Quem acompanha as minhas críticas de “Total War: Warhammer III” sabe que meus olhos brilham quando o assunto são os Skaven. Adoro esses ratos malignos e sua propensão ao caos. Por outro lado, o meu interesse em Grand Cathay alternava entre o mediano e o “ainda bem que já fiz as campanhas deles”. Não ajudou o fato de que “Shadows of Change” ainda deixa um gosto amargo na minha boca. Gosto que, após anos, está indo embora após jogar com Bhashiva (Steam).
A tigresa, muito como a facção da qual ela faz parte, já está no imaginário dos fãs de Warhammer por mais de uma década. A ideia de jogar com o equivalente da China no universo da Games Workshop sempre pareceu um sonho distante para aqueles que preferem as versões digitais. Não havia material suficiente para compor um exército, muito menos uma história para sustentar a personagem. Por consequência, Bhashiva e seu exército de tigres mercenários é tanto uma criação da Games Workshop quanto da equipe da Creative Assembly, que preenche as lacunas com as próprias ideias.
O resultado é um exército que pode parecer à primeira vista um tanto quanto monótono e sem sal. Bhashiva não vem munida de tropas como “Sky Lanterns” que dilaceram tropas à distância, muito menos “Terracota Sentinels” — uma das minhas unidades favoritas de Grand Cathay. Suas armas são agilidade e um exército que se sobressai no combate corpo a corpo. Mas, um que está sob o controle de alguém muito mais poderoso do que a própria Bhashiva.
A tigresa jurou lealdade ao Dragão de Ferro Zhao Ming e, de acordo com o “lore” (ugh, que termo horrível, desculpe), esta é uma prática comum entre os tigres brancos mercenários. De certa forma, jogar como Bhashiva é quase como jogar como um vassalo de Zhao Ming.

Embora isso não seja uma novidade em “Total War: Warhammer III”, já que existem outros sistemas para outras facções que podem ou não colocar um personagem no estado de “vassalo”, Bhashiva é diferente devido a suas mecânicas de campanha. Por si só, a personagem é relativamente fraca, mas se tiver acesso às tropas de Zhao Ming, a história muda, e muito. Mas, para isso, você terá que “ralar” um tanto.
Para começar, a posição inicial de Bhashiva no modo Immortal Empires não é nem um pouco favorável para ela. Rodeada de inimigos sedentos por sangue, ou você parte para o ataque, ou você parte para o ataque. Não há tempo a perder caso queira que a sua campanha dure mais do que 10 turnos. É uma mudança considerável de ritmo para uma facção de Grand Cathay.
Quando eu jogo com Miao Ying ou o já mencionado Zhao Ming a minha estratégia tende a ser a mesma para lordes poderosos em “Total War: Warhammer III”: defenda a sua capital, ataque cidades próximas, saqueie-as e evite invasões dos Chaos nas suas províncias. É um processo longo e metódico. O loop pode ser destilado em: recrute unidades, melhore a sua capital para ter acesso a unidades mais poderosas, pesquise novas tecnologias, e repita o processo nos próximos turnos.
Com Bhashiva eu mirei no vilarejo mais próximo e parti para o combate já no primeiro turno. Sabia que, se eu deixasse o inimigo crescer ou fortalecer as tropas, eu estaria acabado. Não demorou muito para que as cidades de Bloodpeak e Fire Mouth sucumbissem ao poder da tigresa. E com isso, as principais mecânicas de Bhashiva começaram a mostrar a sua verdadeira face.

Para compensar o seu exército “anêmico”, Bhashiva depende de agradar Zhao Ming e completar as missões que ele determina. Algumas podem ser “simples” — como batalhar contra os inimigos dele, seja o Ogre Kingdoms ou outros com os quais ele não tem relações positivas, ou está em guerra — até entrar em guerra com outras facções. O que importa é: você sempre vai se sentir fora da sua zona de conforto.
Algumas das missões até podem não fazer muito sentido, como, por exemplo, eliminar um personagem que está praticamente no outro lado do mapa. Se fosse com outra facção, eu resmungaria. Com Bhashiva? Quem sou eu para negar a demanda do meu “senhor feudal”?
Embora não haja nenhuma repercussão negativa para ignorar essas missões, ao menos em termos de diplomacia – que ainda, infelizmente, permanece como um dos pontos mais fracos de “Total War: Warhammer III” –, isso significa que eu não vou ter acesso aos formidáveis “Terracota Sentinels”. Tal unidade só é liberada ao atingir o nível “máximo” de lealdade com Zhao Ming; ou seja, pode se preparar para uma campanha muito longa onde você vai pular de cidade em cidade completando missões. Não poderia estar mais contente.
Um dos componentes que eu vejo como “medianos” em “Total War: Warhammer III” é a falta de urgência no “Immortal Empires”. Por não existirem incursões do Chaos – a não ser que você use mods ou jogue com facções específicas – o modo é um paraíso para o estilo metódico que descrevi alguns parágrafos acima. A interação entre Bhashiva e Zhao Ming é mais do que o suficiente para gerar pressão e a ideia de que se você não se mover, vai acabar aniquilado como as facções minoritárias.

