Análise – Perception

Quando um Kickstarter com veteranos da indústria é realizado, nossas expectativas ficam lá em cima. Infelizmente, Perception, disponível no PC e em breve para Xbox One e PlayStation 4, não condiz com elas.

Perception conta a história de Cassie, uma mulher cega que, após descobrir que uma mansão que a atormentava em pesadelos é real, decide desvendar a história por trás de seus antigos moradores.

Cassie é uma personagem interessante. Com uma excelente dubladora, ela tem bastante personalidade, e até humor, mesmo no ambiente “assustador” de Perception.  Os personagens secundários, especificamente os fantasmas, também são excelentes, e passam muito bem o sofrimento das histórias que os apresentam.

Um dos capítulos conta a história de uma das antigas moradoras da mansão e sua obsessão em ver seu marido, que foi chamado para a guerra, mais uma vez. Chega ao ponto de tentar incessantemente ser recrutada pelo exército. Intencionalmente ou não, o capítulo oferece interessantes discussões sobre gêneros e quais seus papéis em um período de guerra.

Infelizmente Cassie, junta da história em geral, são as únicas coisas realmente polidas do jogo. Dado ao fato de ser cega, o jogador deve usar da bengala ou os seus passos para se eco localizar, tal qual um morcego ou o Demolidor. Inicialmente uma mecânica promissora, ela se torna cansativa, vira um empecilho, e possivelmente uma ótima maneira de acabar com lesão por esforço repetitivo (L.E.R).

Perception te desmotiva a usá-la, e ainda assim encontra formas de falhar nessa tarefa. Durante o início do jogo, tomamos conhecimento da “Presença”, entidade que aterrorizou moradores antigos da mansão, e que agora persegue Cassie. Por ser atraída através de ondas sonoras, o jogo constantemente lembra ao jogador do problema de usar demais a bengala.

O que poderia ser ao menos um jogo de manejar sua progressão e percepção com se esconder da presença, se revela como algo completamente inócuo. Durante os cinco capítulos apresentados, só fui pego pela presença uma vez ao me encontrar em uma sala sem esconderijos e por ter exagerado no uso da bengala num curto espaço de tempo. Para realmente precisar se esconder, o jogador tem que querer realmente atrair a presença.

Perception

Mesmo com o grande ambiente da mansão, Perception é terrivelmente linear. O jogo sempre segura sua mão, e a eco localização é uma faca de dois gumes. É uma maneira nova de perceber o mundo, mas também o torna, de um ponto de vista de jogabilidade, desinteressante. Você não vai se lembrar muito dos ambientes. No máximo, da cor azul deles ao receber ondas sonoras.

O fato de que sua visão do ambiente é momentânea, e se trata somente de uma casa, desmotiva o jogador a realmente lembrar de algo. Nem mesmo as modificações que a casa passa em alguns capítulos, como virar uma zona de guerra, conseguem se tornar memoráveis, e viram somente pano de fundo.

Perception nem ao mesmo usa a mecânica de “visão temporária” como uma ferramenta que faz o jogador se sentir na pele de Cassie. Nada que você faz naquela mansão reforça de verdade a escolha de cegueira como modo de perceber aquele ambiente. Isso é ainda mais nítido em um ponto onde Cassie passa mal no primeiro capítulo e sua “visão” fica borrada. O que, convenhamos, não faz o menor sentido.

O jogo até tenta adicionar mais mecânicas como o tradutor de imagem para voz Delphi ou o uso de uma rede social de pessoas com visão que ajudam cegos a saber o que determinada foto contem, mas ambas caem num marasmo similar ao da mecânica principal.

O problema fica mais aparente ainda na “rede social”, onde personagens têm mudanças de atitudes repentinas sem justificativa e minutos depois agem como se nada aconteceu.

Perception parece um quadro onde foi jogada a ideia de uma personagem cega, mas nada após isso colou, e foi necessário uso de fita crepe, que mesmo assim não consegue segurar. Já vimos colchas de retalhos nessa indústria, mas nada tão incoerente como Perception.

Com algum polimento e enxugamento, Perception conseguiria ser facilmente um adventure competente. Conceitualmente, o modo de perceber esse mundo é interessante, e a história é bem executada. Entretanto, a impressão passada é uma desconfiança em sua ambição e tentativas constantes de prender o jogador com algo que não seja a história, faz exatamente o contrário. Desvaloriza todo o resto da experiência.

Perception

Total - 4

4

Uma boa ideia e uma história interessante não sustentam Perception pois não há coesão entre suas partes ou uma jogabilidade que consiga justifica-las. O verdadeiro terror é o tamanho do potencial desperdiçado.

Análise – Perception

About The Author
- Formado em jornalismo, joga games desde criança, e sempre quis trabalhar com jogos. Gosta de diversos generos, menos de simulação e mobas em geral. Sua série preferida é Metal Gear Solid.