Análise – Spintires: MudRunner

Você conhece aquele tipo de pessoa metódica, que tenta racionalizar e planejar tudo? Essa pessoa sou eu, e Spintires: MudRunner (PC, PlayStation 4, Xbox One) é uma manifestação desse meu espírito, mas também uma peculiar rota para um sentido mais profundo de quem eu sou.

Originalmente lançado em 2014, MudRunner é em partes uma sequência, mas principalmente uma continuidade do trabalho de seu criador, Pavel Zagrebelny. Os primeiros minutos deram uma estranha sensação de déjà-vu, tudo era basicamente igual ao primeiro game, pois de fato é. Não há muitas novidades em relação ao conteúdo. Alguns novos mapas de desafio para quem gosta desse tipo de coisa (não eu), uma variante de um veículo e um mapa, e fim. A essência permanecia a mesma: dirija por terrenos acidentados para entregar cargas de madeira.

Não vou esconder a minha decepção ao ver que não era bem a sequência que eu imaginava de começo, mas bastaram algumas horas de jogo para perceber que são os detalhes que se destacam.

Spintires em si não é um jogo extremamente difícil, mesmo quando jogado no modo hardcore — que desabilita dicas navegacionais e a opção de resgatar caminhões que podem ter sido tombados. Ele é acima de tudo sobre planejamento, paciência e muita, mas muita logística. Cada mapa é um imenso labirinto de lama, terra, atalhos escondidos e um pouco de frustração. Frustração alimentada pelo quão inconsistente era o sistema de danos do antecessor. Acertou uma pedrinha? Que pena, agora o seu veículo tomou 100 pontos de dano mesmo a 2km/h.

Horas de jogo já foram perdidas por conta de pequenos defeitos como este; às vezes planejava todo o caminho para carregar troncos de árvore de uma madeireira para um quiosque somente para ver que meu esforço foi em vão. Outra grande reclamação da comunidade — e minha — era a jogabilidade na lama, que em momentos soava pouco crível. Situações críticas podiam ser facilmente resolvidas com o uso de guinchos ou um esforço a mais do motor. Quanto a esses quesitos de jogabilidade, MudRunner os refina e com isso torna a “experiência” de dirigir mais prazerosa. Uma câmera interna em primeira pessoa deixa tudo mais “real” e efeitos de lama estão mais próximos do que se espera de um jogo desse calibre. Mas Spintires não merece ser ovacionado puramente pelo ato de dirigir, e sim como o ato é contextualizado.

Jogá-lo é como entrar em um estado letárgico. O simples ato de ir do ponto “A” ao ponto “B” e chegar com a carga intacta e com combustível suficiente pode demorar horas, quiçá dias. É uma questão de saber apreciar o cenário, tomar o seu tempo, ir com calma, ouvir os sons da floresta, o canto dos pássaros no amanhecer e o coaxar dos sapos à noite. Lentamente o quebra-cabeça dos mapas se transforma em um sentimento de jornada, exploração, descobrimento. Em partes, um caminho para a própria mente.

Mudrunner

O que o diferencia de qualquer outro jogo de “corrida”, ou até mesmo de alguns dos meus favoritos, como Euro Truck / American Truck Simulator; é a criação de memórias via dificuldades. Ao passo que o jogo da SCS Software te dá uma rota para seguir e ao longo dela criar memórias, Spintires: MudRunner faz o jogador retornar a estas memórias via repetição. O primeiro mapa, The Bog, é um primordial exemplo disso.

Desacostumado a jogá-lo, comecei MudRunner praticamente como um novato. Engatei marchas erradas, atolei meus carros e caminhões na lama, esqueci o gasto médio de combustível, enfim, uma desgraça. Comecei então a anotar meus passos, calcular o gasto de combustível em uma pequena planilha (não necessário, somente eu sendo triplamente cauteloso), descobrir qual a melhor forma de estacionar possíveis caminhões pipa para reabastecimento caso fosse necessário.

Conforme desbravava o mapa, começava a deixar uma marca minha nele pela deformação do terreno. Ainda um dos meus elementos favoritos de Spintires, essa mecânica faz com que diferentes caminhões deixam suas rodas e traços sobre o terreno, que é deformado de acordo com o peso e a velocidade de um veículo. Assim que rotas são criadas, voltar a elas é como recuperar um passado, mesmo que esse tenha acontecido uma ou duas horas atrás.

