Eu amo a franquia Yakuza / Like a Dragon, mas eu tenho uma opinião não tão popular sobre ela: ela ficou grande demais para o seu próprio bem. Já senti um certo desgaste ao jogar “Yakuza 4” lá em 2011, e só aumentou com “Like a Dragon: Infinite Wealth”, que parecia “infinito”. É por isso que tive um tremendo alívio com “Yakuza 0” (crítica) – uma nova perspectiva, uma leve enxugada na trama – era tudo o que eu queria. Essa foi a linha que eu imaginei que os remakes “Kiwami”, iniciados em 2016, seguiriam. Agora, quase uma década depois e com “Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties” (Steam / PlayStation 4 e 5 / Nintendo Switch 2 / Xbox Series S/X), eu não sei mais qual é a proposta da Ryu Ga Gotoku Studio.
No passado, ou ao menos com “Yakuza 3” e a sua remasterização, eu podia falar: “Não tem problema começar com esse, há um bom sumário do que aconteceu nos jogos anteriores”. “Yakuza Kiwami 3” não se dá ao trabalho de colocar cinemáticas ou textos; ou você jogou os anteriores, ou não jogou, fim de papo. Não é um começo bom para uma história que já no seu terceiro game é recheada de personagens secundários ou recorrentes.
“Mas por que isso é um problema, Lucas?”, você deve se questionar. Porque, bem, nem todo mundo tem todo o tempo do mundo para jogar uma franquia como “Yakuza”. Eu mesmo só acompanho hoje em dia por ter começado lá atrás no PlayStation 2, e ter removido a possibilidade de um sumário competente não é uma decisão que me agrada. Mal eu sabia que não era só o sumário que a Ryu Ga Gotoku Studio alterou em “Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties”.
O começo de “Yakuza 3” sempre foi um ponto de discussão na comunidade. Lento, metódico, pacato foram só alguns dos termos que eu ouvi nos últimos 10 anos. Okinawa era a oportunidade perfeita, na época, da Ryu Ga Gotoku Studio alterar alguns elementos cruciais da série, e ela fez sem medo. Kiryu está supostamente “aposentado” e cuida de um orfanato. As tensões em Kamurocho estão mais altas do que nunca, mas o jogo original dava espaço não só para Kiryu mostrar outras facetas, como também apresentar novos personagens e qual a importância deles para o protagonista.

“Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties” retém parte disso, mas também tenta “acelerar” a cadência para você chegar nos pontos chave da história. Na teoria, isso funcionaria bem, mas, na prática, não muito. Alguns arcos foram incorporados na história principal, outros colocados em novos elementos secundários – como minigames – mas grande parte deles foram completamente removidos.
No lugar deles entram novas histórias que mostram um pouco mais o lado “paterno” e “tranquilo” de Kiryu. Em termos de qualidade, eu diria que elas são muito melhores do que as histórias secundárias que foram removidas. Por outro lado, acaba que “Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties” traz um enfoque muito maior em Kiryu como pessoa do que no restante dos personagens.
Isso acaba gerando uma bola de neve que, cedo ou tarde, se choca contra uma gigantesca parede de concreto. Cenas que na versão original de “Yakuza 3” tinham um peso imenso, agora são recontextualizadas sob uma nova lente ou até com a inclusão de personagens que não estavam no roteiro original. Há uma dissonância entre o que acontece na tela e o que o jogador sabe acerca dos personagens.
“Pera, ok, eu não me lembro dessa cena ser assim”, foi uma frase que eu repeti dezenas de vezes para mim mesmo ao desenrolar da trama.

