Análise – The Long Dark

Eu gosto de fazer trilhas, mesmo quando não muito descansado para fazê-las, mas sempre as vi como um escape da vida urbana e uma motivação para enxergar que eu ainda consigo ter algo para lutar, algo para viver.

Trilhas para mim são momentos de conexão, de introspecção e de tentativas de remover o peso da depressão das minhas costas. Mas eu também sabia que caso eu precisasse de ajuda, era só sair daquele lugar, voltar para a civilização, para quem eu amava. The Long Dark (PC, Xbox One, PlayStation 4) não é um destes ambientes, na realidade está longe disso.

Seja no modo história que conta a história do piloto Will Mackenzie ou no modo survival, as colinas, vales, pântanos congelados têm uma beleza estonteante e ao mesmo tempo opressora. A sensação de estar próximo de algo, mas ainda distante, como se sua mente não conseguisse unir a conexão de como algo tão bonito pode ser tão cruel. Sobreviver em The Long Dark não é apenas ter comida o suficiente, ter mantimentos suficientes e não congelar. É não permitir que aquele lugar destrua o pouco de humanidade que ainda resta em você.

Quanto mais eu me aprofundava nas planícies gélidas de Mystery Lake, Coastal Highway, Pleasant Valey ou as outras três principais regiões, sentia uma pontada no meu coração. “No meio de tantos, eu estou sozinho”. Cruzei por pessoas no modo história, conheci sobre suas vidas, sobre o que aconteceu para causar o apocalipse. Mas ainda me sentia sozinho. Meus companheiros? Um pacote de comida, a pouca agua que me restava, uma faca. Meus inimigos? Tudo o que eu não podia ver.

A natureza é um ser estranho. Ela te acompanha a todo canto em The Long Dark, ela provê, mas ela tira. Ela te chuta, humilha, te mata. Se não são os lobos ou os ursos, são as nevascas, a roupa molhada, o medo de sair de uma caverna. Eu não era capaz de seguir em frente às vezes, por medo de não ter comida o suficiente, por medo de morrer sozinho em uma vala, congelado, esquecido.

The Long Dark

É fácil quando você tem um inimigo em comum, algo palpável para se defender. Nada te prepara para o que The Long Dark te põe contra. Sutil e mortal, os sons do vento ecoam na minha mente quando fecho os olhos. As horríveis lembranças de esperar, próximo a uma fogueira feita de galhos de árvore, a nevasca passar. “Quem sabe se se eu me esforçar eu consigo mais um pouco de comida”. Quem sabe, quem sabe, quem sabe as coisas melhoram no amanhã.

Para que elas melhorem, o jogo requer o mínimo de esforço do jogador. Como na vida, pouca ajuda existe. É aprendendo e sofrendo que você cresce. Um design contra produtivo, eu diria, porém essencial para a experiência.

Tudo o que eu queria era sobreviver, mudei meu foco de tentar encontrar locais seguros para entender o que o ambiente me ensinava. Grande parte de The Long Dark é esperar, aguardar, observar. Acima de tudo, respeitar que a natureza é e sempre será mais forte do que você. Quase como um reaprendizado do gênero, de quem você é, pelo o que você vive.

Árvores se tornaram minhas amigas, serviam como proteção para o frio. Seus galhos me aqueciam a noite, suas folhas tratavam minhas queimaduras. Nada disso explícito, longos momentos de silêncio e reflexão sobre o que fazer em seguida, como usar o que a terra me dava.

Aliado a interface minimalista, nem mesmo o ritmo de um survival tradicional The Long Dark tem. Raros são os avisos presentes sobre a situação do personagem, de você. São os pequenos toques no áudio, no som da barriga com fome, do vento que congela a alma.

Nada é jogado a esmo em The Long Dark. Tudo tem um propósito, mesmo que inicialmente não aparente. Estava tão acostumado a seguir regras que me peguei impressionado ao ver que era capaz de derreter gelo e depois fervê-lo para ter agua potável. Pedras eram as minhas armas, jornais eram meu combustível. Era como se todos os objetos ignorados pelas desenvolvedoras na hora de criar um survival encontraram um motivo de existir nesse inverno eterno que é o jogo da Hinterland Games.

Raros — para não dizer nenhum — foram os jogos que me fizeram respirar aliviado por ter encontrado uma casca de árvore. Era a certeza de mais uma noite quentinha, mais um dia na busca por alimento e na constante tentativa de me encontrar.

Eu já escrevi anteriormente sobre estar em um lugar que não te pertence, ou não pertencer a nenhum lugar. Era algo que havia deixado para trás de certa forma, mas The Long Dark trouxe com toda força.

The Long Dark

Não importava a quantidade de cabanas que havia tomado como “minhas” ou de esconderijos que havia criado. Eu era um estranho naquela terra, longe da civilização e trazido por um acidente de avião, um desastre geomagnético. A maior exemplificação da interferência do homem na natureza.

Cabanas arruinadas e a vasta destruição causada reforçam ainda mais a sensação de solidão. Andar era como ver um quebra cabeça que havia sido embaralhado e suas peças jogadas aos sete ventos. Traços de existência humana eram mais incômodos do que um alivio. Eu não pertencia àquele lugar.

Não é um jogo perfeito (nenhum jogo é), tem bugs, é fácil perder o progresso no modo história caso falhe em obter materiais o suficiente. Uma longa jornada aguarda aqueles que estão acostumados com um gênero, pois não há nada igual.

A sensação não era a mesma de Rain World, onde meu personagem lutava pela a vida em um lugar onde ele era a presa. Nós, humanos, tendemos a nos ver tanto como a solução para tudo que quando as coisas mudam de foco, ficamos sem rumo.

Os retratos pintados por The Long Dark são quase como ver fotos da atual área de exclusão de Chernobyl. Uma zona que um dia pertenceu a nós, mas dado a nossa incompetência e ganância como raça, foi tomada de volta pela natureza. Em uma época de aquecimento global e constante medo, a mensagem do jogo da Hinterland Studios não poderia ser mais verdade.

Entretanto, ele também me lembra que somos extremamente adaptáveis, que sabemos lutar contra as adversidades caso respeitarmos a fúria da natureza. Queria que fossemos menos teimosos — queria eu que fosse menos teimoso.

Foi neste ponto que ele se distanciou de mim como um “survival”. O gênero tende demais a ter convenções onde o jogador apenas sobrevive e nunca se questiona o motivo. “Pegue X troncos para fazer uma cabana” ou “junte Y folhas para construir um telhado”. Para que, afinal de contas?

The Long Dark é mais do que um survival, é quase uma experiência meditativa sobre a condição humana, o medo que carregamos dentro de nós e como interagimos com outras pessoas em situações extremas. Tocou nos meus sentimentos mais íntimos, nos medos que eu não tenho coragem de revelar para as pessoas. Na sensação de solidão e de esquecimento.

The Long Dark

Total
Uma das mais brilhantes, assombrantes e belas experiências de sobrevivência, de contato com a natureza e com o íntimo de uma pessoa. Questiona pelas suas mecânicas quem somos, qual o nosso propósito e como nos comportamos frente ao perigo. Pegue uma bebida quente e esqueça tudo o que você pensa sobre sobrevivência. The Long Dark é único.
Excelente

Análise – The Long Dark

About The Author
- Colaborador para a EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.