Antes de você sequer pensar em “Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok” (Steam / PlayStation 5 / Nintendo Switch 2), eu quero que você faça uma pergunta a si mesmo. Uma bem sincera. Quantas horas você jogou da versão base? 10? Talvez 15h? Completou a campanha, viu que havia mais do jogo e só “deixou” para lá? Então pode ser que a expansão para o RPG de 2024 não seja para você. Agora, se você foi um “maluco” que nem eu, e respirou Granblue Fantasy por meses, ah, aí sim você vai ter que desmarcar compromissos da sua agenda.
Sei que pode ser estranho, até contraditório começar um texto sobre uma expansão de um RPG praticamente afugentando possíveis leitores. Entretanto, “Endless Ragnarok” não é uma mera expansão na qual você tem novos personagens jogáveis e quests; está muito mais próximo de “Sunbreak” para “Monster Hunter: Rise” ou similares dos títulos de ação da Capcom do que apenas uma continuação da história – ainda que haja sim uma certa continuidade, mas falarei sobre ela em breve.
Eu não ouso dizer que sou um expert em “Granblue Fantasy: Relink”, muito pelo contrário; eu joguei horrores do RPG da CyGames ao ponto de colocá-lo na minha lista de games do ano. Completei a campanha, o que eu considerei na época o “epílogo”, participei de centenas de quests secundárias – sozinho ou não – para obter materiais, melhorar as minhas armas e desbloquear novos personagens, incluindo aqueles que foram disponibilizados via atualizações. Eu prefiro nem ver o contador de horas do meu save para não sentir um tiquinho de “vergonha” e pensar “Céus, eu realmente joguei tudo isso de Relink?”. Na minha cabeça, eu estava mais do que pronto para explorar “Endless Ragnarok”. Não podia estar mais equivocado.

A história de “Endless Ragnarok” só começa em si após completar todas as missões principais do que era até então o “epílogo” do RPG. E, sim, isso inclui aquelas batalhas cabeludas em que você tem que derrotar alguns chefões brutais, e se quiser as melhores recompensas, no menor tempo possível. Mas, é bem provável que você não a veja a não ser por meio de pequenas pinceladas ou menções pontuais por pelo menos três a quatro horas no mínimo. O que você vai fazer no meio tempo? No meu caso, explorar o “Confluência”.
O modo é uma resposta da CyGames para quem quer jogar “Granblue Fantasy: Relink” ad infinitum, ou ao menos é isso em teoria. Separado em três incursões — cada uma mais difícil do que a outra —, ele possui todo um sistema de progressão separado, habilidades passivas novas, e novos tipos de materiais. Embora possa soar como um modo jogado a esmo no RPG, a essência da “Confluência” tem uma ligação direta com os eventos de “Endless Ragnarok”. O que não tem ligação direta é o quanto eu apanhei para completar uma área.
Eu não estou de brincadeira quando falo que “Endless Ragnarok” é voltado para quem já está bastante avançado no endgame de “Granblue Fantasy: Relink. Para você ter uma ideia, os níveis dos inimigos da primeira área da zona da “Confluência” já estão bem próximos do nível 100. E, por sua estrutura “roguelite”, você não sabe o que vem pela frente.

Tive incursões onde eu praticamente lutei contra grupos de goblins até cansar, outras em que tive que derrotar dois chefões juntos. Já em outra, defender um cristal de uma invasão de inimigos. É inegável que algumas missões parecem ter sido – se não foram – tiradas diretamente das quests secundárias do jogo base, mas é o grau de dificuldade e a nova progressão que empolgam.
Poucas coisas se traduzem “felicidade” para mim quando eu estou prestes a “chorar” porque eu estou apanhando tanto de um chefão. “Mas…, mas eu tinha certeza de que o meu equipamento era bom, que eu derrotei tudo que veio antes com facilidade!”, pensava comigo mesmo. “Endless Ragnarok” responde de forma seca: “Pois é, você só achou isso”.
Ainda bem que ele é uma boa maneira de conseguir materiais rapidamente. Além disso, à medida que cada fase é concluída, os jogadores podem selecionar 1 entre 3 bônus de Aura que se aplicam apenas àquela partida. Minha adição favorita, no entanto, fica para a árvore de ressonância, um tipo de “metaprogressão” para o modo “Confluência”.