Eu não ficaria tão amargurado com as mudanças feitas em “Yakuza Kiwami 3” se a Ryu Ga Gotoku Studio tivesse focado os seus esforços em áreas que de fato precisavam de mais atenção. Por exemplo, embora a trama de fato seja mais “direto ao ponto”, os capítulos finais ainda se arrastam demais, e cenas de exposição e “lore dump” foram inalteradas. Por quê? Nem eu sei dizer.
Para piorar, a equipe toma algumas decisões de roteiro que são, no mínimo, controversas. A mais notável é a mudança visual para Rikiya, agora representado no jogo por Show Kasamatsu. Ele pode até ser o mesmo personagem, mas a captura facial deixa muito a desejar, ao ponto de eu simplesmente não conseguir ver o Rikiya que eu vi no jogo original. Parece mais uma cópia fajuta.
A alteração de Goh Hamazaki para ficar similar ao de seu dublador Teruyuki Kagawa desce como o remédio mais amargo do mundo. Não só pela mudança de fisionomia assustadora, mas pelas acusações de assédio do dublador feitas em 2019, algo que a Ryu Ga Gotoku Studio não se pronunciou sobre. O impacto pode ser “minoritário” na trama em comparação a Rikiya, mas para uma série que até então fazia um trabalho relativamente competente no que tange à escrita das personagens femininas, colocar o rosto de um assediador em um dos personagens – seja vilão ou não – é algo absurdo e uma completa falta de tato.
Os dois personagens são apenas a ponta do iceberg. Outras cenas cruciais que acontecem mais para o final da trama tiveram o seu impacto reduzido, ou foram alteradas ao ponto de me fazerem soltar um “O que?!”, bem alto. Prefiro não entrar em detalhes por motivos de spoilers, mas diria que, se em algum ponto existir “Yakuza Kiwami 4”, a equipe vai ter o triplo de trabalho para retificar e reajustar a história para acomodar as mudanças.

No fim, “Yakuza Kiwami 3”, ao menos em termos de trama, é um jogo igualmente inconsistente quando comparado ao original, apenas em pontos diferentes. O esforço para melhorar a cadência parece mais um projeto que foi largado pela metade. E, se a história principal não for o suficiente para mostrar isso, “Dark Ties” é o exemplo perfeito.
Inicialmente apresentado como o grande “diferencial” de “Kiwami 3”, “Dark Ties” se foca quase que exclusivamente em Yoshitaka Mine e sua ascensão dentro do submundo de Tokyo, assim como uma forma de “explicar” algumas das decisões que ele toma em paralelo aos eventos de “Kiwami 3”.
Se eu demorei 7 horas para completar a campanha de Mine, foi muito. Ironicamente, acredito que eu teria levado menos tempo se ele não fosse demasiadamente arrastado. Quer avançar na história? Então se prepare para completar dezenas de quests secundárias que têm uma estrutura similar ao de uma “fetch quest” de um MMO, ou dar um sopapo em uns capangas em Kamurocho.
Eu não quero reduzir a campanha de Mine a apenas um “conjunto de quests chatas que você precisa fazer”. A trama em si é revigorante e mostra um lado muito mais pessoal do antagonista, e um que eu adorei ver. Por outro lado, o que aconteceu com toda a história de “ir direto ao ponto”? A Ryu Ga Gotoku Studio não leu o memorando que isso também devia se aplicar a “Dark Ties”?

Se você for um daqueles complecionistas – o que eu já deixei de ser há anos no que diz respeito a “Yakuza” – “Dark Ties” certamente vai durar bem mais tempo nas suas mãos, parte disso graças a muitos eventos opcionais e batalhas dentro de um “coliseu” para ganhar dinheiro e fama. Junto a ele vem um novo modo roguelite bem no estilo “avance em uma dungeon e acabe com dezenas de capangas até chegar no chefão final”. Para mim, uma desculpa para demonstrar as melhorias no sistema de combate de “Kiwami 3”. Uma desculpa que funciona — em partes.
Antes de entrar nos pormenores da jogabilidade, já adianto aqui que eu não jogo e nunca joguei “Yakuza” pelo seu combate. Eu sempre o vi como meios para um fim; se eu quisesse um jogo com um foco maior no combate, daria preferência a dezenas de “brawlers” lançados nos últimos anos. Também preciso pontuar que sou da “velha guarda”, e a minha primeira experiência com “Yakuza 3” foi no PlayStation 3, onde o tempo de carregamento para entrar em combate era longo o suficiente para preparar um almoço – e de lá para cá já são quase 20 anos. Acredito que muitos não tiveram o desprazer de ver isso, e seu primeiro contato foi pelo remaster de 2019, que mitigou ou eliminou o tempo de carregamento.
Dito isso, as mudanças que a Ryu Ga Gotoku Studio fez para o combate são, no geral, positivas. Alterá-lo para um sistema mais próximo ao que “Kiwami 2” e “Gaiden” oferecem é um passo na direção correta, e a inclusão de um novo estilo onde Kiryu pode usar armas com mais frequência é delicioso. Entretanto, o sistema no geral carece do polimento dos outros jogos da franquia.
Eu me diverti muito com o combate de “Kiwami 2” e “Gaiden”, mas os socos e pontapés parecem ter perdido o “impacto” em “Kiwami 3”; já as janelas para criar um combo foram reduzidas para não transformar Kiryu em uma máquina mortífera (não que ele já não seja).

