Primeiras Impressões – Hello Neighbor

“Ah mas não é possível que esse jogo me deixe tenso”, disse com um tom bem humorado na primeira vez que eu vi Hello Neighbor (GOG – sem DRM, Steam). Doze horas jogadas de Alpha e agora engulo todas as minhas palavras. Previsto para lançamento em 29 de agosto, o jogo ainda tem um bocado para caminhar e teve sua versão beta apresentada durante a E3. Acima de tudo, é um jogo com um imenso potencial.

Eu sei, “potencial” é uma palavra extremamente usada. Palavra de quem quer prometer, mas não entregar, que vai usar termos esdrúxulos para tentar te vender um jogo. Hello Neighbor não é nada disso. De certa forma, é vago sim, mas por ótimos motivos.

O alpha começa de uma maneira peculiar, com uma carta sendo entregue para sua porta. A premissa, simples. Um vizinho do outro lado da rua tem um comportamento no mínimo…exagerado e você, no controle de um adolescente, quer descobrir o que de bizarro acontece.

E assim o jogador é jogado aos lobos. Sem explicação, sem um guia, nem mesmo um aperto de mão. “Se vira para aprender, aqui estão os comandos. Agora entre naquela casa e acabe com o mistério”. Em praticamente todo tipo de jogo eu já torceria o nariz, diria que não tenho tempo para esse tipo de situação e que há melhores maneiras de introduzir um jogador a um determinado ambiente. De fato, existem, mas a casa do outro lado da rua é tão…convidativa.

Desproporcional em sua estrutura, a casa mais parece que saiu de um universo onde nenhuma lei da gravidade se aplica. Um carro jogado em cima do canteiro, um peculiar vizinho que anda de um lado para o outro como se buscasse algum pertence. “Ok, eu tenho que saber o que diabos ocorre ali”, e foi assim que Hello Neighbor me fisgou.

Da mesma maneira que a IO-Interactive fez com o último lançamento de Hitman, Hello Neighbor é sobre experimentar. O jogo prepara a cena, mas deixa você livre para decidir como se aproximar dos objetivos. Isto é, primeiro descobrir quais são os objetivos.

Hello Neighbor

Inocente, optei por entrar pela porta principal. Afinal, nada mais convidativo do que uma porta aberta em uma casa bizarra. Cinco segundos depois o clima simpático de Hello Neighbor tomou um aspecto completamente diferente. Sombrio, sufocante, as luzes diminuíram, as paredes mais pareciam que iam fechar em cima de mim. Não esperava tamanha claustrofobia em tão pouco tempo. Não queria ficar naquela casa mais, queria correr. Na saída um som agudo reverberou pelo meu fone, um rosto apareceu na minha frente, o vizinho havia me encontrado.

A partida então recomeçara. Dessa vez, noite. Não cometeria o mesmo erro de entrar pela porta da frente. Uma rápida vasculhada pelos entornos da casa revelou um quadro de energia. Ao desliga-lo, percebi que o vizinho deixa sua casa de maneira brusca para rapidamente religa-lo. Era a minha chance.

Desliguei, rapidamente corri pela porta de entrada após dar a volta pela casa e abri a primeira porta que vi. Era uma cozinha, ou ao menos parecia algo improvisado. A música havia sumido, apenas o som dos meus passos ecoava. Sabia que cedo ou tarde a luz seria religada e teria de dar algum jeito de descobrir mais sobre a casa.

Rapidamente subi pelas escadas e me deparei com o que mais parecia uma prisão e uma porta trancada. Ok, eu já sabia de certa forma um pouco da ideia por trás de Hello Neighbor, mas aquilo realmente me pegou de surpresa. Mais uma vez toda a atmosfera havia mudado. O segundo andar mais parecia um puzzle de um adventure game. Grades, uma corrente de metal que quase me convidava a puxá-la. Isto é, se não estivesse longe demais. Infelizmente minha estadia durou pouco. Depois de passar alguns minutos na tentativa de pular sobre uma brecha no teto, derrubei um jarro que rapidamente chamou a atenção do bizarro vizinho. Sem ter onde me esconder, fui pego e jogado para fora.

Hello Neighbor vira um jogo de gato e rato sem diálogos. A inteligência artificial reativa começava a demonstrar os primeiros sinais nas partidas subsequentes. Agora a porta da frente era trancada. Armadilhas por onde havia passado eram postas. Fora os controles, o jogo força você a tentar novas aproximações, brincar com objetos. Demorei a descobrir que uma janela poderia ser quebrada com uma panela, mas que isso causaria um barulho alto demais. Quanto mais vezes tentei essa aproximação, mais tempo o meu “oponente” ficava de guarda na expectativa de eu aparecer.

Quando você acaba condicionado a um estilo de jogo que constantemente enfia objetivos na sua frente, Hello Neighbor é contrastante. Não há mapa, não há dicas, a única maneira de descobrir a utilidade de um objeto é usá-lo. Testá-lo. O mesmo contraste que se vê entre a aparentemente carismática vizinhança e a claustrofóbica casa do outro lado da rua.

Hello Neighbor

Eu vejo uma decisão dessas não apenas como fora do comum, mas também necessária. Metade da graça iria embora se o jogo me desse algum guia. Comecei então a decorar os caminhos da casa, comecei a experimentar mais — coisa que eu não faço com tanto costume, infelizmente. Consegui abrir algumas portas trancadas, desvendei alguns supostos mistérios e ainda fico com uma expressão confusa de como abrir outras. Não vou parar até encontrar a solução.

Claro que, é um alpha então é bom lembrar que a versão ainda tem bugs, não está com o conteúdo completo e tudo o que você espera de um alpha. Em momentos fiquei preso em objetos, outras vezes vi o personagem flutuar pela tela. Coisa que se não estivesse presente, me deixaria ligeiramente preocupado. Ao menos está lá e dá tempo, muito tempo, de consertar.

Mas independentemente do tempo de jogo, uma coisa nunca saiu. A sensação de claustrofobia e pavor. Como um jogo que aparenta ser tão simpático me deixar tão nervoso? Medo do desconhecido, eu presumo. É o desconhecido que move as engrenagens de Hello Neighbor e que me faz ter vontade desbravar os segredos daquela casa.

Até agora Hello Neighbor prefere mostrar ao invés de falar sobre o potencial. E que potencial ele tem. A exploração de um único local que se ramifica nas mais diferentes salas. Transformar uma casa em algo rico de narrativa gerada pelas ações do jogador e a interação do cenário. Se tem algo que eu torço, é que todo esse potencial seja concretizado em seu lançamento.

Primeiras Impressões – Hello Neighbor

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Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.