Análise – ARK: Survival Evolved

Ainda é estranho pensar que de todos os jogos em Early Access, ARK: Survival Evolved foi um dos poucos que de fato seguiu um plano e foi propriamente lançado. Originalmente disponibilizado em 2015 para PC e agora também presente nos PlayStation 4 e Xbox One, são poucos os jogos que eu vejo passarem por uma metamorfose tão grande. Nem tudo para um lado positivo.

O conceito inicial de ARK — dominar e controlar dinossauros em uma era pré-histórica — ainda me interessa muito. Ora, quem nunca quis montar em um T-Rex e causar a destruição por aí? Ver seus oponentes tentarem derrubá-lo com flechas, catapultas, o que vier. O Ark de 2017 não poderia estar mais longe disso, com dinossauros com lasers, bizarras armas futuristas e miniguns.

Por mais que eu tente entender a direção que a Studio Wildcard tomou com o game, não posso me sentir mais desapontado. De certa forma, qualquer coesão estética que possuía foi jogada pela janela desde 2016. Andar pelos mapas é ver um desfile carnavalesco de jogadores de diferentes níveis com os mais bizarros equipamentos. Essa falta de coesão não afeta só o aspecto visual do game, mas os próprios princípios de design.

Para não dizer que “jogou um, jogou todos”, ARK foi uma grande inspiração para outros jogos de survival como Conan Exiles e Dark And Light. O loop não poderia ser mais simples — e desinteressante. Colete materiais, mantenha sua barra de energia / comida / sede sempre cheia e construa equipamentos melhores. Ao subir de nível o jogador tem acesso a novas esquemáticas que vão de equipamentos a novas construções. Do começo ao fim ARK não é um jogo para ser jogado sozinho, já que não é possível aprender todas as esquemáticas, mas sim precisa trabalhar em conjunto com uma tribo para se ter alguma chance de sobreviver em níveis mais altos. É aí que as rachaduras começam a aparecer.

Estendo a minha crítica de Age of Conan para ARK: jogar em servidores oficiais é uma imensa perda de tempo e sanidade mental. Não existe um buraco, mas sim um vale de diferença entre um jogador que está nas áreas iniciais e um que gastou mais de 50 horas no jogo, e chegar nesse ponto em qualquer servidor oficial é um exercício de paciência.

Duas horas de jogo equivalem a pouquíssimo progresso. Qualquer tipo de equipamento que não seja um amontoado de panos e pedras requer tanto material e a quantidade obtida por minuto / hora é tão baixa nos servidores oficiais que eu me sentia desmotivado a continuar a jogar. Se para você coletar 20, 30, 40 materiais para fazer uma casa que não posso adjetivá-la além de “desprezível” é sinônimo de diversão, me desculpe, para mim é trabalho demais para recompensa de menos. Se for para isso eu prefiro gastar meu tempo trabalhando de fato.

ARK

Exausto de bater em árvore e ficar caçando comida, decidi ir para servidores personalizados de PVP, onde tive uma das minhas experiências mais surreais e bizarras em qualquer jogo de survival da minha vida. E não falo isso como uma hipérbole.

A maior vantagem deles é o aumento na taxa de drops de itens e progressão. Muitos deles oferecem quase o dobro de itens e experiência. Algo que demoraria duas horas, demora 30 minutos. Seria um paraíso, não? Errado.

Muitos desses servidores privados são dominados pelo o que alguns chamam de “megatribos”. Um grupo de jogadores de diversas tribos que se unem para tomar controle dos principais pontos de materiais raros da região, o que basicamente previne acesso para quem é um jogador de nível baixo.

Tinha duas opções, juntar um grupo de outros jogadores e tentar ataca-los — o que seria suicídio — ou me submeter as demandas deles: me tornar um escravo. Sim, eles “convidam” novos jogadores para serem praticamente mulas de carga de materiais enquanto eles aproveitam do benefício. Em troca o jogador ganha uma cama para dormir e um pequeno baú para guardar os pertences. Quanto mais “confiança” receber, mais chances de fazer parte da tribo. Um desses jogadores prontamente veio falar comigo quando percebeu que eu era novato e ao negar o “pedido”, fui morto em instantes.

Eu estava completamente estupefato. Não era um servidor de roleplay — e mesmo se fosse, era uma tática mesquinha e profundamente perturbadora ao meu ver. Não vou culpar a Studio Wildcard por permitir tais “liberdades”, afinal, não tem mais nada surpreendente — e aterrorizantes — do que ver um conjunto de sistemas sendo usado para resultados fora do esperado.

Também sei que tais ações dos jogadores não são restritas a ARK, mas também aparecem — mesmo que de forma mais branda — em Rust. A diferença é que Rust ainda dá um certo espaço de sobrevivência e as megatribos de ARK destroem completamente a diversão. Minha única solução — e a mais decepcionante para ser sincero — foi me juntar em um servidor puramente PVE e a partir de aí começar a crescer o meu pequeno império.

