Análise – Endless Space 2

Me impressiona a capacidade da Amplitude de unir mecânicas com um lore interessante e ainda levar o gênero 4X para novas direções. Após fazer isto com Endless Legend, Endless Space 2 traz mais provas da genialidade da desenvolvedora francesa. Ele está disponível no Steam a partir de R$79,99.

Endless Space 2 é em partes um 4X tradicional com grandes pinceladas de experimentação. Como aconteceu em Endless Legend, o foco é abraçar a personalidade de uma das oito facções disponíveis. Os Horatio podem assimilar outras facções menores via o DNA delas, o que faz com que seus traços sejam incorporados aos outros habitantes. Já os Riftborn são capazes de manipular o tempo e o espaço em cada sistema solar que controlam, o que garantem boosts para a sua produção.

Independente de qual facção escolher, Endless Space 2 pede para que o jogador saia de sua zona de conforto e descubra novas maneiras de interagir com o universo. Uma partida com os Unfallen — raça que cria “vinhas celestiais” — é completamente diferente de uma como os Riftborn. Os Unfallen são pacíficos, demoram mais a expandirem a sua civilização e devem ser jogados com cautela. Por outro lado, ganham bônus de pesquisa tão grandes que não precisam de uma galáxia enorme para se tornarem uma superpotência.

Na medida em que jogava, e o sistema de quests começava a dar suas primeiras aparições, mais próximo e interessado eu ficava por cada uma das facções. Algumas quests me levavam a tramas interessantes sobre a origem daquele universo, da minha própria facção ou garantiam uma maior estabilidade para os próximos turnos. Destaca-se o imenso trabalho para torna-las intrigantes, por mais que algumas caiam em certos estereótipos de “humanos vilões”, sempre há algo por trás das motivações para te dar aquela vontade de “mais um turno”.

Depois de tantos jogos 4X que já joguei, ainda me assusto com o fato de que quase não há quase tempo de respirar em Endless Space 2. Sempre existia uma, duas, três notificações após a passagem de cada turno. As vezes de uma quest que acabava de ser completada, um depósito de elementos raros descobertos ou uma nova mudança no paradigma político.

Endless Space 2

Política é um dos pilares para a construção de um império em Endless Space 2 e Amplitude, mais uma vez, fez um trabalho excepcional. Decisões feitas nas quests ou na construção de certas edificações resultam no fortalecimento de certas ideologias políticas dentro do império. Durante minha partida com os Unfallen, uma raça tipicamente pacífica, tive de entrar em guerra com os Vodyani por conta de um recurso estratégico para construir uma das Wonders. Rapidamente construí edificações de defesa em meus territórios, uma frota considerável graças aos meus planetas focados em indústria, e o ataquei.

Por ter optado por democracia como meu sistema político, a construção de edificações militares aumentou o apoio ao grupo militarista e, por muito pouco, não tirou os pacifistas do poder. O que era preocupante de início, na verdade mostrou-se como oportunidade. Um maior apoio dos militaristas permitiu com que eu elegesse leis que garantissem uma redução de 20% de custo das naves em Dust — moeda usada por Endless Space 2.

A política também tem um grande peso no novo sistema de heróis. Similar ao de Endless Legend, cada um tem um conjunto de habilidades e também filiação política. Podendo assumirem cargos como governadores ou líderes de frotas, a filiação partidária — científica, militar, pacífica ou meio ambiente — direciona a maneira como os planetas se desenvolvem.

A guerra foi vencida em parte por conta desta lei e o constante uso do meu herói militarista, que ajudaram com que as minhas reservas de dust não secassem em meio ao caos que havia se tornado o meu império durante 40 turnos. O dust, no entanto, nem sempre vinha dos planetas ou de leis que diminuíam o custo de certos projetos, mas também das vendas feitas no mercado intergaláctico.

O mercado intergaláctico é uma das inteligentes soluções da Amplitude para quem busca uma jogabilidade mais “tall”, sem ter de expandir demasiadamente o seu império. A partir que uma tecnologia é desenvolvida, o jogador tem a opção de estabelecer rotas de comércio entre os planetas e assim gerar Dust, assim como elementos estratégicos ou itens de luxo, que então podem ser vendidos no mercado intergaláctico ou usados para aumentar o nível de um sistema, o que pode ativar um aumento em pesquisa, a própria geração de dinheiro ou de alimento.

Como se já não bastasse uma camada estratégica, Endless Space 2 vai ainda mais a fundo com a camada econômica. Os preços no mercado intergaláctico estão em uma flutuação constante. Uma guerra em um sistema distante pode fazer com que os preços de certos itens despenquem e tornem-se mais atrativos para o jogador compra-los. Ou uma possível cadeia de eventos os aumenta ao ponto que eu consegui gerar mais de 10 mil Dust e depois comprar recursos estratégicos para construir uma segunda Wonder sem entrar em guerra. Tudo isto ligado ao lore do universo Endless.

