Antes mesmo de eu pensar em adentrar o mercado “jornalístico” de jogos, se é que posso chamar o que faço atualmente no Hu3BR disso, eu já tive os mais variados tipos de trabalho. Suporte técnico, auxiliar em uma escola e, por um brevíssimo período, atendimento de um restaurante. Alternava entre receber as pessoas na porta e administrar o caixa. Não era o melhor trabalho do mundo – muitas vezes entediante e rotineiro. Por outro lado, eu nunca precisei lidar com a possibilidade de um dos clientes ser um zumbi – bem o contrário do que eu presenciei nas minhas horas de jogo de “Quarantine Zone: The Last Check” (Steam).
Sem perder muito tempo em estabelecer uma história, o projeto da Brigada Games te coloca na pele do seu típico soldado / recruta encarregado da tarefa mais “monótona” possível. Uma cidade foi assolada por uma epidemia zumbi e você tem que garantir que aqueles que querem sair da cidade não estejam infectados.
Se você jogou “Papers Please”, “Contraband Police” ou similares, já sabe mais ou menos o que esperar de “Quarantine Zone: The Last Check”. Todo dia começa com uma fila de pessoas ansiosas para saírem da cidade, e é você quem decide quem deve ser levado para a área de espera, ficar em quarentena, ou ser executado.
Não é um trabalho agradável, e eu diria que na maioria do tempo propositalmente monótono. Um novo sobrevivente chegava, eu olhava para o meu tablet, inspecionava a pessoa por possíveis sinais de infecção, a enviava para a quarentena ou execução.

À medida que os dias progridem, o trabalho de ficar na frente de um posto de controle só piora. Os sintomas de infecção variam entre óbvios, como mordidas, até mais sutis como erupções cutâneas ou olhos amarelados.
Cada sintoma é definido por níveis: verde, amarelo e vermelho. Verde significa que está tudo bem e que você não precisa se preocupar. Amarelo significa cautela, ou seja, hora de colocar a pessoa em quarentena e ver como seus sintomas mudam com o tempo. Vermelho significa que a pessoa ou está prestes a se tornar um zumbi, ou já se tornou e você ainda não percebeu. Pessoas no vermelho vão para a sala de execução quase que imediatamente.
Quando visivelmente infectada, era execução sem pensar duas vezes. A primeira vez que eu ouvi os tiros de fuzil ecoarem, tomei um susto. Depois? Virou barulho de fundo. Parte do trabalho, “necessário”.
Ainda que não tenha sido o intuito da Brigada Games, “Quarantine Zone: The Last Check” traz uma certa sensação de opressão que me deixa muito desconfortável. As decisões que o meu personagem precisa tomar são muito impactantes e praticamente “impossíveis” de colocar a responsabilidade nas costas de uma pessoa só. Mas o mundo no qual o jogo se passa não importa com essas questões morais, apenas em impedir que a epidemia se espalhe.

Conforme você avança nos dias, o jogo vai lentamente ficando mais “complexo”. Agora as pessoas não exibem só sintomas sutis, mas a temperatura e ritmo cardíaco precisam ser levados em conta. O reflexo das pessoas muda, você recebe um aparelho para identificar mordidas ou sintomas que possam estar por baixo das roupas, e até um raio X para pessoas que possam tentar passar com contrabando — de facas, fuzis, até partes de corpos infecatos.
Pode parecer “pouco” quando descrevo, mas é o suficiente para que “Quarantine Zone: The Last Check” sempre te deixe com a pulga atrás da orelha, ou ligeiramente ansioso e preocupado. Eu terminava uma jornada de trabalho e pensava: “qual vai ser a próxima dor de cabeça que eu vou ter que enfrentar?”. E lá estava um sintoma novo, uma ferramenta nova, ou a tomada de decisão.
Por exemplo, a cada cinco dias você deve enviar um contingente de sobreviventes para um dos dois campos: laboratórios de pesquisa ou para uma área militar. Caso envie para os laboratórios, você ganha pontos para obter melhorias para as suas ferramentas. Já os militares te recompensam com dinheiro – usado para melhorar e expandir a base, comprar mantimentos e combustível para mantê-la em funcionamento.
Outra vez a sensação desagradável veio: “Eu não deveria estar tomando essas decisões, eu não sou pago o suficiente para isso, eu não tenho o contexto necessário para dizer quem vai para qual lugar”. Imagine então quando eu terminei o meu turno de trabalho e descobri que, sem querer, deixei alguém infectado passar e essa pessoa matou outros quatro sobreviventes.