ARK

Sabe… de baixo de todas as decisões bizarras tomadas pela Studio Wildcard, a movimentação bizarra, os problemas de desempenho, a terrível progressão de personagem em servidores oficiais, há um jogo bom. Pouco polido, as vezes inconsistente e com dinossauros que atravessam as paredes, mas bom.

Dungeons com chefões trazem uma variedade impressionante para um gênero que tão pouco vê isso (somente Conan Exiles usa um pouco dessa ideia). A curva de progressão fora dos servidores oficiais e focados em PVE é mais agradável. Em algumas horas eu já caminhava sobre meu T-Rex, armado com uma pistola enquanto preparava para domar novos dinossauros, buscar materiais e construir uma base que pudesse sobreviver a investida desses monstros.

Era isso a minha diversão em ARK? Construir um pequeno vilarejo ao meu gosto e protege-lo? Bom, era o mais próximo que me senti de estar satisfeito. Ao menos não estava sendo morto por pessoas a troco de nada, sendo xingado gratuitamente ou feito de escravo. A última ideia ainda reverbera na minha mente de forma assustadora.

Ironicamente, a minha maior diversão foi encontrada pela expansão / mod gratuito Primitive +. Ela altera totalmente o ritmo de ARK e o torna um jogo bem mais próximo do conceito que eu queria. Nada de armas lasers ou coisas bizarras. É uma expansão mais “pé no chão”, com um pouco mais de “realismo” — mesmo que essa palavra não tenha muito sentido em um jogo onde você pode domar dinossauros. É como se o conceito inicial de ARK estivesse preservado dentro dele.

Quando entrei em um servidor do Primitive +, me senti no ARK que eu gostaria de ter jogado desde o começo. Pode ter menos itens, pode não ser mirabolante, mas há um certo ar de companheirismo entre aqueles jogadores que não vi em outros servidores. Uma hora eu me senti perdido, tomei coragem e perguntei onde podia coletar um certo material para a minha casa. Prontamente o outro jogador me levou até o local, me deu um novo machado e seguiu seu caminho. Me senti acolhido. Quem dera o restante da minha experiência com ARK fosse assim.

É ainda mais irônico ver que as principais melhorias foram feitas pela comunidade e não pela desenvolvedora. Não posso deixar de apontar minha incrível decepção pelas constantes promessas da Studio Wildcard de “melhorias de desempenho” ao longo do período de Early Access. O jogo em si melhorou? Com certeza, mas para jogar com a qualidade que se vê nos vídeos, ou você tem um computador extremamente potente — com um processador de ponta e uma Geforce GTX 1080Ti ou equivalente — ou pode esperar algo bem mais decepcionante do que qualquer imagem mostrada pela empresa.

Cheguei em um ponto da vida que essas promessas de melhorias não me atingem mais, jogar ARK é ao mesmo tempo ver um jogo que saiu de “Early Access” mas o “Early Access” não saiu dele. A cada passo que dava era uma nova inconsistência a ser descoberta, uma nova decepção e debaixo disso tudo há um pequeno semblante do que poderia ter sido um jogo excelente. Quem sabe a comunidade não “conserta” também o desempenho no futuro? Nunca se sabe.

Jogos mudam constantemente ao longo do seu desenvolvimento e ARK não foi diferente. O conceito que eu tanto desejei não está presente. E no seu atual estado, ainda mais com duas expansões previstas e nenhuma promessa de que os principais problemas — desbalanceamento no PVP e melhorias na IA dos inimigos — sejam resolvidos, fica difícil de recomendar salvo para aqueles que tem um grupo de amigos dispostos a enfrentar os problemas.

The Long Dark, STALKER, tantos outros mostraram que temos como ir muito além do medíocre conceito de survival que temos hoje em dia. ARK: Survival Evolved é só mais uma demonstração de uma empresa que tenta agradar a todos e perde o foco inicial no processo. Com o precedente da mediocridade estabelecido por ele, e agora copiado por tantos, espero que algum dia consigamos quebrar esse paradigma e sair dessa insanamente chata mistura de “colete materiais e equilibre barras de vida”. Já é hora disso ir embora.

A análise foi feita com base na versão PC enviada pela Studio Wildcard.

ARK: Survival Evolved

Total
Com um PVP que dá muito espaço para tirar vantagens de jogadores novatos, ARK é um jogo que se perdeu ao longo de seu desenvolvimento e ao mesmo tempo estabeleceu precedentes para mecânicas fracas que agora são vistas em tantos outros títulos do gênero. De baixo de todos os problemas ainda existem interessantes e intensos, mas espaçados demais para valer a pena o investimento.
Podia ser melhor

Análise – ARK: Survival Evolved

About The Author
- Colaborador para a EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.