Endless Space 2

Por mais que possa soar como algo impossível de acompanhar para um jogador novato, a Amplitude implementa um sistema de visualização que é facilmente o meu favorito dentre os jogos 4X. Ao invés de clicar em duas, três, quatro, cinco janelas, tudo é mostrado por um sistema de “scan” em diferentes níveis. O primeiro nível mostra as rotas de comércio, o segundo quais tipos de mercadorias são mais produzidas em cada sistema solar que controla e por fim o terceiro nível mostra com detalhes o quanto de alimento, dust e influência — usada para diplomacia e para leis — eles geram a cada turno.

O mesmo se aplica a janela de tecnologias , que conta com uma ótima ferramenta de busca e corta pela metade a tão famosa dor de cabeça de todo fã de 4X passou quando olhava para a imensidão de opções e falava para si mesmo “que será que tecnologia que eu quero?”. Além do que, o próprio jogo indica possíveis tecnologias que podem beneficiar a forma a qual guia o seu império feitas com base em decisões que tomou dez, ou até 100 turnos antes.

Por tudo que Endless Space 2 inova ou tenta fazer diferente, ele ainda carrega consigo alguns dos repetidos problemas em games 4X, diplomacia e combate. A inteligência artificial, salvo nas dificuldades extremas, é demasiadamente passiva. Junte uma montanha de dinheiro, crie frotas imensas e o máximo que recebe são ameaças.

O mercado intergaláctico traz um efeito secundário a própria diplomacia, tornar todas as facções quase isolacionistas. Para que tentar discutir termos para tentar comprar um recurso estratégico se cedo ou tarde você provavelmente vai ter Dust o suficiente para comprá-lo? Isto é viável com os Unfallen, que são uma facção de maneira geral pacifista. O United Empire, focado em industrialismo e intensa geração de Dust, tem uma facilidade maior ainda.

Passividade também é sentida por meio das batalhas, que tiram o sistema de três cartas de Endless Space 1 e colocam um sistema de estratégias que devem ser definidas antes do combate. Por mais variadas, a única coisa que o jogador pode fazer é assisti-las. Endless Space 2 não é o primeiro a deixar cair a peteca nesse quesito, tampouco o último. Mas, de tantas mudanças interessantes, esperava que o combate tivesse recebido o mesmo tratamento. Sins of a Solar Empire, mesmo com seu foco operacional ao invés de puramente estratégico, ainda é rei neste quesito.

Em comparação com outros lançamentos dos últimos tempos, Endless Space 2 apresenta uma base muito mais sólida como um jogo de estratégia 4X. Sabe como dispor informações quando necessário e traz consigo algumas das facções mais distintas desde Endless Legend. Caso a Amplitude Studios venha a manter o alto grau de suporte pós-lançamento como fez com seu último game, não há o que esperar além de ótimas novidades para o futuro.

Endless Space 2

Total
Endless Space 2 atinge o meio termo entre o tradicionalismo e a experimentação. Um jogo que melhora praticamente todos os aspectos do antecessor e adiciona o tempero de Endless Legend para uma ambientação interestrelar. Pode deixar a desejar um pouco na diplomacia e inteligência artificial, mas não tem como não o amar com facções tão bem elaboradas e distintas.
Muito bom

Análise – Endless Space 2

About The Author
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Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.

  • Megadraviano

    Graças a Sega que conheci esse jogo.

  • Rafael doria

    qual vc indica? endless space 2 ou stellaris? sei que ambos são diferentes, mas estou em duvida em qual eu pego… ultimamente jogo bastante endless legend e galactic civilization 3, mas estou a procura de um com tema espacial em pt br…

    • Lucas Moura

      Oi Rafael, tudo bom? Primeiro, vou pedir desculpas pelo tamanho da resposta, pois eu sei que parece que acabei de escrever um livro.

      Bom, sendo curto e grosso, Endless Space 2.

      Mas claro, não é justo com você chegar e só mandar uma resposta dessas. Como você apontou, você quer um jogo de estratégia 4X com temática espacial e em português. Eu não descartaria Stellaris da equação de cara, mas no atual momento ele ainda é melhor como uma ferramenta para a criação de histórias, do que estratégia em si.

      Pense em ambos os jogos como uma imensa massa de modelar. Stellaris ainda está naquela fase de não saber exatamente como vai ficar daqui há um mês ou daqui há um ano. Quando foi lançado, os sistemas diplomáticos eram medianos, a inteligência artificial era fraca, pequenos problemas reduziam o impacto da camada estratégica do jogo.

