Eu costumo falar que não sou uma pessoa criativa. Muitos comentam: “Como não Lucas, você tem que pensar sobre o que escrever quase que diariamente!”. Concordo, mas isso diz respeito ao aspecto da escrita, e não do visual. Eu sou um desastre em pensar em ideias do que ou como desenhar. Foi com este receio que eu clique em “Scriptorium: Master of Manuscripts” (Steam). Como que diabos eu vou apreciar o novo projeto da Yaza Games se eu sequer consigo ter ideia de uma imagem legal? Felizmente, ele é muito mais intuitivo e amigável do que eu imaginava.
A equipe, que teve como seu primeiro título o jogo em turnos “Inkulinati” aproveita um dos seus melhores elementos – os visuais – para a criação de um jogo sobre ser escriva na idade média. Claro que com todo o humor que a colocou no meu radar.
Um dos maiores destaques para quem está começando ou que luta com criatividade, como é o meu caso, é a campanha para um jogador. Nela você vai aprender a misturar pigmentos a partir de flores, criar composições e atender as mais peculiares demandas. Demandas que muitas vezes vem de reis, rainhas e seus respectivos assistentes – todos muito exigentes acerca do que eles querem. Cada contrato requer um número específico de objetos obrigatórios. A partir daí, cabe a você decorar como bem preferir. Ao concluir, você recebe moedas que pode ser usada para comprar mais itens decorativos, rabiscos, desenhos, pigmentos ou uma caixa misteriosa do diabo.
Ficou confuso com a última frase? Pois é, no melhor estilo Yaza Games, “Scriptorium” te coloca em uma enrascada e bem no começo da trama faz com que você assine um contrato com o diabo, o que o torna um residente permanente de sua casa. Ironicamente, ele é o personagem mais útil de toda a campanha do jogo, sempre te oferecendo novos desenhos e te dando dicas úteis.

Não posso falar o mesmo sobre o restante da nobreza, que chega com pedidos absurdos e ocupa o meu ouvido com fofocas, brigas sem pé nem cabeça, e o desejo de mostrar uma rivalidade da maneira mais macabra possível por meio de desenhos.
Por mais asquerosos que sejam, foram as briguinhas sem sentido deles que me fizeram gostar tanto do modo campanha. A Yaza tem uma afinidade especial para criar humor das situações mais banais possível. Seja pela interjeição do diabo em meio a diálogos, seja por pedidos absurdos como “faça o meu rival da forma mais feia possível” e eu concluía o pedido o transformando em um coelhinho armado com uma espada. Claro que eu poderia ir muitíssimo mais a fundo, mas eu completava cada pedido da forma mais rápida e crua possível só para ver qual seria o próximo absurdo. E, chego a dizer que, se não fosse pelo estilo da Yaza, eu teria me entediado muito rápido com a campanha de “Scriptorium”.
Por mais que haja variedade nos pedidos e momentos engraçados, o dia a dia de um escrivão no mundo de “Scriptorium” é um tanto quanto pacato. A Yaza evitou ao máximo inserir mecânicas que pudessem deturpar ou atrapalhar a diversão de criar o seu próprio manuscrito.
Por consequência, o máximo que você vai fazer entre um manuscrito e outro é usar o dinheiro para decorar a sua casa e comprar novos desenhos. Não que eu gostaria de algo mais aprofundado como um sistema visto por Bladesong, mas um panorama geral da cidade, de como as brigas e as famílias nobres viam a cidade, algo como um conjunto de notícias diários (sei que jornais eram raridade na época) teria caído muito bem para tornar o universo do game mais vivo.

Pois, quanto mais eu jogava a campanha, mais eu sentia uma pequena sensação de isolamento. De que eu era um mero escrivão e que eu não tinha uma vida. Amarrado a uma cadeira e obrigado a desenhar pelo resto dos tempos. Como já disse em outras matérias, eu sou uma pessoa que se interessa muitíssimo por mecânicas complexas, e se o aspecto de gerenciamento financeiro de “Scriptorium” fosse um pouco mais elaborado ao invés apenas de gastar dinheiro com novas pinturas, eu me sentiria mais confortável. O já citado “Bladesong” mostra que há um bom meio termo, como pagar custos de manutenção para comprar mais pigmentos caso acabarem ou a casa onde mora.
Mas sejamos sinceros, eu sou o patinho fora d’água neste quesito. Acredito que a grande maioria das pessoas que pensam em jogar “Scriptorium” é para a criação de manuscritos, e para isso, o modo sandbox é quase perfeito.
Esqueça progressão, dinheiro ou pedidos absurdos. O papel em branco é o portal para a sua imaginação. Quer desenhar um casamento medieval? Vai em frente. Preferencialmente, coloque o demônio nos fundos atrás de moitas para dar umas boas risadas.
Eu não tenho como enfatizar o suficiente a quantidade absurda de elementos e itens que “Scriptorium” possui. Só de partes humanas (braços, pernas, torsos, cabeças) ele tem mais de 200 tipos, o número quase dobra se eu incluir partes de animais. Não ouso sequer comentar da quantidade de decorações. No entanto, só queria que o sistema fosse um pouquinho mais intuitivo e mais amigável de ser usado.

Embora o jogo ofereça vários desenhos de humanos em poses peculiares – o que, convenhamos, não é nada fora do comum do que vemos em pinturas de certas épocas da idade média – tentativas de criar algo mais rebuscado requer muita paciência e prática. Parte do problema está na forma como o jogo combina as diferentes partes humanas e suas roupas.
Superficialmente, montar um humano de peças tal como se ele fosse um lego é muito simples, e diria que até rápido para a maioria das pessoas. Até eu não tive muitas dificuldades de criar cenas básicas. Além do que, o jogo oferece um compêndio muitíssimo competente com exemplos de como criar cenas básicas.
Agora, se você for além disto, pode se preparar para ter uma ligeira dor de cabeça. Por motivos que eu não consigo entender, “Scriptorium” não oferece um sistema, por exemplo, para agrupar múltiplas peças e movê-las em conjunto. Ou seja, se você quiser mudar a posição de um personagem na sua pintura, tem que fazer de pouco em pouco. Um processo que não só leva tempo, mas é frustrante.
A mesma frustração que eu tenho com o sistema de “camadas” do modo pintura. Em nenhum ponto da interface o jogo mostra qual elemento está em qual camada e, ainda que seja fácil de identificar, uma guia ou até mesmo algo temático teria ajudado muito na hora de compor ilustrações complexas.

Tudo bem que eu não espero um Photoshop medieval, e criar essa expectativa de um jogo com uma equipe tão pequena como a Yaza Games seria um completo absurdo, mas eu acredito que há um meio termo que a equipe ainda pode encontrar pra fazer os ilustradores medievais de plantão mais contentes.
Eu não acredito que tais frustrações prejudiquem muito o conceito base de “Scriptorum: Master of Manuscripts”. Para uma equipe cuja única experiência prévia havia sido um jogo de estratégia, uma mudança radical de estilo poderia sinalizar desastre. Felizmente, não foi isso o que aconteceu.
Assim como disse em “Inkulinati”, a desenvolvedora é uma que merece muitíssimo mais atenção do público. Se não pelo seu projeto anterior, agora por “Scriptorum”. Mal posso esperar o que eles farão em seguida.
Scriptorium: Master of Manuscripts
Total - 8.5
8.5
Com uma campanha que evita repetição pelos seus contos e situações hilárias “Scriptorum: Master of Manuscripts” é um bom jogo de ilustração medieval enraizado no absurdo. Só faltou algumas ferramentas mais bem elaboradas para o modo sandbox.

