Acompanhar a evolução dos jogos da Square Enix é um processo igualmente interessante e complicado. A desenvolvedora teve os seus altos e baixos nos últimos 20 anos. De lançamentos conturbados como “Final Fantasy XV” até um bombardeio de títulos como “Valkyrie Elysium”, “The DioField Chronicle”, “Triangle Strategy” e “Harvestella” em 2022. Muitos, lamentavelmente esquecidos. Destes, uma franquia sempre se sobressaiu, “Octopath Traveler” — pela qual me apaixonei, a ponto de apontar “Octopath Traveler 0” como um dos melhores RPGs de 2025. o entanto, havia uma lacuna no meu repertório: o seu predecessor espiritual, “Bravely Default”. Uma lacuna que agora foi finalmente preenchida por “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” (PC / Xbox Series S/X / Nintendo Switch 2).
Embora eu já tivesse muito interesse em JRPGs em meados de 2013, quando o game finalmente chegou no ocidente para o Nintendo 3DS, a ideia de jogar em um portátil nunca me apeteceu. Tela pequena para a época, tempo limitado, desconforto de jogar em locais públicos. Eu o admirava de longe, ouvia as histórias de colegas sobre como o combate era ótimo, e como a história era envolvente. Não demorou muito com “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” para perceber que os elogios que eu ouvi no passado tinham um fundamento muito sólido.
A trama começa de forma bastante convencional no que diz respeito a RPGs de fantasia. A cidade de Norende é engolida por uma cratera gigante, e Triz, um garoto com sede de vingança e de fazer o que é justo, acaba ajudando a salvar uma mulher, que posteriormente ele descobre ser uma das guardiãs de cristais elementais. Outros personagens com as suas próprias motivações se juntam ao longo da jornada e o que era uma “pequena história” sobre justiça vira uma jornada para despertar cristais e salvar o mundo.
Se você leu o parágrafo acima e já jogou a sua parcela de RPGs, vai notar que o grosso da trama não é tão diferente dos primeiros títulos da franquia “Final Fantasy”. A realidade é que, em muitos aspectos, “Bravely Default” é “Final Fantasy” sem necessariamente fazer parte da franquia. E escrevo isto da forma mais gentil e positiva possível.

Tudo o que você espera de um RPG “clássico” nos moldes da Square Enix está presente no game. Um sistema de jobs que você pode usar para moldar a sua party de quatro personagens como bem entender, com monks, black mages, rangers, summoners. A seleção é vasta, mas o jogo faz um ótimo trabalho em introduzi-los gradativamente, para que você não se sinta sobrecarregado ou com a tradicional “paralisia” de como compor a sua party.
É importante contextualizar o impacto de “Bravely Default” na época do seu lançamento. Sistemas como “jobs” tinham praticamente sido extinguidos dos jogos de grande porte da Square Enix. Aqueles que ainda o possuíam, como “Final Fantasy XIV” ou o remake de “Final Fantasy VII” os colocaram sob uma lente mais voltada a ação ou com sistemas mais “simples”, por assim dizer. Não é como hoje em dia que nos esbaldamos de títulos que utilizam sistemas similares, ou com o próprio “Octopath Traveler”, que teve três títulos desde sua concepção. “Bravely Default” era, e ainda é, em parte, uma grande “homenagem” aos RPGs do passado. Mas, na mesma quantia que “ele” se assemelha a “Final Fantasy” ou outros projetos da Square Enix, ele também faz o possível para se afastar o máximo deles.
Ainda que as pinceladas gerais da trama sejam enraizadas em estereótipos de RPGs e aludem a “Final Fantasy”, o desenvolvimento dos quatro personagens principais — Tiz, Agnès, Edea e Ringabel — e do mundo de Luxendarc é soberbo. Não se deixe enganar pelas horas iniciais e achar que a história é “bobinha” ou até mesmo “infantil” em certos aspectos. Sem entrar em muitos detalhes, eu não vi um RPG com tantas reviravoltas – muitas delas que eu consideraria controversas – como “Bravely Default”. É também uma trama que se mantém bastante “atual” nos dias de hoje.
O jogo, sempre que possível, evita cair demais no estereótipo do “vilão que quer destruir o mundo”, e apresenta cenários como o poder da desinformação, tirania, e como essa desinformação reforça pontos de vistas violentos — diria, até, fascistas — dentro do mundo do jogo. O soco no estômago de ler algumas das passagens, seja na trama principal ou na conversa entre os personagens, doeu.

