Eu acredito que devo ser um dos pouquíssimos brasileiros que acompanha partidas de futebol americano entre universidades. Não pelo fato de que eu quero ser diferente, mas pela absurda variedade de situações que pouco se vê na NFL. Discrepância entre clubes, menos “estrelas” no holofote, e menos a corrida para quem chega até o Superbowl. No fundo, ainda é futebol americano, mas são as jogadas inesperadas, as partidas ganhas de forma suada que me mantém grudado na tela. O retorno de “College Football 25” foi, para mim, um marco. Uma quebra de expectativa. Uma chance da equipe da EA provar que ela consegue ir muito mais além de “Madden: NFL”. Três anos depois com “EA SPORTS College Footbal 27” (PC / PlayStation 5 / Xbox Series S/X), muito disso ainda permanece verdade.
Se você está boiando sobre o que, aqui vai uma breve história: O “EA SPORTS College Football” ressuscitou após quase uma década desde o seu último lançamento — o “NCAA Football 14” para Xbox 360 e PlayStation 3. A nova versão, agora nas mãos da EA Triburon, o foco é quase que inteiramente nas equipes que jogam na NCAA (National Collegiate Athletic Association). Algumas universidades / escolas não estão no game por questões de licenciamento, algo que permeia praticamente quase todas as franquias de esporte da desenvolvedora com a exceção de “Madden”. Entrar no tema vai muito além do escopo dessa matéria, e não tenho o conhecimento técnico para explicá-los à fundo.
Dito isso, o número de times de “College Football 27” continua a me impressionar. Afinal, qual outro jogo te permite jogar com 138 times diferentes, alguns deles minunciosamente replicados? É uma quantidade assustadora e só o feito da EA ser capaz de manter o nível de qualidade visual entre eles — o que não posso dizer tanto acerca da franquia “Madden” — mostra o esforço da Triburon em fazer jus a franquia. Jus que continua, ainda que de forma mais lenta, em “College Football 27”.

Um dos enfoques da desenvolvedora vem sendo restaurar recursos que estavam presentes em jogos anteriores da franquia desde o seu hiato de uma década e ao mesmo tempo “evoluir” a jogabilidade para não só ter uma identidade própria e se diferenciar de Madden, mas deixar com uma pegada maior de “simulação” — uma corrida armamentista entre jogos esportivos que, a meu ver, nunca vai ter fim.
Ainda que eu tenha a minha parcela de críticas de como ela vem fazendo isso, como “bloquear” partidas entre mascotes até que você jogue — e vença — contra cada time, o que significa jogar mais de 60 partidas no modo “quick match”, há refinamentos ótimos em “College Football 27”, como o aprimoramento do que a desenvolvedora chama de “Persona Engine”.
Em suma, ela não é nada mais do que um conjunto de “regras secretas” ou situações aleatórias que podem acontecer no modo Dynasty onde você toma o controle de uma das universidades. Quem joga Football Manager ou similares conhece muito bem a dor de ter um atleta essencial para o seu time se machucar semanas antes de uma partida importante. E, por mais que haja um terrível foco no “Ultimate Team” (mais sobre isso em breve), o modo Dynasty ainda permanece um dos meus modos favoritos de “College Football”, e a versão 27 não decepciona.

Gerenciamento de time sempre foi um dos meus elementos favoritos em jogos de esportes, e embora a versão anterior de “College Football” deixou a bola cair nesse quesito, “College Football 27” a recupera com certa maestria. Tirando do livro FC26 – que oferece dois modos de jogo – as opções que a EA Triburon coloca no modo são vastas. Você pode definir os mais variados tipos de modificadores, de dificuldade, desgaste, comportamentos da CPU até o quanto você ganha de pontos de experiência.
Como alguém que joga mais do que deveria “NBA 2K”, ver um modo onde eu posso definir as minhas próprias regras e ajustá-las quando quiser, é quase um alívio. Não só pelo fato de que eu posso ter dois saves – um onde eu posso fazer a minha própria “corrida” para chegar ao topo e ganhar pontos de experiência mais rápido, e outro onde eu posso jogar de forma mais cadenciada e com mais paciência para montar a melhor equipe –, mas pelo cuidado da desenvolvedora em fazer um jogo para todos os gostos. Algo raro no mundo dos jogos esportivos.
Ironicamente, o save que eu mais joguei para a produção desta crítica foi no modo cadenciado. Algo que até me impressionou, mas há um motivo para isso. Este ano, cada instituição e seus respectivos diretores tem expectativas e espera que você as cumpra. Algumas são bastante flexíveis, outras duronas.

As expectativas variam de contratar atletas que podem se tornar “estrelas” e trazer renome, melhorar a instalações ou derrotar times rivais. Outras querem que você permaneça no topo da tabela de pontos o máximo de tempo possível e, preferencialmente, leve a taça para casa. Esse “pequeno” ajuste traz uma tensão que eu senti muita falta nas versões anteriores.
Claro que eu, na minha arrogância, escolhi uma escola com altíssimas expectativas e já na minha primeira partida perdi de 36 a 12. Simulei uma semana de partidas e refleti nas minhas decisões desastrosas durante a defesa, e o jogo me alertou que se eu não recuperasse a pontuação e minha posição na tabela, era hora de dar adeus ao meu cargo. Sabe quantas vezes eu fui “ameaçado” de perder o cargo e nunca de fato aconteceu em um jogo esportivo? Centenas.

