Análise – Strafe

Roguelike e shooter, duas palavras que quando juntas em uma frase me dão calafrios. “Nada de bom pode sair disso” é a minha reação para jogos que buscam intercalar os dois elementos. Strafe, disponível para PC e PlayStation 4 a partir de R$36,99 é a grande exceção à regra.

Os gráficos podem parecer de 1996 com suas texturas sem filtro que tentam evocar nostalgia, mas Strafe claramente pega muitos dos elementos de shooters atuais e os combina em um agradabilíssimo pacote. Esqueça a história, você não precisa dela. A motivação é uma só: destruir uma cacetada de inimigos e chegar ao fim da fase gerada aleatoriamente no início de cada partida, com vida suficiente para aguentar a próxima onda de inimigos.

Meu principal problema com games que incorporam elementos de Roguelike é que raramente eles enforcam o conceito de perder e ter de recomeçar tudo de novo. Bunker Punks, Immortal Redneck e Rogue Legacy seguem o mesmo padrão do ato de morrer não servir apenas para aprendizado, mas também para melhorar o seu personagem até um ponto onde o jogador depende apenas da habilidade. Por mais acessível que o sistema seja, ele também dilui o senso de recompensa de fazer uma partida maravilhosa e receber todos os louros pela conquista.

Strafe por outro lado, caminha na direção completamente oposta. É brutalmente difícil, requer criatividade e as melhorias passivas ou ativas são escassas. O ponto de entrada é muito mais alto do que se espera, e isso é ótimo.

A função não serve para que os jogadores se sintam superiores, muito pelo contrário. Ele te força a pensar “fora da caixa” para lidar com as ameaças espalhadas pelo cenário. Um rio de ácido pode se tornar um detrimento ou uma vantagem para a partida caso saiba guiar os inimigos para ele.

Ele usa e abusa do senso de verticalidade e navegação constante para que o jogador se sinta interligado a estes conceitos. Poucas salas podem ser consideradas “arenas” típicas de um shooter clássico, muitas são corredores ou zonas com um ou mais andares. A inspiração parece mais vir das zonas industriais de Quake 2 com pinceladas de Quake 3 e Deck 16 de Unreal Tournament do que Quake e jogos da Build Engine (Duke Nukem, Blood, etc).

Nesse labirinto, visto em grande parte nas quatro e bem distintas zonas que Strafe propõe importantes questionamentos. Munição e vida são escassas. Escudo de proteção? Apenas se gastar os seus scraps — obtidos de monstros — para comprar em máquinas espalhada por cada fase. Isto é se você ter a certeza que a munição que possui é o suficiente até a próxima área onde possivelmente terá mais scraps ou ter a sorte de encontrar uma arma secundária. Qual opção que vai escolher?

Cada partida de Strafe é uma corda bamba eterna, não há descanso tampouco pontos para relaxar, é tensão do começo ao fim. E dentro desse contexto você precisa ser tático para sobreviver. Manipular o ambiente, usar barris, fazer com que os inimigos te sigam para armadilhas criadas com ácido, explosivos, bombas remotas e muitas outras ferramentas que seriam longas demais para lista-las aqui.

Strafe

Até mesmo o sangue — possivelmente o destaque visual de Strafe — possui uma função tática por poder ser usado como uma “proteção” a lava ou ácidos, basta matar alguns inimigos e garantir que o sangue esborrife por cima das zonas perigosas. Uma tarefa que vai ser árdua nas primeiras horas, mas assim como o restante da jogabilidade, profundamente compensadora.

Do minuto que você começa a entender as variações táticas apresentadas em Strafe é quando as suas noites vão embora. Uma partida vira duas, que vira três, que vira quatro e eu ainda me questiono como eu já tenho 20 horas de jogo e ainda muito longe de descobrir todos os segredos da campanha principal. Isso sem contar as horas que gastei com a Murderzone.

Sou um completo fanático por modos survival e hordas e as minhas 50 horas de Devil Daggers demonstram isso melhor do que tudo. Não é à toa que eu morri de amores pela Murderzone de Strafe. Um modo survival com múltiplas arenas e itens desbloqueáveis. É o tipo de jogo que eu aproveito uma escapadinha após o almoço para jogar, para passar aqueles minutos enquanto espera alguma outra tarefa ser completada. Isto é, exceto na vez que uma partida por algum motivo durou 50 minutos. Culpo o vício.

De todas as coisas que Strafe faz tão bem, ele também erra grotescamente em um ponto que julgo crucial: O demasiado uso de ícones ao invés de descrições. Ele tira não só uma página, mas um capítulo inteiro da escola “Binding of Isaac de descrições obtusas e crípticas que confundem o jogador”. Há um sistema de aprimoramentos passivos obtidos nos mapas que podem aumentar seus pontos de vida, velocidade de disparo e danos aos inimigos.

Nestes casos o jogo não apenas não dá nenhum tipo de informação como relega tudo aos ícones. “Olha, peguei uma perk, tem uma caveira nele. O que significa?”, pensei. Fui descobrir horas e umas dez perks depois que aumentava o dano causado nos inimigos. A taxa de aumento é tão insignificante que eu jurei que Strafe estava com algum bug. Desenvolvedores, por favor, coloquem descrições nos seus jogos. Infelizmente ainda não sou um vidente. Que a Pixel Titans reveja ambos os sistemas e os melhore em uma atualização.

Mesmo com os problemas, jogar Strafe é como assistir um choque entre trens. Seus músculos se tensionam, você sente o mundo a sua volta ficar mais lento, sua visão totalmente focada no que acontece na sua frente e sua agilidade mais rápida do que o normal caso haja necessidade de algum movimento brusco.

“Mais uma run, mais uma run”, eu dizia. Morria, repetia, morria, repetia, melhorava, vencia. Os corredores ficavam cheios de sangue e minha mente cada vez mais afiada, preparada para o próximo desafio. Seja em 1996 ou em 2017, Strafe é um senhor shooter e merecedor da sua atenção.

Strafe

Total
Impiedoso e viciante, Strafe é um shooter roguelike que alterna entre ser tático e agressivo. Consagra quem treinar e afiar suas habilidades em seus labirintos repletos de monstros e sangue. Descuida em ser obtuso demais em certos aspectos, mas não o suficiente para deixar de recomendá-lo. De quebra ainda tem um ótimo modo survival que vai fazer você gastar horas e mais horas.
Excelente

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Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.