Sabe, eu não percebi que demorou uma década para a Nintendo lançar um novo “Rhythm Heaven”. Antes que isso soe bizarro, eu tenho noção do passar do tempo e dos anos, mas de 2012 para frente a minha rotina era começar um novo arquivo em “Rhythm Heaven” ou “Rhythm Heaven Fever”, pegar todas as medalhas e repetir isto quase que todo ano. A franquia de minigames rítmicos é o equivalente do meu “Doom” musical. Um título que, todo ano eu daria uma maneira de encaixar na minha rotina e jogar um pouco. O anúncio de “Rhythm Heaven Groove” (Nintendo Switch) me levou, obviamente, a loucura. Novos minigames, novos eventos, até mecânicas? O que a desenvolvedora havia preparado para essa sequência? Quando comecei a jogá-lo, a alegria foi um pouco embora, mas não pelo motivo que você imagina.
Para aqueles que nunca sequer encostaram em um título da franquia, e eu não me surpreenderia se isso significa boa parte das pessoas que não possuíram um Nintendo DS, 3DS ou um Wii. E, céus, o Wii já tem quase 20 anos, eu estou ficando velho. A premissa de “Rhythm Heaven Groove” é relativamente simples e direta. Uma coleção de minijogos focados no ritmo que testarão sua habilidade de acompanhar o ritmo da música.
Cada minigame tem as suas próprias “regras” por assim dizer. Alguns requerem que você siga indicadores visuais ou de áudio, o aperto de um ou no máximo dois botões no ritmo correto. Uma hora você vai ajudar siris a carregarem macarrones para uma toca, outra hora você vai apertar o botão “A” na hora certa para que uma mulher pegue os vegetais e frutas que são jogados para ela. Erre e um gato pula na tela para pegá-lo. Queria que os meus gostassem de brócolis e não de sorvete.

Se “Rhythm Heaven Groove” é tão parecido com os antecessores, por que então a ligeira decepção no começo? Porque eu sinto que a Nintendo escolheu alguns dos “piores” para representar o jogo para novatos. A lista inicial, ainda que visualmente bela, é uma que eu não me surpreenderia que deixasse muitos frustrados ou sem vontade de continuar a jogar dado a incrível dificuldade. Do uso de perspectiva até alternância entre botões, algo que a equipe de “Rhythm Heaven” tendia a guardar para minigames mais avançados.
Pegue “Rhythm Heaven Fever” por exemplo, o primeiro conjunto de minigames ensinavam o básico do sistema rítmico, de pressionar um botão em tempos bastante específicos, segurá-los por um período mais longo ou trabalhar com ritmos que alternavam.
O segundo minigame de “Rhythm Heaven Groove” já ensina a trabalhar com a alternância entre dois botões e ritmos. Não importa o quão carismático são os personagens – pequenas bolinhas com chapéus na cabeça que precisam abrir e fechá-los em um tempo específico – há uma declaração sendo feita com essa seleção: “Rhythm Heaven Groove” é um jogo de fãs para fãs, e se você não encostou na franquia até hoje, a curva de aprendizado vai ser relativamente alta.
Não é à toa que, similar aos outros jogos, praticamente todo minigame começa com uma introdução básica, exemplos e um período de treinamento até que você pegue o jeito. Cada minigame tem o seu exemplo em vídeo e a transição de volta para o jogo em si – ou ao menos a parte de treinar – é feita com tamanha naturalidade que nem parece que você parou para ver “outra pessoa” mostrando como pegar o ritmo correto. Quiçá o maior avanço em termos de melhorias pontuais que “Rhythm Heaven Groove” faz.

Todavia, não diminui a sensação de que uma reorganização dos minigames teria sido muito bem-vinda para quem não está acostumado com “Rhythm Heaven”. Eu mesmo quando cheguei na terceira lista de minigames já estava suando para acompanhar o ritmo, o que me leva ao ponto mais importante do jogo: mesmo que você seja um veterano da franquia, pode se preparar para sofrer para passar de alguns minigames.
Seja no “Fruit Flex”, onde você controla um fisiculturista que precisa flexionar os músculos no momento certo para fazer frutas quicarem pelo seu corpo ou em “Ribbit Rocket”, onde você tem que sincronizar o botão A com a música para jogar outros anfíbios para o céu. Se tem uma coisa que “Rhythm Heaven Groove” não perdeu é o seu senso de exagero, o que faz que até os minigames mais “barra pesada” garantam algumas gargalhadas.
Outro ponto que eu não posso deixar de mencionar é que a equipe conseguiu manter em grande parte a maioria das fases curtas o suficiente para me incentivar a jogá-las repetidamente ou continuamente até eu ganhar uma medalha. Algo que “Rhythm Heaven Fever” deslizou feio na reta final.
Claro que eu sou humano e tenho alguns minigames que marquei como “arqui-inimigos”, como o maldito “Hop n Slide”, a lua que não parava de espirrar em “Sneezy Moon” e a minha completa incapacidade de conseguir uma medalha em “Can Do”. Malditas sejam essas latas de alumínio! Eu também cometi o “gigantesco” erro de jogá-lo por longos períodos de tempo, o que fazia com que o meu ritmo fosse para a estratosfera. Nem mesmo o mais fácil dos minigames eu conseguia completar de tão cansado.