Ignorei, pois pensei que “College Football 27” seria apenas “mais um jogo”. Outra partida desastrosa e o que aconteceu? Eu estava fora, minha única chance era tentar encontrar outra universidade ou esperar o término da atual temporada. Amargurado, simulei até a metade da temporada e nada de alguém me contratar. Bom, fiz por onde. Escolhi jogadas arriscadas, não pensei no meu lineup e coloquei “quem se encaixasse” na posição sem refletir sobre as habilidades deles. Uma prova que, sim, “College Football 27” pode ser cruel. Por outro lado, se a crueldade da simulação de uma vida de técnico não é fácil, “College Football 27” alivia um pouco na hora da jogabilidade em si.
Os sinais de um controle mais preciso do jogador já haviam dado as caras em “Madden NFL 26”, e esse sistema ganhou ainda mais “profundidade” em “College Football 27”. Jogar no lado ofensivo é satisfatório em relação a passes, sincronização e saber — ou melhor — aprender, qual jogada ofensiva chamara cada momento. Não digo só em termos de animação, mas quanto controle você tem acerca do posicionamento do receptor, a facilidade de trocar de jogador seja no jogo corrido ou nas jogadas aéreas.

O que impressiona mesmo é o quanto o lado defensivo melhorou, não só em termos de IA – ainda que ela demonstre certa imprecisão na hora de “ler” ou “interpretar” as intenções do oponente – mas no quanto eu posso simplesmente tomar as rédeas e corrigir uma falha causada por ela. Se em “College Football 26” eu não conseguia praticamente interceptar nenhuma bola aérea, a sequência ajusta para que uma possível brecha se torne uma oportunidade. Outra vez, depois de anos jogando “Madden NFL” e vendo jogadas que podiam virar chances de ganhar o jogo sendo destruídas pela IA, “College Football 27” é outra vez um ar de frescor. Não sei o que a EA Triburon fez, mas essa deve ser o modus operandi da franquia e de seu irmão mais “velho” daqui para frente.
Isso sem entrar na discrepância entre as diferentes escolas e seus atributos. Como disse, 138 times geram milhares de combinações de partidas onde você pode “triturar” o oponente com o time correto, mas também não há como ganhar (a não ser que você altere os sliders) de um time claramente mais forte e com atletas mais capazes do que os da sua equipe.
Todavia, por mais que eu possa gastar mais três parágrafos falando sobre os ótimos controles e o modo Dynasty, esses são os maiores saltos que “College Football 27” de fato faz. Os principais modos de jogo permanecem o “Road to Glory” – que ganhou pouquíssima atenção, e o Ultimate Team.

Como muitos sabem, eu não sou o maior fã do Ultimate Team e a presença dele em “College Football 27”, um “mal necessário” criado pelo modelo EA Sports é ainda pior do que no ano anterior. Se você ficou cansado de ver anúncios ou incentivos para jogá-lo, ele está praticamente na sua cara quase o tempo todo. A Triburon até tenta amenizar com mais desafios secundários, missões semanais e até então recompensas “grandes” para minimizar a compra de pacotes com dinheiro real, mas sinceramente, não é um modo para mim e eu não ligo para montar o meu time e o “grind” terrível que ele traz consigo. E essas missões são a maior adição do modo que deveria ser o “carro chefe” de “College Football”.
É o mesmo ajuste feito em “Road to Glory”, que se mantém praticamente estético nas áreas que importam. Outra vez, a Triburon adiciona narrativas ramificadas e estatísticas ainda mais complexas, mas desenvolver o seu jogador tem pouca diferenciação em si. Para não reduzir o trabalho da desenvolvedora, ao menos ela coloca ótimos tutoriais de que áreas (de acordo com a posição na qual você quer jogar) você precisa melhorar. Ao menos é um bom incentivo para eu explorar outras posições além de Wide Receiver, a minha favorita. E, não, não fiquem surpresos que eu não quero ser um Quarterback. Simplesmente acho chato.
Se fosse para ser o “melhor dos mundos”, queria muito que a Triburon olhasse para como MLB The Show desenvolveu ao longo dos anos o modo “Road to the Show” e se inspirasse nele. Por mais que eu saiba que o título da Sony San Diego estagnou em outras áreas como animação, ainda é o meu exemplo primário de como criar um modo de jogo solo e progressão de jogador ao longo de múltiplas temporadas.

O que me traz a resposta para a pergunta tão importante: “Para quem é EA SPORTS College Football 27?”. Se você for alguém que preza pela jogabilidade, animação mais refinada, mudanças essenciais e necessárias para a IA, e é ótimo fã do modo Dynasty, é uma compra garantida. Agora, se você espera mais inovação em outros modos, lamento, pois vai ficar a ver navios. E, se o histórico da EA Sports no geral me diz algo, é que essas inovações ou adições vão demorar ainda alguns anos para vir.
Tenho muito medo de que “EA SPORTS College Football 27” acabe estagnado como o seu irmão mais velho. Isto ainda não aconteceu, e espero que não aconteça. A EA Triburon ao menos garante isso nas áreas que importam. Agora, por quanto tempo? Não saberei responder.
EA SPORTS College Football 27
Total - 8.5
8.5
“EA SPORTS College Football 27” arrasa com uma jogabilidade mais responsiva, melhor posse de bola, mais controle no lado do ataque e na defesa, refinamentos necessários na IA e é um deleite para aqueles que o pegam pelo modo Dynasty graças às incríveis adições e personalização do modo. Infelizmente, esses mesmos esforços não foram replicados no Road to Glory e muito menos no Ultimate Team. Tenho medo que ele entre em estagnação tal como o “Madden NFL”. Estou com os dedos cruzados para que isso não aconteça e que a EA Triburon tenha a “independência” para continuar a implementar as suas próprias ideias.