Eu não sou fã de metaprogressão – e muitos de vocês sabem disso – mas a implementação em “Endless Ragnarok” me agrada por os bônus não te tornarem extremamente poderoso, mas sim estão no equilíbrio certo que, mesmo no nível mais difícil da “Confluência”, a sua habilidade de usar o link time, esquiva e bloqueio são os elementos essenciais para a vitória. E, se você ainda não aprendeu a como usar essas mecânicas, a hora é agora, pois elas são mais do que essenciais em “Endless Ragnarok”.
Acessar a real adição do DLC, a dificuldade Caos, novos materiais e novas Sigils ocorre assim que uma quest sobre novas entidades conhecidas apenas como “Ragnalia” dão as caras. Não vou entrar em quem te dá essa quest ou o que eles falam para evitar spoilers, mas já neste momento o jogo põe à prova a sua habilidade de esquiva e combate.
A missão em si tem uma duração máxima de 60 minutos. E, não, isto não é um erro de digitação. Mesmo com os meus personagens no nível 100 eu sofri muito para completá-la, fracassando nos momentos finais por conta de uma esquiva que eu não consegui realizar ou um bloqueio em que não acertei o timing. Falei para mim mesmo: “Como, como eu vou derrotar esses inimigos sem morrer 30 vezes”? Esse é o grau de dificuldade de “Endless Ragnarok”, e ele não diminui à medida que você avança nas quests; pelo contrário, ele só aumenta. Por outro lado, o mesmo acontece com as suas ferramentas para derrotar os inimigos.

Uma das principais adições – ao menos a mais comentada pela CyGames – é o sistema de invocação. De início eu fiquei com o pé atrás, ainda mais por ter criado um vínculo tão forte com os meus personagens prediletos — como Sandalphon, que não sai da minha rotação pelos seus ataques fantásticos — mas assim que adentrei a primeira e a segunda missão na dificuldade Caos e pude invocar criaturas, elas se tornaram praticamente essenciais.
Além de serem uma ótima ferramenta para aplicar “Break” – que atordoa inimigos grandes por um curto período de tempo – o dano massivo delas é garantia de que uma quest que poderia falhar acabe se tornando uma vitória.
A grande maioria delas pode ser controlada diretamente por um curto período de tempo, e devo dizer que invocar uma besta primal e fazê-la cair no soco com um monstro gigante é divertidíssimo. Mesmo quando a câmera – que continua a ser o calcanhar de Aquiles de “Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok” – não colabora muito e se prende em paredes ou não consegue focar direito na ação.
A própria CyGames incentiva o jogador a usar invocações fazendo com que cada uma delas tenha um custo específico e beneficie uma invocação posterior. Por exemplo, caso você invoque um ser de custo “1”, a invocação de custo “2” pode cair em um ponto, e o mesmo vale para a invocação de custo “3” – que tendem a ser os chefões que você vê nas grandes batalhas do jogo base. No fim, há certas quests que praticamente viraram uma batalha de invocações, porradaria e caos na tela. Tudo isso porém — problemas de câmera à parte — surpreendentemente legível.