Por não ter jogado a versão original, “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” faz mais do que o suficiente para modernizar o jogo sem que ele perca a sua essência. É impossível não notar que ele foi desenvolvido originalmente para um portátil, mas os cenários e os personagens receberam uma ligeira repaginação visual que salta aos olhos. As cidades, embora pequenas comparadas a outros jogos modernos, são um puro deleite de explorar e conversar com cada habitante. Só não espere algo do mesmo escopo que “Dragon Quest III HD-2D” ou “Octopath Traveler 0”. Mas tem um elemento que é praticamente inalterado – e eu diria que após experimentá-lo a fundo, fico feliz: o seu sistema de combate.
Assim como os jobs, ele inicialmente aparenta ser um sistema simples de turnos com os seus típicos ataques, habilidades, feitiços e uso de itens. Você aproveita os pontos fracos dos inimigos para causar dano extra e aproveita o sistema de jobs para superar os chefões. O que o diferencia de tantos outros é o sistema Brave e Default.
Cada membro do grupo possui Pontos Brave (BP) para agir em seu turno. Você regenera naturalmente um ponto de BP por turno em batalhas normais. Se optar em usar o comando Default no turno de um personagem, ele assume uma postura defensiva, sofrendo menos dano e ganhando um ponto de BP. Você pode então gastar o BP para realizar várias ações em um único turno usando o comando Brave.
Como já joguei “Octopath Traveler”, que usa o sistema de “Bravely Default” como base, eu não tive tantas dificuldades em me adaptar. Por outro lado, vi o quanto jogos futuros o simplificaram em comparação com o projeto que o originou. Se “Octopath Traveler” usa para criar uma sensação de poder imensurável para os jogadores, “Bravely Default” faz você andar no fio da navalha.

Além de só poder acumular quatro BP, é preciso saber quando gastá-los, pois um ataque mal calculado pode ser mais que uma oportunidade perdida e resultar em tomar wipe em uma dungeon. Ao menos na dificuldade “Hard”, na qual eu joguei o RPG. Apressadinho como sou, eu gastava todos os meus BPs na primeira chance que tinha, o que me impedia de atacar nos turnos seguintes. Resultado? Apanhei feio dos inimigos.
Como se já não bastasse, o meu único ponto de referência para o sistema de combate era “Octopath Traveler”, e os inimigos de “Bravely Default” atuam, no geral, de um jeito bastante diferente. Eles também podem entrar em modo default para receber menos dano ou gastar todos os pontos de BP deles para um ataque massivo, mas também ficam sem poder atacar por múltiplos turnos.
Notar a evolução do sistema à medida que avançava na história e novas mecânicas eram liberadas me deixou eufórico. Era uma batalha mais intensa que a outra, acompanhadas da mão no queixo e “será que eu uso os BP agora? Hm, parece que ele pode entrar em modo de defesa”, ou “Ok, eu sobrevivi ao pior ataque, agora só usar as habilidades e – opa, eu estou sem mana”. É um sistema feito para você tirar o máximo de proveito dele com os jobs, para encontrar sinergias e brincar de theorycrafting até dizer “chega”. E poucas coisas me dão tanto prazer quanto isso e descobrir a melhor maneira de “quebrar” o jogo. “Bravely Default” tem muitas.
Para aqueles que não são fãs de theorycrafting ou do grind, “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” vem com todas as ferramentas essenciais de um remaster para mitigar os problemas. Isso inclui um robusto sistema de combate automático onde você pode definir quais ações realizar — e me surpreende que a Square Enix não tenha usado mais esse elemento em outros remasters — aceleração de velocidade de batalha em até 4X. Aumento ou redução na taxa de batalhas aleatórias e outras dezenas de pequenos ajustes como ganho ou não de pontos de experiência ou de job após vencer uma batalha. É flexível ao ponto que eu, que nem sou de mexer muito nisso, ajustei para fazer um grindzinho aqui e acolá e acumular dinheiro, mas não deixar os meus personagens fortes demais. Tal flexibilidade deveria ser o padrão daqui para frente nos jogos da Square Enix, ou ao menos nos remasters.

Outro padrão que eu espero da desenvolvedora é a incrível adaptação de mecânicas que muito bem poderiam ter sido removidas, mas que a desenvolvedora se deu ao trabalho de colocar no remaster. Uma delas, de longe a minha favorita, é a reconstrução da cidade de Norende. No Nintendo 3DS, ela fazia um grande uso do Streetpass para recrutar novos habitantes; o remaster segue a linha de “fantasmas” de outros que você encontra pelas cidades.
Alguns deles são fixos caso jogue em modo offline, mas você também tem a opção de jogar em modo online e coletar “fantasmas” de amigos. Quanto mais habitantes, mais rápida a construção e maior acesso a itens ou equipamentos raros. Esses mesmos fantasmas também podem te ajudar no combate como “invocações”. Eles também podem ser enviados para coletar materiais ou até batalhar para aumentarem de nível.
São mecânicas simples que não são nem um pouco intrusivas e que reverberam alguns dos temas tratados na trama de “Bravely Default”. Parte de mim gostaria que ele tivesse sido expandido da mesma forma que a Square Enix fez com o sistema de reconstrução de “Octopath Traveler 0”, mas sairia do escopo de um remaster e transformaria o jogo quase em um remake ou uma reinterpretação.
Sei que já tracei muitos paralelos entre “Octopath Traveler” e “Bravely Default”, mas preciso reforçar que embora existam influências, “Bravely Default” não é uma versão mais modesta ou de menor escopo do primeiro projeto HD-2D da Square Enix. É justamente o contrário, “Octopath Traveler” dilui muitos dos elementos do jogo para se tornar mais palpável para uma audiência mais ampla. Também corrige um dos maiores defeitos do jogo, a sua duração e a repetição.

