Análise – Total War: Rome II – Empire Divided

Eu não acreditei que tinha, em 2017, Total War: Rome II aberto no meu monitor. As horas gastas no seu terrível lançamento e o então “remendo” da Emperor Edition ainda assombram as minhas memórias de jogos de estratégia. Com Empire Divided a Creative Assembly retorna a um de seus mais controversos games para dar um retoque, um que a essa altura soa como “tarde demais”.

“Tarde demais” é um termo que não tenho apreço em usar, pois – por experiência própria – nunca é tarde demais para um jogo. Vide o free-to-play Warframe, por exemplo, que saiu de um mediano shooter em 2013 a um gigante em 2017. A diferença aqui é que a Digital Extremes pegou a base do jogo e ao longo dos anos a evoluiu consideravelmente, enquanto a Creative Assembly fez isso por meio de novos games, como Attila e, mais recentemente, a duologia Warhammer – o que faz com que Empire Divided fique ainda mais destoante do restante de Rome II e da série Total War no geral.

Ambientado durante a crise do terceiro século, onde o Império Romano foi fracionado em três facções – Império das Gálias, Império Romano e o Império de Palmira – Empire Divided funciona como um mini-Attila (pela falta de um termo mais preciso) dentro de Rome II. Não estou afiado com o meu conhecimento histórico do período, portanto não entrarei em específicos, mas a sua temática está profundamente sedimentada em uma questão de instabilidade. Pragas atormentam cidades, questões sanitárias das cidades viram um elemento que requer atenção e grupos de bandidos vagam pelas regiões – o que reduz tanto o fluxo de dinheiro como a quantidade de comida.

Queira a Creative Assembly ou não, a realidade é que Total War funciona melhor quando abandona esse conceito de campanha sandbox – tão presente em games anteriores como Shogun 2, Rome, Medieval – para colocar o jogador em situações complexas. Napoleon foi uma ótima evolução do então terrível Empire, Atilla seguiu o mesmo caminho e Warhammer é assim desde sua concepção.

Ao jogar Rome II com Empire Divided e a atualização Power & Politics – que expande as ferramentas de gerenciamento do império com novas opções de influência ao senado, novos tipos de governo e guerras civis cujas informações agora estão dispostas de maneira legível na tela – é possível ver o quanto o aspecto de gerenciamento foi refinado.

Simultaneamente a Creative Assembly pegou pitadas de Total War: Warhammer e colocou em Rome II na forma de facções e figuras históricas heróicas; estas oferecem árvores de tecnologia exclusivas e quests que dão um senso narrativo mais forte ao game. Não chega aos pés do que é feito no jogo ambientado no universo da Games Workshop, e ainda está muito longe de ser comparado a outros excelentes exemplos como Endless Legend / Endless Space 2, mas é um passo adiante. Um que não cabe dentro dos conformes de Rome II.

Empire Divided

Cada aspecto evolucionário de Empire Divided é amarrado e impedido de ser mais impactante por ter sido desenvolvido no que é essencialmente o remendo de um remendo. Atualizações no gerenciamento ou narrativas mais fortes pouco importam quando é quase impraticável apreciar a base que sustenta isso.

Minha principal partida foi com o Império Romano liderado por Aureliano, onde o sistema de gerenciamento e políticas ganha maior força. Roma está à beira de uma Guerra civil, inúmeras facções menores tentam dominar o Senado. Cada turno era ter uma corda em volta do meu pescoço; seria este o turno em que meu império iria finalmente se dissolver? Já no começo tinha dezenas de províncias para gerenciar, ameaças nas fronteiras, e o medo de que Palmíria fosse dar a primeira cartada e me invadir.

Nas primeiras horas foi realmente uma sensação completamente diferente da que tinha com Rome II até então. Era um “novo jogo”. Toda a trama de Aureliano é interessante de acompanhar. A estrutura de fato passa uma sensação de medo. Pela primeira vez eu realmente sentia que as minhas decisões gerenciais tinham peso no avançar dos turnos.

Até atingir a enorme pedra no caminho de Rome II: as batalhas.

Retornar a um Total War anterior é ter a noção de que algumas mecânicas não envelheceram muito bem e, mesmo para um jogo de quatro anos atrás, as batalhas de Rome II deixam isso ainda mais visível. O combate carece de uma inteligência artificial competente, o que cria batalhas de cerco praticamente insuportáveis. Afinal, nada mais agradável do que ver que uma unidade não atacou por não encontrar qual caminho deveria seguir dentro de uma cidade.

Por mais fracas que sejam, eu concordo que algumas das mecânicas – como o uso de formações e maior variedade de flechas e as batalhas navais – cairiam muito bem para a então duologia Warhammer, que se apoia um pouco demais no uso de magia para gerar atrito e tensão nas batalhas. Mas, Independentemente da complexidade presente em Rome II, eu comecei a optar por resolver as batalhas automaticamente assim que vi os meus soldados seguirem uma rota bizarra ou não atacarem propriamente.

Empire Divided

Assim que é removido o contexto do combate – teoricamente o carro-chefe de Total War – resta apenas um mediano gerenciador e mediano jogo de turnos. “Eu deveria jogar Attila”, disse para mim mesmo depois passar um dos turnos finais. E não estava errado; Attila corrigiu parte dos problemas na IA de Rome II, e dispõe de uma campanha tão detalhada e com um sentimento de ruína tão ou mais forte do que o antecessor.

Não ouso dizer que Empire Divided não tem lá a sua importância dentro do contexto de Total War. Ele demonstra que a Creative Assembly está mais do que ciente dos problemas de gerenciamento que permeiam Total War há anos. Mesmo sem todas as peças do quebra cabeça na mão, pode-se ter esperança de que Thrones of Britannia – o primeiro game da série “A Total War Saga” cuja estrutura da jogabilidade é  Total War: Attila – pode chegar com todo esse cuidado que Empire Divided recebeu.

Inegável em seu aspecto incubatório – um workshop de ideias da Creative Assembly – Empire Divided é a tentativa de endireitar um barco que já assumiu um rumo definitivo. Pode trazer um pouco de emoção a Rome II, mas é melhor jogar Attila pelas batalhas, Field of Glory II pelo aspecto histórico ou até mesmo um Europa Universalis: Rome para aquele gostinho de nostalgia.

Na crise do terceiro século, as várias facções tentaram salvar o Império Romano do Ocidente de sua dissolução iminente, mas essa já era inevitável. De forma similar, Empire Divided chegou tarde demais. A ruína já havia se instaurado e o fim era inexorável. Novos jogos podem ser coroados como reis ou rainhas, mas Rome II nunca vai recuperar o título de imperador.

Total War: Rome II - Empire Divided

Total
As pitadas de Warhammer e Attila trazidas por Empire Divided não são suficientes para reaquecer o fogo de Rome II. A expansão pode até trazer momentos de emoção, mas no final do dia, é o mesmo jogo - inconsistente e com os mesmos sérios problemas de jogabilidade que tínhamos em 2014.
Podia ser melhor

Análise – Total War: Rome II – Empire Divided

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Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.

  • Fernando Queiroz

    Senti o mesmo que foi descrito na análise. A campanha rendeu uma narrativa muito mais imersiva com as mecânicas de gestão de recursos, saneamento e criminalidade.
    Agora generais e políticos tem funções mais claras. Apesar disso, sou da opinião que faltaram vídeos dos agentes de campo (espiões, administradores, etc)
    Que venha O medieval 3 com os progressos feitos no Warhhamer 2 e no Rome 2, e que não esqueçam da family tree de jogos anteriores.