      O problema foi relativamente sanado com a expansão Utopia e algumas atualizações gratuitas para o jogo base. Agora você pode tecer um melhor direcionamento para a facção que você criou, melhor interagir com as raças que surgiram naquele seu universo. Entretanto, ele ainda entra em uma certa estagnação a partir da metade de uma “campanha”.

      Por ser demasiadamente carregado pela narrativa — eventos que aparecem ao analisar planetas, crises e outros acontecimentos malucos — chega um ponto que você vai olhar e falar: “Ok, eu tenho um exército bom, minha tecnologia está avançada, meus vizinhos não estão em guerra. Agora, o que fazer?”.

      A engrenagem para. Você espera o próximo evento, torce para que algo mais interessante surja. Fica aquela sensação de que você está perdendo o tempo. Como você tem uma camada estratégica simplória, há menos ferramentas para você brincar no meio tempo.

      Por outro lado, você pode criar uma facção de seres-fungo xenofóbicos que se alimentam de outras raças. Ok, eu tirei a definição da minha cabeça, mas é viável criar isso no Stellaris. Só que, uma hora essa magia acaba, Partidas subsequentes tornam os eventos menos impactantes. O efeito de ter uma facção própria é menor a cada hora de jogo.

      Você vai ter histórias incríveis para contar, mas também tem de estar ciente que não há muito espaço para “variedade estratégica” dentro de Stellaris no momento. O segundo ponto contra é a metodologia de DLCs da Paradox, que apesar de eu entender a motivação por trás da empresa, (se você buscar aqui no site eu basicamente faço analise de todos os DLCs da Paradox desde 2013), eu sei que é um pouco assustador para quem não está acostumado. De cara para você ter a experiência “completa” de Stellaris é preciso ter o jogo + a expansão Utopia. Para mais eventos? O Leviathans Story Pack. Isso tende a aumentar, e muito, no futuro se Europa Universalis IV e Crusader Kings II servem de exemplos. Ambos possuem uma imensidão de DLCs que até para mim fica difícil conseguir listar e direcionar novos jogadores das franquias.

      Por você já ter jogado o Endless Legend, já dá para te guiar um pouco melhor sobre Endless Space 2. Ao meu ver, é sobre assumir uma identidade, uma facção e guia-la pela campanha. A Amplitude mantém consideravelmente o elemento narrativo do jogo — como o estilo de quests que você viu no Legend — mas ao mesmo tempo evita estagnação do mid para late game por conta da impressionante assimetria entre as facções.

      Para fins comparativos, vamos pegar como você expande em Endless Legend e Galactic Civilizations III. No jogo da Amplitude você explora, assimila (via violência ou não) facções menores, estabelece novas cidades e realiza quests. Galactic Civilizations é mais tradicional. O loop “Cidade -> melhorias -> mais cidades -> melhorias”. Sim, eu sei que eu acabei de simplificar bastante o jogo da Stardock, ainda mais com a expansão Crusader que adicionou um monte de novos recursos espalhados pelo mapa (justamente para quebrar isso). Mas é basicamente o mesmo Loop que tem em Legend que se aplica em Endless Space 2, com um grande, “porém”, a maneira que as facções expandem é muito diferente.

      Uma partida com os Riftborn — que criam bolhas temporais dentro de cada sistema solar — e os Unfallen, que tecem vinhas pelos sistemas não poderiam ser mais diferentes. Naves Unfallen tem bônus de movimentação em sistemas que já foram “capturados” por assim dizer. Porém, são focados em serem pacifistas, o que equilibra a rápida expansão dessas vinhas em comparação com outras facções mais militares, o que é o caso do United Empire.

      Ao longo das partidas você começa a entender os nuances de cada facção, e mesmo que definidas por regras relativamente rígidas (o pacifismo dos Unfallen), podem ser influenciados pelas quests e as suas ações. Um aumento de gasto militar vai fazer com que um grupo de apoio aos militares apareça dentro da facção. Novas leis que reduzem o custo de naves, ficam disponíveis, mas também você pode perder leis que, por exemplo, aumentam a “taxa de felicidade” da sua população.

      Esse é o tipo de granularidade que me faz voltar a jogar Endless Space 2. Eu tinha a já excelente narrativa da Amplitude e ainda podia moldar as facções de acordo com inúmeros fatores. Nunca tinha um turno que eu sentia que apertava “enter” para passar sem ao menos cogitar uma ou outra possibilidade.

      No topo disso tudo o jogo tem um rico sistema mercadológico com recursos únicos para cada planeta, que reage as ações de outras facções e que fazem você pensar duas, três, quatro vezes sobre como administrar a quantidade de um material raro que você possui no inventário. Será que vale a pena vender ele naquele turno, esperar ele aumentar, reduzir de preço?