Se eu tenho uma única grande crítica a fazer acerca de “Bravely Default” é o seu segundo ato. Eu não quero estragar a surpresa para quem planeja jogá-lo pela primeira vez com “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster”, mas se você olhar para ele e pensar que ele vai durar só 20 ou 30h, está muitíssimo enganado. Esse é um daqueles RPGs que vai se estender o máximo possível, muitas vezes, sem real necessidade.
Parte de mim acredita que isso pode ter se originado da cultura da época do Nintendo 3DS e de oferecer “máximo possível” em um pacote portátil. Afinal, em 2012 não tínhamos o Nintendo Switch e sua enorme biblioteca de RPGs, e portáteis na época foi o que manteve muitas franquias de RPG vivas durante a transição do PlayStation 2 para o PlayStation 3 e Xbox 360. Uma “geração” de consoles que, quanto menos eu pensar sobre o quanto o gênero sofreu no geral, melhor.
Por outro lado, “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” era a chance de ouro da Square Enix retificar os defeitos, e até onde pude perceber e comparar, a desenvolvedora mexeu muitíssimo pouco no texto ou nas cinemáticas. No máximo mudanças pontuais que melhoram a cadência de certos arcos mas não os encurtam. Bem, ao menos a opção de acelerar batalhas faz com que a segunda metade seja menos arrastada.
É irônico escrever o parágrafo acima, pois a própria desenvolvedora adicionou dois minigames em “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” que, por algum motivo, estão atrelados à história. Ainda que você possa jogá-los imediatamente, eles evoluem e liberam mais fases quanto mais você avança no RPG.

O primeiro deles é o Luxencheer Rhythm Catch, um jogo rítmico onde você tem que acertar as notas com os ponteiros controlados pelos analógicos. O outro é o Ringabel’s Panic Cruise, onde você controla uma Airship também com os analógicos.
Como “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” foi lançado primeiro para o Nintendo Switch 2, dá para ver que esses minigames foram feitos para demonstrar o uso do modo mouse do console da Nintendo. O uso de controles mais “tradicionais” neles é um tanto confuso, mas eu confesso que eu dei uma risada ao ver a opção de jogá-los com dois mouses. Me desculpe, mas eu não conheço ninguém que tem um mouse sobrando em casa e vai plugá-lo só para um minigame. Além do que, se for para jogar jogos rítmicos da Square Enix, eu opto por “Theatrhythm Final Bar Line”. No fim, os minigames são divertidos, mas muito longe de serem essenciais. Um extra para quem já jogou o game no 3DS e quer uma desculpa para rejogá-lo.
Sabe qual é a melhor desculpa para jogar “Bravely Default Flying Fairy HD Remaster”? 14 anos depois de seu lançamento e eu só posso defini-lo como atemporal. Salvo as limitações do Nintendo 3DS, você poderia muito bem ter me falado que ele saiu este ano e eu nem iria questionar.
O máximo que eu ia comentar seria: “Poxa, bem que eles podiam ter encurtado a segunda metade, não é?”, de tanto que muito do que o sustenta se mantém fresco mesmo dentro de uma indústria onde jogos de RPGs tomam cada vez mais espaço. Dos “AAA” que lançam uma vez a cada sete anos até as dezenas de indies lançados mensalmente. Uma demonstração de que idade ou “data de lançamento” não significa nada.
Da narrativa sublime com temas ainda muito relevantes, personagens complexos (mesmo com um segundo ato repetitivo), o excelente sistema de combate e uma dose de desafio que às vezes parece ter evaporado do gênero, eu o coloco como um RPG essencial. Não acredito que eu demorei tanto tempo para jogá-lo. Mas, bem, antes tarde do que nunca, não é mesmo? Não cometa o mesmo “erro” que eu. Finalmente entendo o motivo de tantos o amarem e o porquê ele foi tão influente para o design da Square Enix nos anos subsequentes.
Então Square, alguma chance de um remaster de “Bravely Second: End Layer”? Por favor? Por favorzinho? Só me falta jogar esse!
Bravely Default Flying Fairy HD
Total - 9
9
“Bravely Default Flying Fairy HD Remaster” não esconde que o RPG foi originalmente lançado para o 3DS, mas isso não significa que ele seja simples ou “básico”. Pelo contrário; 14 anos depois e seu sistema de combate ainda é excepcional. A Square Enix faz um exímio esforço para manter os principais componentes presentes para essa remasterização, mesmo que isso signifique um segundo ato repetitivo. Um preço “pequeno” a ser pago por uma história fantástica e personagens complexos.

