Análise – Little Nightmares

Se tem algo que me incomoda são perguntas sem respostas. Olhar para algo e não saber explicar bem como funciona. Little Nightmares, game do estúdio sueco Tarsier Studios, me pega justamente nesse ponto. Ele está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One a partir de R$79,99.

Little Nightmares é um conto repleto de significado sem descrever uma palavra. A história acontece na The Maw, um bizarro navio onde pessoas vão para satisfazer seus prazeres alimentícios. O jogador entra na pele de Six, presa por algum motivo naquele lugar e que busca de todas as formas escapar dos estranhos seres que o habitam.

O game trabalha de maneira estonteante o efeito de contrastes, não apenas pelo tamanho de Six. Ele intercala raros momentos onde tenta passar um raio de coisas adoráveis para ser esmagado pelo grotesco. Enquanto navega-se pelas entranhas de The Maw você encontra com adoráveis seres ainda menores que Six. Seriam gnomos? Qual o propósito deles? Perguntas, estas, que não sei responder.

Fragilidade não se apresenta apenas no tamanho de Six, há uma aura nela quase de pureza, de estar em um local que não a pertence. O mesmo vale para o contraste dela com o ambiente, na qual está sempre armada com a sua carismática capinha de chuva amarela em um mundo que, em grande parte, é desprovido de cores.

Também é um jogo de terror que não apela para a violência ou “gore” para passar sua mensagem. Na primeira sala encontrei-me diante de um corpo pendurado, em uma alusão a um possível suicídio. O tema nunca é trazido à tona por Little Nightmares, mas aquela situação me deixou ligeiramente inquieto. Por que alguém se suicidaria naquele local?

Cada “área”, por assim dizer, tenta instigar um tipo de emoção por parte do jogador. Os porões, escuros e grotescos, reforçam a ideia de que Six é o único ser com “luz” da The Maw e atrela isto a mecânica de usar o seu isqueiro para iluminar e acender lanternas ou velas. A cozinha e seus cozinheiros mostra-se como as “entranhas” da The Maw, podres e indigestas. Nota-se também o impressionante trabalho da Tarsiers de trabalhar com a limitação visual de cada área, dando-se assim uma maior identidade para elas. A iluminação, sombras, trilha sonora — pontos que raramente levanto em meus textos — merecem aplausos em Little Nightmares. Uma direção de arte fora do comum já é mais do que o suficiente para ficar com o olho grudado na tela com a expectativa de “O que será que vem depois?”.

Little Nightmares

Normalmente reclamo da falta de mecânicas que impedem alguma forma de defesa por parte do jogador, mas Little Nightmares é um dos poucos jogos onde isto faz sentido. Six é um pequeno ser em um mundo gigante, um que conspira contra ela. É a busca pela liberdade, de se fugir dos medos que a assolam e não uma situação como de Outlast 2, por exemplo, onde o protagonista se vê perdido em meio a um bando de fanáticos e aparentemente incapaz de ter uma maldita arma para se defender.

Mecanicamente, porém, o jogo é relativamente simplório e agradeço a Tarsiers por isso. Salvo algumas partes de stealth, algo que ainda não me desce muito bem quando o assunto são jogos de terror, os puzzles — se é que posso chama-los disso — são voltados quase que unicamente “ache uma peça no local e use-a” ou “mova uma alavanca e corra”.

A decisão tomada pela Tarsiers  faz com que  com que eles se sintam “parte” do cenário e si não quebra o ritmo tanto da hisótria como da própria navegação pelos locais. Eu comecei a jogá-lo e não sentia vontade de parar, tudo é tão bem interconectado que Little Nightmares mais parece uma longa sequência de acontecimentos. Feito bem próximo ao atingido pela Playdead em Inside, mesmo que em certas partes tenham a sua fluidez quebrada para o que parece uma “tela de carregamento” entre as áreas.

Quando se termina as duas ou um pouco mais horas de duração, Little Nightmares não chega a fazer você não dormir à noite, nem pular da cadeira. Ele te deixa em frangalhos de tanta opressão sentida pelos tubos, salas e elevadores da The Maw.  Brinca com a sua percepção de realidade e pergunta silenciosamente “Do que você tem medo?”. Uma pergunta que evito responder, mas que algumas cenas me fazem relembrar.

Com as poucas palavras, me faz estabelecer uma introspecção entre a minha vida atual os medos que sentia quando criança. Não, não sonhava com a The Maw, mas tinha medo dos adultos, de crescer, de ser tão pequeno em comparação com o mundo a minha volta. Talvez em um ponto da vida todos nós tivemos um pouco de Six dentro de nós.

Raramente elogios jogos que te deixam com mais perguntas do que respostas. Little Nightmares consegue não apenas isto, consegue fazer com que as respostas sejam menos significantes do que a percepção distorcida da realidade daquele mundo. Dificílimo de agradar a todos, mas aqueles que investirem algumas horas vão ter maravilhosos momentos de tensão, inquietude e questionamento sobre os seus próprios medos.

Little Nightmares

Total
Mecanicamente simples, Little Nightmares te agarra pela ambientação, a forma que demonstra medos e sufoca o jogador em um ambiente bizarro e sem se escorar nos estereótipos do gênero. Curto, mas que deixa boas lembranças.
Muito bom

Análise – Little Nightmares

About The Author
- Colaborador para a EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.