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Análise – Mina the Hollower

Lucas Moura por Lucas Moura
29 de maio de 2026
em Análises, Slider
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“Mas meu deus do céu, não tem uma coisa que essa rata saiba fazer direito?!”. Esta não era a frase com a qual eu imaginava começar a minha crítica de “Mina the Hollower” (Steam / PlayStation 5 / Xbox Series S/X, Nintendo Switch 1/2). Mas eu e o mais novo jogo da Yacht Club Games não nos demos muito bem de início. Diria até que, se não fosse pela minha teimosia, eu teria largado nas primeiras horas de jogo.

Antes que vocês me apedrejem, preciso contextualizar o meu conhecimento prévio do projeto antes de começar a jogá-lo. A minha única interação com ele foi durante Kickstarter em 2022, quando olhei e pensei “Ah, que legal, a Yacht Club Games está criando o seu próprio Zelda!”. Em partes, chamar “Mina the Hollower” do “Zelda da Yacht Club Games” não é uma descrição errada, mas também é incrivelmente redutiva.

Ambos os jogos compartilham de uma visão “top down”, transição entre cenas, e – no caso de “Mina the Hollower” – uma vaga ideia de “dungeons”. As semelhanças, no entanto, param por aqui.

As horas iniciais de jogo mais pareciam que eu tinha saído de um estado de hibernação e fui colocado em um mundo no qual eu não tinha a menor ideia do que fazer. “Que? Hã? Para onde eu tenho que ir?”. Era também a mesma sensação que Mina experimentava, já que o navio que a transportava para a ilha de Tenebrosa foi atacado por um Kraken e naufragou.

De cara, a Yacht Club Games estabelece uma regra relativamente rígida: “Não vamos segurar a sua mão — ao menos não da forma tradicional. Você que aprenda a como decodificá-lo e encontrar o seu caminho”.

Mina the Hollower
A viagem de Mina para a ilha de Tenebrosa não começa da forma mais amigável.

Bom, ao menos eu sabia qual era o objetivo da ratinha: restaurar os geradores de energia da ilha, destruídos por Thorne, um dos aliados mais próximos do barão Lionel — que, por motivos que se tornam aparentes posteriormente, se rebelou contra ele e agora coloca toda a região em risco. O que ela não contava era chegar na região e vê-la tomada por goblins, esqueletos e os mais diferentes tipos de monstros. Opa, quero dizer, alguns deles são monstros, outros são apenas habitantes da capital, Ossex.

A ilha de Tenebrosa e o universo que a Yacht Club Games criou para “Mina the Hollower” é fascinante. Uma hora você vai ver crianças brincando de chutar latas, em outro momento você é furtada de todos os seus ossos – moeda de compra e venda usada pela ilha. Se você conseguir pegar o ladrão a tempo e atacá-lo, ele vai se transformar em uma bola gosmenta de carne que resmunga, “Mas eu só preciso de alguns ossos a mais para me recompor por completo. Essa não é a primeira vez que a desenvolvedora alterna entre o humor e o macabro, mas diria que é a empreitada mais bem-sucedida dela.

Passei muito mais tempo conversando com os moradores de Ossex — todos muito bem escritos e recheados de anedotas ou falas interessantes — antes de partir para a minha próxima jornada, mas por um motivo mais incomum do que mera curiosidade. Eu estava apavorado do que me esperava nas próximas regiões de Tenebrosa.

Ainda que “Mina the Hollower” não seja um “souls-like” – ele está bem longe disto –, a Yacht Club Games não hesita em aumentar a dificuldade e, mais uma vez, fala para você “Se vira”. Fui emboscado por três ratos, membros de uma rebelião, assim que pus o pé fora de Ossex, de tal forma que até pensei que a altura de Mina diminuiu uns 10cm de tanta paulada. “O-Ok, eu não vou mais por este caminho, entendi”. O problema? Era o único caminho que eu conhecia e tinha como avançar, ou ao menos tentar.

Sei que apontei alguns parágrafos acima que “Mina the Hollower” não segura a sua mão, mas até você chegar na primeira “dungeon”, o jogo é relativamente linear. Mina é muito fraca no começo, e a morte vai acabar sendo uma das suas maiores companheiras. E, já adianto, ela dói, viu?

Mina the Hollower
Os abitantes de Ossex às vezes são…peculiares.

Quem é calejado de “Shovel Knight” não vai ficar surpreso com o alto grau de dificuldade nas áreas iniciais, mas o sistema de vida de “Mina the Hollower” é um híbrido entre o que a desenvolvedora criou para seu título anterior com toques de “Bloodborne”. Em suma, você tem uma “spark” – o que equivale a uma vida. Ao perdê-la, precisa voltar ao local onde morreu para recuperá-la. Às vezes um inimigo pode absorvido sua spark, e para reavê-la você vai precisar eliminá-lo. Caso morra por uma segunda vez, você perde todos os seus ossos.