Ainda que ofereça um modo cooperativo, Spintires: MudRunneré, para mim, um jogo que merece ser apreciado sozinho; não apenas pelo aumento da complexidade logística — esse é o meu lado lógico e planejador falando — mas pela maneira íntima como ele se integra ao jogador.

É o ato de olhar para uma marca deixada em meio a um pântano, dar uma risada e pensar “Nossa, eu atolei um trailer imenso aqui e foi um saco de tirar”. É ver como uma narrativa é desenvolvida e integrada pelas mecânicas sem que elas caiam no tradicionalismo de outros gêneros.

Vem com isto toda a atmosfera do leste europeu, normalmente uma temática pouco usada em jogos e para muitos ainda dado como algo “místico”; uma região que nunca se integrou propriamente aos “valores do ocidente” no pós-guerra fria e que dá um ar misterioso a Spintires: MudRunner. E com isso vem também os veículos, alguns inspirados por modelos comuns da época da União Soviética, e as construções tão presentes no interior do Estado.

Mudrunner

A nova iluminação, que remove o tom mais vibrante do antecessor e o troca pelo neutro — quase sépia — coloca detalhes como mais névoa no amanhecer, ou a escuridão ao cair da noite, intensificando assim a noção de estar preso em uma cápsula do tempo.

Esse tipo de “turismo virtual místico” em si é um cenário muito curioso e que vejo pouco replicado em jogos – a oportunidade única de estar em um lugar sem sentir os males socioeconômicos que vêm com ele. Atributo, este, que observo quando confrontado com imagens da antiga cidade murada de Kowloon. Sua estrutura mostra-se curiosa, muitas vezes até um “feito” da arquitetura. Como fazer tantas vidas em um local tão comprimido? Mas as fotos não revelam o sofrimento daquelas pessoas, tampouco o estado de anarquia presente naquela cidade. Spintires: MudRunner também não oferece esse contexto, e faz com que eu me sinta em partes um viajante no tempo-espaço enquanto traço a minha própria história.

Essas tarefas pouco convencionais, essa temática que exalta meu lado metodológico, acabou também encontrando um caminho até o meu lado emocional. O sentimento de alívio de uma carga entregue, ou estacionar um caminhão na beira de uma estrada e ouvir os sons noturnos. Acordava em mim também um sentimento de agonia, de lembrar que o que era diversão e história para mim, era a triste realidade de outros. De que a Rasputitsa, termo em Russo dado ao período de chuvas que ocorre na primavera ou outono — e muito conhecido por dificultar o avanço das tropas da Alemanha Nazista em 1941 — ainda era a realidade de muitos.

O que então era a minha história se mescla com a história de tantos por meio de contextos diferentes. O desafio, digital, era entregar cargas e “vencer”. De quem vive na região? Sobreviver a mais um período de chuvas.

Spintires: MudRunner é único. Estranho ao olhar, monótono ao se observar, mas incrivelmente enigmático assim que você começa a dar contexto. Ele transforma tarefas mundanas em algo excitante, ele cria um desafio para o jogador e abafa o da realidade; dá novas formas e significado ao ato de “sobreviver” dentro de um jogo de corrida, cria histórias e, para os mais atentos, revela histórias.

Não é todo dia que eu digo que transportar cargas de madeira por terrenos acidentados pode ser um exercício de autodescobrimento. Spintires: MudRunner é um dos poucos capazes disso, e por isso, junto com seu antecessor, vai ser sempre um dos meus jogos favoritos.

Spintires: Mudrunner

Total
Apesar do conteúdo adicional ser terrivelmente anêmico, Spintires: Mudrunner continua a trajetória de ser um dos mais peculiares e espetaculares jogos que já tive o prazer de jogar. Parte desafio, parte descobrimento e história, ele te leva a um espaço atemporal, uma culminação do desconhecido com uma realidade distorcida. Carregue seu caminhão com madeira, enfrente a estrada. Pode ser que você acabe por conhecer um pouco mais sobre si mesmo.
Muito bom

Análise – Spintires: MudRunner

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Ex-colaborador da EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.