É claro que, como disse acima, você pode ignorar as missões de Zhao Ming e focar em fortalecer o seu próprio exército. Para isso a desenvolvedora implementa o que ela chama de Tiger Court. Em suma, esse corte funciona como uma árvore tecnológica secundária que melhora as principais unidades de Bhashiva. No entanto, a pressão não para.
Para melhorá-las, você precisa de relíquias de jade. Adivinhe onde elas estão? Pois é, em vilarejos ou cidades dos seus inimigos. Quanto mais relíquias, mais buffs, e alguns que considero essenciais caso queira moldar um exército puramente composto por unidades ligadas diretamente a Bhashiva. Por outro lado, já adianto que requer um ótimo conhecimento de “Total War: Warhammer III” e de como se defender propriamente de ataques à distância ou de investidas ferozes de cavalarias.
As piores batalhas que tive ao tentar essa empreitada foram contra heróis montados em dragões ou outras unidades áreas, já que Bhashiva não tem acesso a montarias e não há nenhuma forma de se defender ou atacá-los sem depender do restante das tropas de Grand Cathay. No entanto, não duvido que algum “louco” consiga essa façanha.

A dependência nas tropas de Grand Cathay ao invés do que eu considero o seu “exército pessoal” – as unidades tigre – para completar a campanha, só reforça o papel de Bhashiva como uma mercenária e “vassala”. Ela não está aliada a Grand Cathay, mas sim “pertence” à facção. Um ajuste simples, mas com repercussões narrativas interessantes – feito que a Creative Assembly nem sempre consegue fazer ao expandir ou repaginar uma facção.
Por outro lado, eu gostaria ao menos que a personagem tivesse um pouco mais de “integração” com a facção no geral. Ela tem acesso, por exemplo, a Ivory Road que vira uma forma secundária de obter relíquias de jade, mas a quantidade de caravanas que perdi por conta da posição inicial da personagem, ainda mais contra os Chaos Dwarves que estavam sedentos pela cabeça dela, não cabem nesta crítica.
Eu não espero mecânicas como a bússola de Wu Xing, mas ao menos um impacto maior do sistema de harmonia – já presente em outras unidades de Grand Cathay – teria sido muito bem-vindo. Umas unidades a mais, especialmente munidas de alguma forma de ataque à distância, também teria sido maravilhoso, mas a inclusão delas prejudicaria a própria narrativa estabelecida por meio das mecânicas e o conceito de parte-mercenária, parte vassala da personagem.
Isso não quer dizer que a Creative Assembly não tenha feito alguns ajustes interessantíssimos para Grand Cathay. Muito pelo contrário, a atualização 8.0 que acompanha a personagem reorganizou a árvore de tecnologias da facção e a transformou em uma muito mais maleável, seguindo com o tema que tanto reverberou na campanha de Bhashiva: pressão.

Agora separadas entre província e militar, a árvore de Grand Cathay está muito mais direta e causa um tremendo impacto nas campanhas de Zhao Ming e Miao Ying. Está muitíssimo mais fácil melhorar as unidades – sejam elas Yin ou Yang – nos primeiros turnos e partir para o ataque. Diria até que a nova árvore de tecnologia é a antítese do conceito de “sentar e esperar” que eu tanto utilizei pelos últimos anos em Grand Cathay.
Isso também vale para as alterações dos valores de crescimento de províncias, agora mais rápidas, e a possibilidade de construir certas edificações sem ter que esperar a sua cidade crescer o suficiente. Embora eu ainda esteja na metade da minha campanha como Miao Ying durante a confecção dessa crítica, eu conquistei províncias com muito mais agilidade.
Mesmo que eu não veja Grand Cathay como uma facção que precisa de muito ajuste – ao menos se for comparada com os Tomb Kings, pobres coitados que não veem uma melhoria deste “Total War: Warhammer II” que não seja pela comunidade de mods — as mudanças são mais do que o suficiente para me incentivar a começar novas partidas no modo Immortal Empires.
Bhashiva e as mudanças para Grand Cathay indicam para mim uma coisa: que a Creative Assembly está mais do que cansada de ver jogadores sentados com exércitos gigantes. Ataque ou você será engolido. Se esse tema for o novo “molde” para as próximas adições e atualizações de “Total War: Warhammer III”, ficarei felicíssimo. Até lá, tenho certeza de que novas partidas com Grand Cathay e Bhashiva vão me deixar satisfeito.
Total - 9
9
Mesmo com um exército relativamente pequeno comparado a outros lordes lendários, Bhashiva é uma ótima adição pela forma como a Creative Assembly implica narrativa por meio de mecânicas, e para quem está em busca de uma campanha banhada em pressão e decisões cruciais. Não é para os fracos, muito menos os novatos em “Total War: Warhammer III”, mas para quem já passou das dezenas de horas de jogo, há muito o que celebrar.