Agora você me imagina tentando chegar na primeira dungeon e morrendo repetidamente. Eu soltei um “Meus ossinhos, não….” tão triste que até vieram me perguntar se alguma coisa séria aconteceu. Eu respondi: “Perdi meus ossinhos…”, a pessoa ficou confusa e achou melhor não levar a conversa adiante. Não a culpo, eu faria o mesmo.

Mas foi nesta parte que eu comecei a perder a paciência. Quatro horas de jogo e ainda morrendo para um inimigo que, em qualquer outro jogo, seria fichinha de despachar. “Mas meu deus do céu, não tem uma coisa que essa rata saiba fazer direito?!”, disse quase me preparando para fechar o jogo e não olhar mais para ele.

A minha teimosia me impediu, me disse “Lucas, calma lá, você vai ser derrotado por um mero inimigo? O que você está fazendo de errado? Você já tentou decorar o padrão de ataque deles? Já observou o mapa? Já tentou procurar uma rota alternativa?”.

Mina the Hollower
Mas eu prefiro lidar com eles do que os monstros espalhados por Tenebrosa

A minha teimosia nem sempre se torna a voz da razão, mas desta vez, ela estava certa. Eu estava jogando “Mina the Hollower” afobado, querendo chegar no meu destino o mais rápido possível sem pensar nas consequências. Levantei, respirei fundo, e comecei a prestar mais atenção em cada área do mapa que eu já tinha explorado. Foi como se um novo mundo tivesse se aberto para mim.

Se há um elemento que distancia “Mina the Hollower” de qualquer comparação com a franquia Zelda, é a estrutura de seu mundo e de cada área que você pode explorar.

A Yacht Club Games conseguiu um feito incrível de não só criar mapas belíssimos visualmente, mas também densos em detalhes e repletos de segredos que aparecem como pedras preciosas para aqueles que tiverem um olhar aguçado. Eles mais parecem áreas de um jogo de plataforma – algo com que a desenvolvedora já tem muita experiência – vistas de uma visão “top down” ao invés dos modelos mais “tradicionais” que se vê em tantas homenagens ou jogos inspirados pela franquia da Nintendo.

Um conceito que se estende muito para as próprias “dungeons”, um termo que uso com cautela, pois descrever uma zona de “Mina the Hollower” como dungeon é tão redutivo quanto chamá-lo do “Zelda da Yacht Club Games”.  Você não é simplesmente “transportado” para uma área onde residem apenas inimigos. Cada “dungeon” é uma área que você avança com “naturalidade” — elas são uma extensão da ilha de Tenebrosa e não um local “demarcado” no mapa — você tromba com NPCs, é pego de surpresa por personagens que apareceram no começo da história e, obviamente, encontra alguns “quebra-cabeças” e quests secundárias.

O que eleva o design delas para mim é a forma como a Yacht Club desenvolveu tais quebra-cabeças. Não espere o estilo tradicional, mas sim se perguntar “Como eu chego até lá?”, ou “Como sobrevivo a isso”? Chaves nunca são usadas fora de extras. No máximo você vai encontrar um chefão opcional por trás de uma área bloqueada. Um daqueles que vai fazer você suar a camisa, testar a sua destreza em controlar Mina, e usar todo o arsenal que tem à disposição.

Embora traga mecânicas para evoluir os atributos, o que faz o diferencial em “Mina the Hollower” é a sua habilidade.

E, não há como falar sobre “Mina the Hollower” sem mencionar o quão vasto é o arsenal da ratinha. A curva de aprendizado é um pouco alta se você quiser se tornar um mestre na movimentação e combate, mas eu te garanto que cada segundo treinando pulos, armas primárias e secundárias – que aliás, vêm aos montes e das mais variadas e inusitadas formas — é gratificante.

A minha habilidade favorita é o “Hollowing”, onde Mina cava seu próprio túnel, acelera e sai dele com um salto enorme. Além de ser uma ótima ferramenta para navegar pelo mapa, ela tem dezenas de usos secundários – de coletar pedras, bombas, pegar inimigos desprevenidos, ou solucionar “desafios de plataforma”. Quanto mais a usava, mais pegava o jeito e percebia a quantidade de vezes que a Yacht Club Games mostrou elementos e atalhos em potencial que eu não percebi por não conhecer todas as “regras” que regem o mundo de “Mina the Hollower”.

É assustador o quanto a ilha de Tenebrosa é interconectada, uma proeza e tanta para um jogo tão repleto de áreas distintas que o coloco facilmente ao lado dos gigantes como “Metroid” e “Dark Souls” sem pestanejar. Sei que é difícil imaginar, mas acredite, até me faltam palavras para descrever o quanto fiquei impressionado com o quão entrelaçados são os mapas criados pela Yacht Club. Evito spoilers ao máximo, mas esse talvez tenha sido o jogo de 2026 onde eu mais falei “Que?!” e arregalei os olhos com uma descoberta.

