Análise – Wreckfest

Encontrar o equilíbrio perfeito em questão de dificuldade para os diferentes tipos e personalidades de jogadores pode ser uma das tarefas mais dolorosas em jogos. Fácil demais, difícil demais, nunca está do exatamente seu gosto. Algumas vezes, é melhor ter uma dificuldade específica ou atingir um nicho específico, luxo que Wreckfest (Steam) merecia ter.

O novo game dos criadores de Flatout abandona o estilo mais “arcade” da franquia que os alavancou para o sucesso em favor de uma e temática “realista”. Wreckfest ainda é sobre destruir carros, só que ao invés de tornar isso um ponto onde o jogador sempre está acima dos seus oponentes, ele o coloca em um patamar de igualdade.

As corridas do modo carreira consistem tipicamente de 24 carros — que vão dos American muscles, compactos europeus e alguns veículos japoneses. Não há outra descrição para elas a não ser “caótica”, fique no meio de três a cinco carros em uma curva que você tem a garantia de sair no mínimo com uns belos amassados, uma roda torta e uma suspensão que não funciona. Tal aspecto caótico também pode ser usado para descrever as pistas, que conseguem ser um misto de layouts mais “realistas” até pistas loucas onde os carros podem se chocar em cruzamentos, fazendo que você perca a posição – ou até a corrida. Chegar na linha de chegada sem nenhum arranhão é um feito para poucos.

De início eu imaginei que a diferenciação de layouts estava bastante ligado à oferecer variedade ao jogador, mas na medida em que continuei a jogar, percebi uma certa crise de identidade em Wreckfest. Não fiquei surpreso, o jogo ficou em desenvolvimento durante acesso antecipado por mais de quatro anos e passou por mudanças drásticas. Haviam períodos onde uma atualização o deixava completamente arcade, a outra mudava o estilo de direção para um nível de “simulação” que esperava encontrar em Project Cars ou similares. Queira a Bugbear ou não, resquícios dessa época ainda aparecem bastante na versão final.

Os oponentes, por exemplo, estão na pista mais para te atrapalhar do que serem realmente ameaçadores. Pegue competições com mais de uma corrida, por exemplo: chegar em primeiro lugar já na primeira corrida automaticamente define a sua posição para as próximas corridas. Toda vez que eu fazia isso eu conseguia abrir mais de seis segundos de vantagem sem o menor esforço. O motivo? Mais da metade dos oponentes estava focado em destruir o cenário – e se destruírem – do que tentar disputar pela sua posição.

Wreckfest

As situações onde a IA de fato se torna um verdadeiro oponente são em eventos de demolição — onde 40 carros entram em uma arena e o objetivo é tentar não virar uma bola de ferro retorcido antes do tempo zerar — e o modo expert. Especialmente o modo expert.

Queria ter tomado a decisão de mudar para o modo expert e desligar todas as assistências (freios abs, controle de tração) muito antes de chegar na metade da campanha, pois teria aproveitado mais de Wreckfest. A IA pode não ter se tornado o que eu imaginava, mas ao menos ela além de bater, tentava competir pelo primeiro lugar; os pódios começaram a se tornar mais e mais raros, e eu tive de refazer dezenas de corridas. Aproveitei para colocar alterar a quantidade de dano recebido para “realista”, que me fez prestar ainda mais atenção qual era a minha posição na pista — se valia a pena tentar uma ultrapassagem ou não. Uma batida agora significa mais do que perder uma posição, significa não completar a corrida.

A mudança na apresentação e na intensidade das corridas foi drástica. Agora meus carros tinham peso, derrapavam, atuavam como carros de “verdade” — tinha controle sobre eles. Fiquei sem chão quando vi meu carro derrapar e acertar uma pilastra, o retorcendo e tornando impossível de terminar a corrida.

Enquanto eu alternava entre surpresa e euforia, comecei a notar o cuidado que a Bugbear teve com os seus veículos e como eles — mesmo que não tenham o mesmo grau de complexidade de um jogo mais “realista” — conseguem se diferenciar nos mais singelos detalhes. Tração frontal ou traseira fazem diferença quando se joga no expert e sem assistências. Para dar um “sabor” a mais, optei por usar uma IA criada pela comunidade (disponível no Steam Workshop) que equilibra melhor desafio e destruição.

Finalmente estava contente com Wreckfest, agora era só continuar o modo carreira e – opa, já acabou.

Wreckfest

Pois é, tudo que é bom dura pouco e no caso de Wreckfest, muito pouco. O maior calcanhar de Aquiles do jogo fica justamente na variedade. O segundo motivo pelo qual eu me decepcionei por não ter mudado a dificuldade antes da segunda metade do modo carreira vem do fato que os eventos começam a se tornar um tanto quanto repetitivos. A quantidade de layouts para as pistas é incrivelmente decepcionante (no máximo três), e a Bugbear optou com que ao menos um deles fossea versão inversa da pista, que raramente tem a mesma qualidade da versão original.

Felizmente esse problema pode ser mitigado com o modo multiplayer, que não só oferece um incrível netcode como dezenas de opções a serem personalizadas. Difícil mesmo é encontrar alguém para jogar. Servidores vazios, e a falta de ferramentas para criar eventos com uma comunidade me indicam que ele pode não ter a longevidade que eu gostaria. Uma pena, eu realmente gostaria de participar de uma das corridas insanas com ônibus ou colheitadeiras (!).

Fico estupefato, pois de todas as minhas preocupações que tinha com Wreckfest, repetitividade não era uma delas, afinal ele não usa nenhum tipo de conteúdo licenciado (marcas, pistas famosas) como jogos como Forza ou Project Cars. E, ironicamente, ele traz falhas ainda maiores nessa área do que os citados. Até DiRT 4 – que considero o ponto baixo da franquia de corrida, tem mais conteúdo.

Por isso que digo Wreckfest merecia ter o luxo de se focar em um tipo de jogador em mente: aquele que não teme o desafio, que está disposto a remover todas as opções de “auxílio” de cara, ao invés de ver a Bugbear lutar por anos para encontrar esse equilíbrio. Pois, me focando unicamente nos carros, Wreckfest é fantástico. Porém, carros não são só o que fazem um jogo de corrida ser bom. O decepcionante modo carreira e a falta de ferramentas para um online competente e cativante fazem com que ele morra antes mesmo de ultrapassar a linha de chegada.

Wreckfest

Total - 6.5

6.5

Se você está disposto a remover todas as assistências e jogar na dificuldade mais alta, Wreckfest é fantástico. Infelizmente seu modo carreira repetitivo, a falta de variedade nas pistas e um componente online sem ferramentas para criar eventos para uma comunidade prejudicam o que poderia ser mais um sucesso no catálogo da Bugbear.

Análise – Wreckfest

About The Author
- Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.