Em dado momento coloquei duas pessoas em quarentena presumindo que seus sintomas eram apenas de doença. Acordo, entro na área de quarentena, e vejo um zumbi se alimentando dos corpos da outra pessoa. Ela estava infectada também? Será que havia tempo para salvá-la? Será que era apenas uma doença que ia desaparecer com os dias, e eu devia tê-la deixado passar direto?
As semanas passam em “Quarantine Zone: The Last Check” e a tensão aumenta. Vi pessoas desesperadas para sair da cidade e tive que atirar nelas, investi em um laboratório de pesquisa para encontrar novos sintomas – cada um mais ambíguo do que o outro. As inspeções demoravam mais tempo, eu precisava redobrar a minha atenção, e a fila de pessoas que aguardavam uma “salvação” era cada vez mais longa. Mal sabiam elas que muitas vezes a “salvação” viria de uma bala disparada por um fuzil.
Eu queria muito que a Brigada Games tivesse apostado um pouco mais na sensação de desespero e ambiguidade para a campanha do game. Há até uma tentativa de “humanizar” as pessoas, como uma breve descrição sobre o interesse delas, mas você não interage com elas além do posto de inspeção.
Se algo, a desenvolvedora vai para o caminho contrário — ainda mais no que tange as missões secundárias que aparecem de tempos em tempos, em uma tentativa de tornar o jogo mais “diversificado” em termos de jogabilidade. Em dado dia eu fui obrigado a caçar ratos e, literalmente, matá-los com o mesmo martelo que uso para testar os reflexos das pessoas.

Há até uma missão bizarra na qual fui encarregado de encontrar quem foi o culpado de escrever poemas na área de sobreviventes e eliminá-lo. São tomadas de decisões não só absurdas, mas também que destoam um tanto do tom do restante do jogo. Como se a desenvolvedora falasse: “Calma lá, ao menos temos essa situação para quebrar o gelo!”. Desculpe, mas eu não ri de nenhuma delas.
Digo o mesmo para as seções onde zumbis tentam atacar o posto e você toma o controle de um drone e precisa eliminá-los no melhor estilo “tower defense” em primeira pessoa. A primeira vez que o jogo me colocou nessa posição eu exclamei “Pera aí, eu ainda estou jogando Quarantine Zone?” de tão destoante.
Sei que muitos não vão compartilhar da minha opinião em relação a “Quarantine Zone: The Last Check”, mas eu realmente teria preferido que ele tomasse uma posição “tudo é horrível e você vai ter que viver com as consequências dos seus atos”. A ambientação é “perfeita” para isso.
Chame-me de masoquista, mas eu adoro quando jogos me colocam em uma posição de impotência. De ver que eu não posso fazer nada para melhorar as condições de algo, alguém ou algum lugar. Uma cidade tomada por zumbis então? Um prato cheio para eu sentir desespero e agonia.

Por que não quebrar então a “monotonia” com mais interação ou pequenos contos dos sobreviventes? Me vem à mente as histórias de “This War of Mine”, ou do mais recente “Into the Dead: Our Darkest Days”. Até mesmo um pouco mais de “personalidade” para os sobreviventes — como feito em “State of Decay 2” — e eu já me daria por satisfeito.
Eu sei muito bem que, no fim das contas, o meu personagem está lá para “seguir ordens”, mas essas ordens seriam muito mais difíceis de serem seguidas quando há um elemento de empatia ao invés da apatia criada pelo processo monótono de inspeção.
Mesmo com as “oportunidades perdidas” que eu vejo, “Quarantine Zone: The Last Check” foi uma tremenda surpresa para o começo de 2026. Eu não imaginava começar o ano escrevendo uma crítica de um jogo que me deixou tão tenso e me fez tomar decisões de embrulhar o estômago — e só mostra o quanto a Brigada Games acertou em cheio na ambientação. É raro ver um jogo abraçar propositalmente a monotonia e, em boa parte do tempo, acertar o “tom” e a cadência, e “Quarantine Zone: The Last Check” é merecedor de louros neste quesito.
Com um modo “infinito” e um futuro que me aparenta ser promissor, estou curiosíssimo para ver o que o restante do ano aguarda, não só para o game, mas para a desenvolvedora no geral.
Pegue as suas ferramentas de inspeção, e vá fazer o seu trabalho. Te garanto uma coisa: ele não vai ser agradável. Tente não ficar com o estômago embrulhado no fim de uma longa jornada de inspeção, e aprenda a “ignorar” os barulhos de tiro — incluindo os que você causar.
Quarantine Zone: The Last Check
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“Quarantine Zone: The Last Check” abraça propositalmente a monotonia e a tensão de ter que tomar decisões que pouquíssimas vezes são agradáveis. Banhado em uma ambientação opressora, o jogo só não brilha mais pela contínua tentativa da Brigada Games de trazer uma certa “leveza” com objetivos secundários “engraçadinhos” e seções de “defesa” que cansam. Ainda assim, merece a sua atenção – ainda mais se você tem o menor interesse na temática zumbi.