Em dado momento do jogo eu precisava chegar em uma nova área, mas estava impedido por rios de lava. “Ah ótimo, lá vou ter que achar algum item que os faça congelar”. Parei por alguns segundos e pensei: “Mas, e se eu cavar por debaixo da lava?”. Funcionou e eu me senti um gênio. Uma sensação que só aumentou ao encontrar áreas “secretas”, atalhos que estavam na minha cara, ou até áreas em que eu poderia ter entrado muito mais cedo se já tivesse aprendido as mecânicas de movimentação.

E a capacidade de não se desesperar em situações como a da imagem acima

Pouco tempo depois de avançar da parte que mencionei no parágrafo acima é que eu comecei a me entender melhor com o combate de “Mina the Hollower”. Aprendi truques como criar “combos” como cavar, pular e imediatamente atacar em seguida, explorei com mais atenção o arsenal secundário e vi que o combate do jogo é nada mais, nada menos do que sublime.

Há uma sensação “gostosa” de desespero quando você entra em uma nova área, encontra um novo inimigo e tem que fazer tudo “às pressas”, meio que de improviso para conseguir não tomar dano ou não ser abraçado pela morte pela milésima vez. Um caos “coordenado”, que demonstra por meio das mecânicas a jornada de uma ratinha que está determinada a fazer o que é “certo” para Tenebrosa, mas que às vezes se sente um tanto quanto sobrecarregada de tantos desafios.

Foi com essa nova “habilidade” que retornei a áreas anteriores, encontrei segredos, expandi o meu arsenal de armamentos, comecei a morrer cada vez menos —parte por ter conseguido itens que melhoram a defesa de Mina, parte por ter aprendido a lidar com os ataques de certos inimigos.

Em meio a este caos coordenado, exploração deliciosa e personagens cativantes, vi horas se transformarem em minutos, o dia mudou para a noite e o único indicativo que tive foi o quanto estava apertando os meus olhos. Sei que a frase soa clichê, mas hoje em dia cada vez menos jogos me fazem “abstrair” o mundo ao meu redor.

Quando não “pulava” de felicidade ao encontrar um trinket que, talvez, abrisse um novo atalho, ficava ansioso de um jeito positivo para ver qual seria o próximo chefão a enfrentar – outra área em que a Yacht Club Games se sobressaiu, com chefões inusitados e tão memoráveis quanto o restante do jogo – ou algum item que aumentasse os meus pontos de vida.

E quando estiver cansado, vá para o seu “esconderijo” e tome um banho relaxante. Vocês não tem ideia do quanto eu deixei Mina nessa área enquanto recuperava o meu fôlego após um chefão difícil.

Ao reler os parágrafos que escrevi acima, noto o quão raro é para mim um jogo de fato passar a sensação de que você está em uma jornada. Talvez seja pelo meu estilo metódico — afinal, são anos “otimizando” as minhas táticas em jogos de estratégia, que continuam a ser o meu gênero favorito — ou por nem sempre me conectar tão bem com os personagens quanto outras pessoas. “Mina the Hollower” acaba por virar uma gigantesca exceção na minha biblioteca de jogos. Quanto mais eu explorava Tenebrosa, mais eu me sentia confiante nas minhas habilidades. A cada gerador consertado, chefão derrotado, Mina parecia demonstrar o mesmo.

Eu poderia ficar aqui banhando “Mina the Hollower” em elogios por pelo menos mais cinco parágrafos, contando anedotas, situações que eu sequer imaginava que acontecessem, como eu sofri com um chefão específico e, ao derrotá-lo, relaxei os meus ombros.

O mais importante é que esses elogios não vêm sob uma lente de “nostalgia”. Eu tenho pouquíssima nostalgia com a franquia Zelda e outros jogos que inspiraram a Yacht Club Games. Cresci com PCs, RPGs de PC, shooters, jogos de corrida, estratégia e simuladores. Foi só na idade adulta que eu comecei a adentrar mais o universo dos jogos de plataforma – tanto que eu sofro, e muito, ainda com o gênero.

Os louros vão todos para a Yacht Club Games, que criou o que eu considero não só um dos melhores jogos de 2026, mas um novo clássico. Um que eu me vejo voltando no futuro para jogar o modo “New Game +”, seja para encontrar os segredos que eu deixei passar ou para me desafiar.

Parabéns, Mina, você conquistou o meu coração.

Mina the Hollower

Total - 10

10

Usar adjetivos como “ótimo” ou “excelente” não são o suficiente para descrever “Mina the Hollower”. O título da Yacht Club Games é uma jóia raríssima. A intersecção de mecânicas, conceitos, ideias que foram polidas até brilhar de cegar. Recheado de personagens cativantes, áreas fascinantes, e um combate brutal, mas recompensador, ele te motiva a explorar, conhecer a ilha de Tenebrosa, enfrentar os seus medos e vencê-los. Já chega como um dos melhores jogos de 2026, e um que eu não vou esquecer tão cedo.

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Tags: açãoanálisecríticaexploraçãoMina the Hollowerrpg
Lucas Moura

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Após trabalhar em revistas e sites como EGW e BABOO, Lucas fundou o Hu3BR pela sua paixão em jogos de estratégia, indies e a interconexão entre sistemas e emoções humanas.

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