Mas o ápice de “Rhythm Heaven Groove” é, para mim, os remixes, onde a equipe pega todos os minigames de uma lista e os transforma em uma “gigantesca” música, colocando todos eles de forma não ordenada e testando os reflexos e seu senso de ritmo. É aqui que a equipe do game se superou muito mais do que eu sequer imaginava. Não consigo imaginar nenhum remix, nem mesmo o primeiro – da lista que gastei mais um parágrafo criticando – como mediano. Por mais que eu tenha nostalgia por alguns do Nintendo DS e do Wii, os de “Rhythm Heaven Groove” são um salto de qualidade.
Por outro lado, a equipe trabalha com algumas ideias que de início aparentavam ser bastante promissoras, mas acabaram que eu investi muito menos tempo nelas do que eu imaginava. O mais notável deles é o “Beatspell”, um novo modo solo para um jogador de “Rhythm Heaven Groove” que atua quase como um RPG tradicional em turnos, mas com mecânicas de ritmo onde cada magia requer que você aperte o conjunto dos botões “A” e “B” em uma sequência específica.
Acontece que, dado o quão longo é a narrativa – ainda que ela seja engraçadinha – e até as batalhas em si, “Beatspell” quase que entra como uma antítese de tudo que “Rhythm Heaven Groove” estabelece. Não só isso, mas há falta de “controle” sobre o que o inimigo pode ou não fazer.
É como se a equipe tivesse montado o esqueleto, e um bom esqueleto, mas não o completou a tempo para o lançamento de “Rhythm Heaven Groove”. Fico até aliviado em ver que ele é um modo secundário, e os minigames e seus remixes, continuam a ser a atração principal do game.

Outro “problema” – se é que posso chamá-lo disso – é a necessidade de calibração constante caso você alterne entre o modo docked e o modo handheld, seja no Switch 1 ou 2. Não sei se foi por conta de utilizar um monitor primariamente para jogar, mas “Rhythm Heaven Groove” requer que você refaça a calibração toda vez que perceber que “conectou” em um dispositivo novo. Seria muito bom se houvesse uma opção de criar parâmetros pré-definidos no menu de opções, ainda mais levando em conta toda a portabilidade do Switch.
Eu o levei para lá e para cá para jogar multiplayer – que por sinal seus minigames são tão bons quanto os do modo solo – e me senti exausto de ter que calibrar tudo na mão sempre. Acabou que o modo handheld foi onde eu completei a maioria dos jogos, uma pena pois acho muito mais confortável utilizar o controle Pro do Switch. E, bem, minhas mãos são grandes e os Joycons pequenos demais. Mas essa minha “briga” com o tamanho dos controles do Switch 1 e Switch 2 vem desde que a minha época de jogar “Breath of the Wild” a 30fps em 2017. E uma que não vai acabar tão cedo.
Mas quando é hora de colocar tudo na balança, “Rhythm Heaven Groove” é exatamente o que eu esperava de uma sequência para a franquia. Ele se concentra no que o destacou de outros jogos rítimicos desde a sua concepção, é repleto de personalidade e carisma, seus minigames são criativos, e as fases remixadas são o ápice da franquia. E olha que falo isso como um fã de longa data. Algumas ideias, como o já citado “Beatspell” podem não ter caído tão bem quanto eu gostaria, mas não deixe que isso te afaste do jogo.
É uma recomendação fácil para qualquer pessoa que possui um Switch ou Switch 2 e tem interesse em jogos rítmicos. Só, por favor, não me faça escolher qual é o meu minigame favorito da franquia ou qual jogo é o melhor de todos. As respostas para tais perguntas permanecerão um mistério quase que eterno.
Rhythm Heaven Groove
Total - 9
9
Embora eu veja os minigames iniciais de “Rhythm Heaven Groove” um pouco mais difíceis do que deveriam para uma franquia que ficou tantos anos sem dar as caras, o pacote completo mostra o porquê de ele ainda ser referência. É repleto de humor, carisma e desafio. Nem todas as peças se encaixam e a tecnologia moderna faz com que latência seja um problema maior do que deveria, mas quando você está no ritmo e ganha aquela medalha de ouro ou um “Perfect”, nada importa. Bem-vindo de volta “Rhythm Heaven”, eu senti muita falta de você.