Isso é só contando as invocações mais voltadas para o combate, pois há dezenas de outras que dão buffs e trazem animações no mínimo peculiares. Imagine, no meio de uma batalha contra uma besta primal, e você invoca um grupo de moradores para “torcer” para você e assim ganhar boost no ataque? “Endless Ragnarok” trilha o caminho entre a seriedade e o humor como poucos jogos conseguem fazer.
Com essa quantidade enorme de invocações, você deve estar se perguntando: “Tudo bem, mas e a minha party, o que vai acontecer com os meus personagens favoritos?”. Bem, você pode se preparar para uma dose adicional de grind para coletar materiais e novas sigils. “Endless Ragnarok” também adiciona um sistema de fusão de sigils que é bem útil, e os materiais mais raros do RPG agora estão muito mais fáceis de serem coletados – ao ponto de serem um drop garantido dependendo da quest. Se você ficou desmotivado ao ver que ia ter que gastar mais 20 ou 30h para subir um personagem de nível ou melhorar a sua arma, “Endless Ragnarok” torna o processo bem menos doloroso.
O que é “doloroso” é o fato que “Endless Ragnarok” não faz uso de um dos melhores atributos de “Granblue Fantasy: Relink”: as cinemáticas fantásticas e de tirar o fôlego. Salvo algumas invocações de nível 3, a maioria da história é contada por meio de vinhetas muito parecidas com os episódios secundários (“Fate Episodes”) presentes no jogo base.

Compreendo que produzir cinemáticas – ainda mais do escopo de “Granblue Fantasy: Relink” – não é algo simples, mas por se tratar de um capítulo “epílogo”, eu esperava um pouco mais de ação visual fora dos cenários de combate. A história em si também não avança muito, é mais situacional e esparsa. Pode ser que as minhas expectativas estivessem altas demais depois de ver o final deslumbrante da campanha final, mas “Endless Ragnarok” não tem o menor interesse em expandir o universo de “Granblue Fantasy” da maneira que eu pensei.
Estendo essa crítica para Beatrix e Eustace, personagens que a meu ver são muito “básicos” em termos de combate e habilidades. Não tenho dúvidas de que eles vão se encaixar em uma build específica, mas perto de Sandalphon, ou de Fraux e Fediel – que são bem mais complexos de serem usados e, para mim, mais satisfatórios. Mas, bem, longe de mim criticar demais a adição de personagens jogáveis em um RPG que já tem um número enorme que ultrapassa muita franquia por aí.
E se tem algo que “Endless Ragnarok” faz, e faz muito bem, é superar expectativas em termos de jogabilidade. Novas mecânicas como os “Master Traits” que permitem evoluir os personagens, obter bônus e criar equipes mais especializadas ao ponto de usar planilhas para theorycrafting – algo em que o jogo base deixou muito a desejar – é o que me motiva a continuar a jogá-lo. Isto sem contar pormenores como melhorias na câmera, novos atalhos para navegar pela cidade, buffs para certos personagens — uma lista tão grande que não caberia nesta crítica — e a tão aguardada adição de cross-play.

Posso não ter jogado as quests de “Endless Ragnarok” com outras pessoas, mas assim que ele for oficialmente lançado, eu vou cair de cabeça mais uma vez e preparar as minhas equipes, melhorar as armas, criar combinações e minuciosamente ajustar as invocações para me preparar para outras dezenas, quiçá centenas de horas de quests e buscas por materiais.
Essa é a essência de “Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok”. É a CyGames falando: “Você não quer mais Granblue? Então toma!”. E que pacotão que a desenvolvedora produziu. Como apontei no início da crítica, ele pode não ser voltado para quem está engatinhando ainda na franquia, mas se você é, como eu, um veterano daqueles que completou praticamente todas as quests no rank “S+++++”, “Endless Ragnarok” é essencial.
Granblue Fantasy: Relink – Endless Ragnarok
Total - 9
9
“Endless Ragnarok” vem com uma única missão: oferecer um pouco mais de “tudo” para quem adorou a versão base de “Granblue Fantasy: Relink”. Novos poderes, armas, personagens, sistemas e desafios. A expansão em si tem pouquíssimo interesse em conquistar novos jogadores – especialmente aqueles que o deixaram de lado após completar a campanha. Mas, para quem gastou horas completando quests, ama “theorycrafting”, e quer criar a melhor equipe que Zegagrande já viu, é uma expansão e tanto. Já consigo ver o meu contador de horas de jogo subindo para números estratosféricos. Boa sorte para mim e meu sono, que vai acabar desregulado.