      Claro, nem tudo são rosas para Endless Space 2. Se você gosta do grau de complexidade do ship designer de Galactic Civilizations III, principalmente em questão de “montar a estética das naves”, isso não existe no jogo. A inteligência artificial ainda bambeia entre ser passiva demais ou agressiva demais.

      É algo que a Amplitude vem trabalhando pesado em cima, tanto que em 21 de junho eles lançaram uma atualização massiva com ajustes nas propriedades políticas de certos grupos, em conjunto com novos heróis, quests e anomalias.

      Eu confesso que não pude testar ainda essa nova atualização pois estava fazendo textos de outros jogos como Steel Division, a nova expansão de Hearts of Iron, dentre outras coisas do trabalho. Ao que tudo indica (e isto vem de pessoas próximas que são jogadores de longa data de jogos 4X), as coisas melhoraram bastante para o Endless Space 2. Ou seja, a massa de modelar já está melhor formada, com o futuro apontando para refinamento e possíveis expansões.

      Bom, espero que isso ajude com a sua decisão de compra. Qualquer dúvida adicional, ou caso queira saber sobre alguma mecânica em específico, é só dar um toque. Abraços!

  • Felipe Nascimento

    sensacional a análise, vc escreve muito bem e a resposta para o Rafael foi sensacional, nem precisei expressar minha dúvida hahaha.
    Conheci o genero atraves do stellaris, o que me deixa um pouco confuso é o fato da grande maioria, inclusive o ES2, ser por turno, não consigo me acostumar com isso.
    em tempo, vou adicionar o site ao meu feed de notícias.

    • Lucas Moura

      Aw, muito obrigado Felipe! O site é um trabalho de amor que eu tento manter atualizado sempre que possível e ver pessoas se interessando por ele me deixa feliz demais. 🙂

      Quanto ao uso de turnos, é um pouco dos jogos estarem presos as convenções do gênero em conjunto com o grau de complexidade de alguns deles.

      Exceto Endless Space 2 e alguns outros, muitos desses jogos de 4X espaciais usam Master of Orion (mais especificamente Master of Orion 2) como inspiração. Sem dúvidas é um jogo excelente e um porto seguro para muitos desenvolvedores, já que as mecânicas são bem sedimentadas e conhecidas pela comunidade (A necessidade de escolher entre diversas tecnologias e fazer “builds diferentes” para naves é uma das heranças que Master of Orion deixou).

      Em contrapartida, muitos jogos acabam soando “similares” demais. É um problema que o gênero sofre a anos, uma certa estagnação. A Amplitude, junto com outras desenvolvedoras, foram uma das poucas a realmente trazerem algo de novo para o mercado. Endless Legend foi um imenso marco em como a desenvolvedora abraçou a não necessidade de formar raças tão simétricas como em outros jogos (no quesito de design). Outro jogo que eu particularmente gosto, mas sei que muita gente torce o nariz é Sorcerer King: Rivals.
      Ele usa um sistema de progressão assimétrico para as partidas. Ao invés dos jogadores constantemente entre si, eles têm de enfrentar uma ameaça maior, o Sorcerer King. Então você acaba meio que nessa corda bamba de saber quando expandir no mapa para destruir os planos do Sorcerer King e quando tomar as cidades do oponente.

      Agora, quanto a jogos 4X em tempo real, existem sim ainda alguns. Mas já deixo avisado: Grande parte deles tem uma curva de aprendizado um tanto quanto alta (e um deles é basicamente uma montanha para se aprender)

      Sword of the Stars — O primeiro, o 2 sofreu com alguns problemas no lançamento e mesmo depois de atualizações ainda não está 100%

      Star Ruler 2 — Facilmente um dos meus favoritos no quesito de expansão, comércio e como funciona a diplomacia. Interface prejudica um tanto o aprendizado.

      Sins of a Solar Empire — Recentemente atualizado pela Stardock para melhor suporte em sistema 64-bits, mas com um foco muito grande em combate

      Distant Worlds: Universe — Ao mesmo tempo uma obra prima e um dos jogos mais assustadores de se aprender. A interface não é lá das melhores, galáxias imensas, comandantes ou cientistas tem traços de personalidade que podem alterar o curso da partida. Passaria a manhã toda explicando os detalhes desse jogo. Uma pena que o tutorial não é tão bom e ou você aprende na marra ou pega algum guia para acompanhar.

      Tanto ele quanto o Star Ruler 2 são jogos que eu adoro e queria que mais pessoas jogassem, mas também sei que o tempo é finito e investir 20,30,40hrs só para aprender é complicado.

      Certamente devo estar me esquecendo de um ou outro, afinal são 9:26 e ainda não tomei café suficiente para começar o dia. Enfim, mais uma vez obrigado Felipe! <3