Análise – Thimbleweed Park

Saudosos fãs adoram falar dos adventures dos anos 90, como eles eram especiais, como eles tinham puzzles “inteligentes” ou um ótimo humor. Até o momento em que você pega um jogo que faz tintim por tintim as mesmas ações e então percebe que algumas dessas mecânicas não envelheceram muito bem. Thimbleweed Park, da Terrible Toybox está copiosamente ciente disto. Ele está disponível no Steam, GOG e Xbox One a partir de R$ 36,99.

A história começa com um misterioso assassinato na cidade de Thimbleweed Park, antes conhecida por sua fábrica e point da “alta sociedade”, mas agora fadada ao esquecimento. Para resolver o caso estão os agentes Ray e Reyes. Conhecendo o trabalho anterior de Ron Gilbert e sua equipe, não podia esperar uma trama mais bizarra, engraçada e autoconsciente. Os investigadores são apenas dois dos cinco personagens jogáveis, e propositalmente deixo os outros em mistério para não estragar algumas (ótimas) surpresas.

A interface pode remeter aos games anteriores de Ron Gilbert, como Monkey Island, Maniac Mansion e Zack McKracken, porém a maneira que a usa não poderia ser mais moderna. Ela retém o tradicional “saiba como e quando usar certos termos localizados no canto inferior da tela” como “olhe para uma placa” ou “pegue um objeto”, mas a sensação de tentativa e erro, e consequentemente frustração, é reduzida.

Ao contrário de clicar em cada parte do cenário até descobrir onde usar o objeto, ele indica uma das possíveis ações. Para quem jogou adventures por anos isso é uma dádiva. Nem sempre a ação indicada é a correta, entretanto já ajuda a desenvolver uma linha de raciocínio. Ou seja, nada de puzzles como o da tartaruga de The Dig ou o terrível puzzle de Gabriel Knight 3 (Desculpe, mesmo depois de 20 anos ainda tenho trauma deles).

Posso nadar o quanto quiser contra a maré, a realidade é que nem todo mundo vai ter paciência de descobrir a ordem correta de usar itens que ao primeiro olhar não possuem correlação. Para isto ele vem com dois modos de dificuldade, um que simplifica certos puzzles e o estilo clássico pelo o qual Ron Gilbert, Tim Schafer e outros da época da Lucasarts ficaram conhecidos. Jogado o suficiente de ambos, o casual mode é sem dúvidas uma das minhas adições favoritas.

Thimbleweed ParkTal modo preserva a sensação de desafio sem se apoiar em uma estrutura que reforça uma linha de pensamento onde você tem de constantemente “pensar fora da caixa”. Dado o atual estado dos adventures, um modo mais simplificado é uma boa adição para quem não tem a devida experiência com o gênero.

O que me conquista de vez em Thimbleweed Park é o tom o qual a história é contada. Há tempos não soltava tantas gargalhadas enquanto jogava um adventure. Nos primeiros minutos de jogo eu já me deparo com duas mulheres vestidas de pombo que me alertam “Os sinais estão fortes esta noite”. “Vocês estão relacionadas por um acaso a um assassinato que ocorreu recentemente? ”, foi a minha primeira questão. A resposta não poderia vir da melhor forma “Olha, sabemos que estamos vestidas como pombos gigantes, mas isso não quer dizer que vamos matar alguém…, mas os sinais estão fortes esta noite”.

A conversa absurda é apenas um trecho da insanidade de Thimbleweed park, que tem um xerife cheio de trejeitos e que ao mesmo tempo se passa por legista. Céus, de onde veio tanta imaginação? Isto se estende ao longo das cinco ou seis horas de jogo, onde tive de dar pequenas pausas para respirar pois minha barriga doía de tanto rir.

Os cinco personagens jogáveis têm diferentes personalidades e atitudes perante certas situações, o que me dava ainda mais vontade de descobrir como eles reagiriam em certos diálogos. Reyes, o policial novato, tenta bancar o durão e solícito. Ray, o completo oposto, está de saco cheio de Reyes desde os primeiros minutos da trama e abomina trabalhar no caso do assassinato com ele. O grau de dinamismo entre eles não vejo desde Sam & Max ou em pequenos trechos da franquia Blackwell.

Me chame de antiquado o quanto quiser, porém sinto que muitos adventures atuais tendem a se focar demais na parte de “aventura” e menos no desenvolvimento de personagens. Thimbleweed Park equilibra isto da mesma forma que Kentucky Route Zero, a franquia Blackwell e outras pérolas que muitas vezes passam despercebidas.

Se há algo que me deixa decepcionado em Thimbleweed Park é a tentativa de quebrar a quarta parede e estabelecer um diálogo com o jogador. Momentos como este tiram o foco da tão interessante narrativa a troco de uma meia dúzia de risadas. Passa a sensação de que a desenvolvedora não estava confiante o suficiente de que os personagens fossem se manter interessantes ao longo da história e, no fim das contas, eles superam as minhas expectativas.

Evito chamar Thimbleweed Park de uma carta de amor aos adventures dos anos 80/90, ele é mais do que isto. É capaz de não se esquecer as origens, ao mesmo tempo estar em sintonia com o gênero que tanto evoluiu nos últimos anos e entregar um jogo de qualidade, repleto de humor e situações inusitadas.  Muitos anos atrás

Thimbleweed Park

Total - 9

9

Thimbleweed Park vai além de uma mera “homenagem”, cria uma identidade própria, personagens bem desenvolvidos, quebra-cabeças que não caem nas falhas do antepassado e ainda consegue ter uma estrutura para atrair uma nova geração de jogadores ou aqueles que apenas querem aproveitar a história com o modo casual. Se você busca um adventure deveras competente, encontrou

Análise – Thimbleweed Park

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.