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Análise – Helix: Descent N Ascent

Lucas Moura por Lucas Moura
2 de agosto de 2026
em Uncategorized
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O estilo em preto e branco é algo que traz lembranças antigas, especialmente para aqueles que cresceram com monitores 1-bit, uma época que não peguei, mas revivo ultimamente graças a títulos do PlayDate, RPGMaker e mais recentemente, “Helix Descent N Ascent” (Steam). Entretanto, o preto e branco do adventure da Badass Mongoose não é um de nostalgia. É um de dualidade, de escolhas e das diferentes facetas que nos separam. Mas pera, eu estou me apressando demais.

Você acorda em um espaço escuro e isolado, sem um rumo definido, e acaba encontrando uma figura que é quase um espelho perfeito de você mesmo. Esse encontro dá início a uma jornada centrada na descoberta e na reflexão, na qual cada nova habilidade amplia um pouco mais o mundo à sua volta. Helix combina sua narrativa minimalista com uma identidade visual ousada para criar algo que transmite uma sensação de mistério e intimidade.

Sem narração e sem palavras na tela, o jogo comunica tudo por símbolos. Cabe ao jogador observá-los, entendê-los e usá-los para avançar pelos níveis. Há um significado mais profundo por trás disso? Talvez. Confesso que não consegui decifrá-lo por completo, mas essa ambiguidade parece fazer parte da experiência. Pode soar clichê, mas jogos como esse não precisam de uma narrativa elaborada para funcionar. A falta de explicações diretas torna tudo ainda mais marcante.

Descent N Ascent

Em termos de mecânicas, “Helix” vai no caminho da simplicidade. Você explora uma série de salas isométricas, cada uma funcionando como um espaço independente. A câmera nunca se move, e ao sair pela borda de uma sala, você passa para a próxima. Isso cria um fluxo constante, quase no estilo de um jogo de tabuleiro.

Seu objetivo em cada sala olhar ao redor, interagir com o que encontrar e descobrir como abrir o caminho para seguir em frente. Os quebra-cabeças iniciais são fáceis, mas os posteriores exigem mais reflexão. Alguns me deixaram perplexo por um tempo — daqueles em que você volta às salas anteriores, explora um pouco mais e, por fim, percebe o detalhe que havia deixado passar. Isso nunca se torna frustrante, mas recompensa a paciência e a curiosidade.

À medida que você avança, Helix apresenta novas habilidades que mantêm a resolução de quebra-cabeças sempre nova. Às vezes, você ganha o poder de criar cubos e colocá-los em placas de pressão. Mais tarde, você pode trocar essa habilidade por um gancho que permite acionar interruptores distantes ou pular sobre aberturas.

Descent N Ascent

Uma das minhas favoritas é uma pequena criatura parecida com um pássaro que você lança como um minúsculo drone. Você pode guiá-la pela sala, mas ela funciona com um cronômetro que vai diminuindo à medida que se move e, quando chega a zero, ela explode. É uma ferramenta inteligente que incentiva o raciocínio rápido e o planejamento cuidadoso. Eventualmente, o jogo começa a combinar essas habilidades, pedindo que você use cubos, ganchos, drones e o tempo de forma integrada para resolver desafios mais complexos.

Mas o que mais me impressiona nessas combinações é que, para novatos no gênero, isso poderia muito bem ser extremamente desorientador. A Badass Mongoose evita isso com um dos sistemas de mapa mais bem elaborados e claros que já vi em um adventure recente. Cada área tem seu próprio mapa consultável, repleto de ícones que correspondem aos símbolos das combinações exigidas por cada porta ou passagem bloqueada: uma lista de verificação visual do que ainda precisa ser desbloqueado e com qual par (ou trio) de habilidades.

Verificar o mapa antes de entrar em uma área, identificar quais símbolos ainda faltam e retornar com a combinação certa assim que você a tiver aprendido torna-se um pequeno ritual de progressão, e é um dos elementos que torna o complecionismo — mesmo aquele com três habilidades, o mais desafiador — sustentável sem depender de um guia externo.

Isso para mim é um triunfo da desenvolvedora que não posso descrever em meros parágrafos. Já vi dezenas de “puzzle games” que tinham tudo para dar certo, mas acabavam deslizando na hora de guiar o jogador, ou colocavam puzzles obscuros demais só para fazer com que ele “pertencesse” a categoria de quebra-cabeças, quase como marcar uma caixa em uma checklist.

Outro ponto que não pode ser ignorado é a própria narrativa em si. Como apontei antes, “Helix: Descent N Ascent” não utiliza nenhum tipo de dublagem e na maioria do tempo deixa algumas coisas em “aberto”. Será que a figura é realmente o equivalente do seu reflexo? Da sua culpa? De alguém que você poderia ter sido em outra vida ou uma decisão que podia ter mudado o rumo da sua jornada?

Tentando evitar de entrar no território de spoilers, eu digo com tranquilidade que as reviravoltas de “Helix: Descent N Ascent”, mesmo silenciosas, me deixaram boquiaberto. Quebra-cabeças eram solucionados e davam espaço para uma nova visão sobre um elemento que vi horas atrás. Às vezes até sobre um momento que eu presenciei nos primeiros minutos de jogo.

E, depois de dezenas de horas de jogo, a decisão minimalista não deixou a desejar nenhuma vez. “Helix: Descent N Ascent” é um daqueles raros casos em que a promessa inicial não apenas se mantém, mas se aprofunda à medida que o jogo avança: a combinatória de habilidades continua produzindo novas soluções muito além do ponto em que, em outras aventuras de quebra-cabeças, a fórmula começa a se repetir; a arte em preto e branco alcança um impacto visual ao mesmo tempo expressivo e legível; a trilha sonora de Jim Guthrie acompanha cada área com o mesmo poder de criar um território suspenso já evidente na demo, sem nunca cair na monotonia.

O jogo base termina com total satisfação, e quem parar por aí leva para casa uma experiência completa, com um arco narrativo que – por mais que dependa quase inteiramente de imagens – ainda assim chega à sua própria conclusão. O recurso narrativo de Helix, por mais minimalista que seja na forma, revela-se completo na essência e cumpre exatamente o propósito que o jogo deseja.

Mas o ato de terminar o jogo base é só o começo. Ainda há muito o que explorar em “Helix: Ascent N Descent”, muito do que ponderar, muito a solucionar. Às vezes o reflexo que você pensa que vê nem sempre equivale mesmo a dualidade.

Em uma era onde cada vez mais jogos de quebra cabeça apostam no “seguro demais” – e até digo que a Badass Mongoose não necessariamente foge disso dado a sua estrutura, ela se sobressai, e muito, na narrativa silenciosa. É uma daquelas joias raríssimas que merece muito mais atenção por qualquer fã de quebra-cabeça ou narrativa silenciosa.

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Lucas Moura

Lucas Moura

Após trabalhar em revistas e sites como EGW e BABOO, Lucas fundou o Hu3BR pela sua paixão em jogos de estratégia, indies e a interconexão entre sistemas e emoções humanas.

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