Análise – Husk

Do momento em que li que Husk tentava prestar uma homenagem a Silent Hill e Twin Peaks, fiquei com o pé atrás. São dois elementos que, apesar de terem certas semelhanças, quando combinados não são sinônimo de algo bom. E infelizmente, o game que está disponível no Steam por R$39,99 mostra isso de uma das mais dolorosas formas possíveis.

Husk começa com a viagem de trem de um homem, sua esposa e sua filha para a cidade de Shivercliff. O motivo? Visitar mais uma vez o seu pai que está com uma doença terminal e apresentar a cidade onde nasceu para sua filha. Em meio a diálogos mal atuados, sua filha e esposa vão ao banheiro e desaparecem. Clichê? Pouco. Passados alguns minutos, você toma controle do personagem e vai em busca delas. Já nestes minutos iniciais o jogo se perde.

Luto para entender qual exatamente era o foco de Husk, parte terror, parte exploração, parte combate. O trem em que você está está misteriosamente sofre um acidente convenientemente próximo a cidade de Shivercliff, onde começa a buscar pistas do paradeiro da sua família. Em meio a isto, surgem monólogos que tentam explicar a difícil convivência do protagonista com o pai.

Nenhuma das duas opções são bons elementos que motivam o jogador a seguir em frente, mais da metade do tempo eu procuro por anotações espalhadas em locais aleatórios para abrir portas e prosseguir e na outra metade eliminando monstros ou me escondendo deles.

Ele levanta questões que não são respondidas, nem mesmo mencionadas ao longo da trama. Em um momento o meu personagem comenta de ter passado muito tempo no posto de polícia da cidade, mas não entra em detalhes sobre o motivo. Fica implícito um passado relativamente sombrio, mas é uma informação que não enriquece a narrativa. Husk está cheio disto, pedaços de papéis sobre um atentado no Japão, acontecimentos em outras cidades, etc. Eu fiquei na expectativa que isso evoluísse para algo mais do que “algum papel para dizermos que temos uma ‘backstory’” e dei de cara na parede.

Husk

Os próprios monstros em si não têm o menor sentido. Eles não são fragmentos da memória, nem um vírus, nem nada. Eles são monstros, fim. Parabéns, isto significa que Husk acabou de preencher uma caixa no formulário “temos um jogo de terror”. Pelo menos ele me deixa combate-los, ao contrário das trinta e oito cópias lançadas nos últimos anos onde a única opção era me esconder.

Mas nem com essa opção o combate é engajador, a inteligência artificial é sofrível e eles preenchem um buraco que não existe. Entre numa sala, mate-os com três ou quatro tiros, siga em frente. Nem mesmo a monotonia consegue ser quebrada com isto.

Tudo é arrastado sem motivo, a trama não vai a lugar algum, os cenários pelos quais o jogador passa não criam uma ligação com ele, são apenas espaços transitórios. É diferente de, por exemplo, um hospital de Silent Hill 2.

Brookhaven Hospital tem uma ligação direta e indireta com James, sendo a primeira a doença de sua esposa e a sensação de abandono que o local passa, posteriormente explicada pela história. Os próprios monstros do local, quando visitado no modo “Otheworld” são uma extensão da mente de James.

Husk não consegue transmitir a ideia de maneira clara, apesar de que também tem uma ideia de destruição e abandono, mas sem uma motivação por trás disto. O protagonista anda pelos seus corredores, encontra papéis, anotações e luta contra monstros genéricos até achar a saída.

Para não dizer que tudo está perdido, a cidade de Shivercliff é de fato um local belo de se explorar, com uma tremenda ênfase nos pequenos detalhes e em torna-la o mais “real” possível. Tal realismo, no entanto, não consegue sustentar todos os problemas trazidos pelos outros elementos do game.

Este é o aspecto de homenagens que me faz detestá-las, a ideia que basta replicar certos elementos, estripa-los do contexto o qual foram criados e pronto, está criado. Jogá-lo é como ver uma pintura de um dos seus artistas favoritos feita por outra pessoa. Pode ser até bonita de se ver, mas assim que você percebe que não tem muito conteúdo, vai sempre preferir a original.

Não chego a dizer que Husk é um jogo medíocre, apenas que no meio da necessidade de tentar criar referências, perde a sua alma. Vira, portanto, mais um jogo de terror que dificilmente vai deixar alguma lembrança. Quanto a inspiração em Twin Peaks? Eu ainda estou tentando achá-la.

Husk

Total - 6

6

A tentativa de homenagear duas séries icônicas faz com que Husk se perca e não encontre seu foco. Um jogo de terror genérico, sem alma e que é incapaz de gerar motivos para que o jogador percorra seus corredores sem se sentir entediado.

Análise – Husk

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.