O combate fica ainda menos prazeroso quando é a hora de jogar com Mine em “Dark Ties”, limitado a um estilo supostamente mais “técnico” que resulta em confrontos monótonos. É um dos motivos pelo qual eu não me interessei muito em investir tempo no modo roguelite de “Dark Ties”, embora haja algumas mecânicas exclusivas e upgrades temporários que alguém como eu – que adora roguelites – normalmente deitaria e rolaria em cima.
Por outro lado, “Yakuza Kiwami 3” marca o fim da era terrível onde todos os inimigos bloqueiam os seus ataques. Se você jogou o original ou remaster, sabe muito bem do infame bug que fazia com que os inimigos bloqueassem mais do que o normal. O meu “eu” do passado teria ficado tão, mas tão feliz se essa fosse a minha primeira experiência com o combate de “Yakuza 3” ao invés dos loadings terríveis do PlayStation 3 e as lutas arrastadas.
Falando em loadings, a única coisa que eu posso dizer com folga é que “Yakuza Kiwami 3” é um jogo bonito de forma geral. Bem, é o que se espera de um “remake”. Algumas cenas tiveram a sua iluminação alterada e outras partes poderiam ter sido mais refinadas no que diz respeito às sombras e modelos — mas, como alguém que adora a seção de Okinawa, vê-la com um visual repaginado é um puro deleite. Comparado com “Kiwami 2”, onde muitas cenas perderam o seu impacto emocional pela mudança de iluminação e sombras, a Ryu Ga Gotoku Studio foi bem mais “conservadora” ao manter o estilo original.
A melhor forma de descrever “Yakuza Kiwami 3” é como uma sanfona. Hora ele se estende e mostra que é um ótimo jogo, hora se retrai com exposições desnecessárias e um combate que, embora refinado, ainda está longe dos pontos altos da franquia. “Dark Ties” entra como uma sobremesa separada ao invés de um prato secundário – e acabo vendo-o como uma grande oportunidade desperdiçada.

Todavia, o que mais me assusta é a completa alienação da Ryu Ga Gotoku Studio em relação não só ao material original, mas para onde levar a série. Como eu apontei antes, algumas mudanças parecem ser feitas sem pensar nas consequências delas, ou no que isso implica para o restante da franquia. Se a desenvolvedora muda pontos cruciais, o que mais ela vai estar disposta a fazer para acomodar uma “nova” narrativa?
“Yakuza Kiwami 3” é a pior forma de jogar o terceiro título da franquia? Não, este “prêmio” ainda vai para a versão original de PlayStation 3. Por outro lado, também não o vejo substituindo a versão remasterizada de 2019 – agora relegada a um bundle caríssimo ao invés de poder ser comprado em avulso.
Para aqueles que vivem e morrem pelos visuais e o combate, “Yakuza Kiwami 3” é uma escolha certa por ser o jogo mais “moderno” — mesmo que o combate ainda tenha as suas deficiências.Para o restante, é como escolher em que braço tomar uma injeção que, inevitavelmente, vai doer, e não há “Dark Ties” ou modos adicionais que mudem isso. “Yakuza 3” vai continuar a manter o status de “patinho feio” da série. Se eu rejogá-lo — algo que está cada vez mais raro na minha vida —, não tenho dúvidas que vai ser pela remasterização de 2019, e não via “Yakuza Kiwami 3”.
Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties
Total - 7
7
Os novos visuais, as melhorias no combate de “Yakuza Kiwami 3”, e a narrativa de “Dark Ties” não são o suficiente para mudar o status de “patinho feio” do game. A trama está tão inconsistente quanto o original, apenas em pontos diferentes, e algumas mudanças nela não me agradam nem um pouco. Não é a pior forma de jogar “Yakuza 3”, mas eu ainda coloco a remasterização de 2019 acima do remake. E torço, mas muito, que a Ryu Ga Gotoku Studio consiga definir um rumo mais concreto para a série, pois se “Kiwami 3” for exemplo de algo, é que a desenvolvedora está mais perdida do que nunca.

