wargame, Act of Aggression aposta pesado no multiplayer para decolar e criar uma grande comunidade. Com suporte até 8 jogadores, as partidas são mais lentas que Starcraft, porém sempre te mantém em alerta. A qualidade das que tive variavam consideravelmente. Em algumas, era massacrado enquanto outras eram mais balanceadas. Prédios eram destruídos, casas reduzidas a poeira com artilharia e caças despejavam toneladas de bombas no mapa.

Quando a partida chega no ponto onde o confronto é inevitável, as cenas são impressionantes. A atenção aos detalhes – como explosões, fumaça, iluminação – ficam evidentes. Para isso, pode preparar uma placa de vídeo potente, pois as configurações máximas farão até as mais potentes suarem para conseguir rodar em uma taxa de quadros aceitável.

Por mais belos que fossem os confrontos, o problema de Act of Aggression não está neles. Eles começam muito antes da primeira bala ser disparada. É a sua interface.

Act of Aggression

O primeiro passo para transformar um game de estratégia em um sucesso está em oferecer uma interface que seja legível e de rápido aprendizado. Act of Aggression vai no sentido completamente contrário. Em resumo, ela é uma zona. Não há maneira melhor para descrevê-la, ela não funciona para o estilo de jogo. Da distribuição de informações as unidades, só via decepção após decepção.

Apesar de possuir três facções, as unidades são esteticamente similares. Não há problema nisto, até o momento que o combate acontece, o mapa some em fumaça e você não consegue discerni-las corretamente. Isto em um jogo de estratégia é terrível.

A tomada de decisões em um curto espaço de tempo é crucial na vitória, como posso toma-las se ao mesmo tempo tenho de lutar contra a interface? Não é só a questão de unidades, é praticamente tudo.

Navegar pelo mapa é um caos, por exemplo. Os níveis de zoom chegam a ser satisfatórios, ao menos até usar o zoom mínimo, ou a visão de satélite, como é chamada. As unidades se transformam em um mar de pequenos pontos difíceis de discernir. Não falo de soldados, falo de tanques, unidades de transporte.

Nem mesmo o menu de construção se salva. Até os ícones, sim, os ícones se confundem. Claro que, junto a eles vem a descrição do que cada edificação ou unidade faz, mas deveriam ser fáceis de serem compreendidos ao bater o olho. Isto, unido ao problema das unidades, me deixam receoso de investir horas em aprender mecânicas mais avançadas ou táticas de combate. São erros que com futuras atualizações podem – até certo ponto – serem consertados. Resta saber se a Eugen Systems estará disposta a fazer o necessário.

Jogá-lo me fez perceber algo. Eu não sinto falta dos jogos de estratégia da década de 90. Não sinto saudade das suas mecânicas, da constante ênfase em controle de zonas por meios de bases ou suas campanhas medianas. De lá para cá o gênero agregou muitos elementos, novas maneiras de interagir com o jogador e tornar não só as partidas, como estudar táticas, mais divertido. Enquanto jogava as partidas, só conseguia pensar que existem maneiras mais interessantes de engajar o jogador em explorar, avançar e atacar.

Act of Aggression cumpre o papel o qual foi designado, ser um game nostálgico para aqueles que sentem saudades dos RTSs da década de 90. Eu infelizmente descobri que não sou um deles. Se você não se importa em aguentar uma campanha mediana e uma interface que precisa de muito trabalho para se tornar boa; há algo de bom para você. Para o resto, recomendo encontrar uma cópia de Command & Conquer: Generals.

Análise – Act of Aggression

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.