Análise – Kingsway

Já cansei de falar, e muitos sabem, que nostalgia é algo peculiar. É a forma que nós olhamos para um objeto ou período, ignoramos todos os problemas e nos lembramos das coisas boas. Aquele tipo de gente que gasta preciosas horas repetindo os dizeres “anos 90 foram os melhores”. Dessa nostalgia nasceu Kingsway, um roguelike que tenta simular um sistema operacional dos anos 90. E, assim como aqueles que defendem a época, esquecem que na verdade não foi tão bom quanto parece.

Assumo que estava com expectativas relativamente altas para Kingsway. Afinal, se formos reduzir o conceito de um RPG, ou qualquer jogo para ser sincero, não passa de números, tabelas e pastas. A maneira que o desenvolvedor Andrew Morrish transforma isso em um “sistema operacional”, que parece uma mistura de Windows 95 com MacOS 8.x/9.x, soa à primeira vista como uma boa piada ou um conceito semi-original (visto anteriormente em Mordor: The Depths of Dejenol) e uma subversão do próprio gênero.

Kingsway é tudo menos isto.

Ao invés de usar o conceito de sistema operacional como uma base para englobar a ideia de que um RPG pode ser transportado para esta temática, ele usa como uma distração para não revelar que, na realidade, é extremamente raso.

Como todo roguelike, aleatoriedade está de certa forma presente. Você começa a campanha na escolha de um personagem, classe e um “presente inicial”, este que varia entre bônus de vida, mana ou algum equipamento que você optou por preservar da última run. Até aí nada demais, era justamente o que eu esperava.

Com o mapa mundo aberto, selecionei meu primeiro lugar para navegar. Um pequeno popup com uma barra de carregamento apontava o quanto faltava para chegar no local. Ah sim, nada melhor do que descrever um sistema operacional antigo replicando exatamente o que mais odiávamos neles, a lentidão. Eu ainda não tinha perdido as esperanças, devia existir algo de bom em Kingsway.

Até eu ter o meu primeiro encontro com um oponente.

Kingsway

O combate, inspirado pelo Active Time Battle (ATB) — onde os personagens têm de carregar uma “barra de iniciativa” — não poderia ser mais simplório e insosso. Espere uma barra carregar, aperte o botão de ataque, espere, ataque, espere, ataque, espere, ataque. Ao longo da run você libera algumas habilidades ativas e passivas, mas nunca o suficiente para você sentir uma grande diferença. Claro, você pode atordoar o inimigo e ganhar um turno extra, mas isso realmente vai tornar o combate algo “tático”?

A decisão de usar um sistema ATB em si não é ruim. Pegue FTL por exemplo, o jogo desenvolvido pela Subset Games e lançado em 2012 segue uma premissa similar para o combate. Cada nave tem dois ou mais armamentos que precisam ser carregados antes do disparo. A imensa vala que existe entre ele e Kingsway é que a Subset sabia que somente isso não seria o suficiente para deixar o jogador “engajado”. É preciso priorizar sistemas da nave inimiga, decidir entre destruir os escudos ou o sistema de suporte de vida, teleportar e invadir. Enfim, inúmeros pequenos detalhes que fazem cada cenário justamente o que deve ser, único.

Kingsway até tenta, de uma maneira bizarra, tornar o combate mais interativo. Como o inimigo é mostrado em uma “janela” do “sistema operacional”, ele começa a saltitar pela tela para dificultar o jogador de clicar no botão de ataque, bloqueio ou magias.

Eu tento entender de onde veio tal inspiração. Talvez dos pop-ups dos meados de 2000 que muitos sites usavam (até serem finalmente extintos pelos adblockers), ou tentar passar a noção de que o inimigo era como um vírus. Um BonziBuddy da vida, sei lá.

A diferença é que se você pegasse um desses em 90 e tantos, ou no começo de 2000, era irritante, profundamente irritante. Dependendo do vírus, trojan, um saco de tirar. A última coisa que eu quero relembrar desse período são esses popups.

Fica ainda mais tragicômico quando a única interatividade mais proeminente entre o jogador e os monstros são quando eles usam habilidades. Estas, apresentadas por meio de um pop-up rápido que o jogador tem de clicar o quanto antes para evitar de ser envenenado ou queimado. Um “quick time event” em um jogo que tenta imitar um sistema operacional antigo. Tempo que teria sido melhor gasto em melhor diversificar as classes. Você já viu um roguelike onde o mago começa sem magia? Pois é, Kingsway é um desses.

O que mais me incomoda é que eu gosto do conceito de Kingsway, de receber as quests via e-mail, de ter uma notificação no canto inferior da tela quando uma nova informação é demonstrada. É uma pena que ele começa a se auto sabotar a cada turno. O mundo em si é genérico, a navegação é frustrante, o combate carece de detalhes para sair de algo mais fundo do que “aperte o botão de atacar o quanto antes”.

Kingsway

Após falhar umas vinte ou trinta vezes eu cheguei no final da minha primeira run completa. O impacto? Mínimo. Eu nem me lembro de metade dos inimigos, nem mesmo para onde eu tinha ido. Creio que em algum ponto eu tinha desligado meu cérebro. O mais irônico de tudo? SPACEPLAN, um cookie clicker da Devolver Digital me fez pensar de maneira mais tática do que Kingsway.

Um jogo onde você envia batatas para explorar o planeta tem uma narrativa mais interessante e mecânicas mais complexas do que um roguelike. Pelo menos ele não rouba o meu tempo com dificuldade artificial seguida do combate mais monótono do que limpar paredes. E olha que eu já tive seis gatos em casa e sei o quão chato é tirar mancha de pata de uma parede branca.

Kingsway é como abrir um vídeo do Youtube com Synthwave, Future Funk, Vaporwave. Músicas e batidas recicladas com uma visão utópica, repleta de neon, Ferraris e pores do sol. O movimento artístico que tomou forma no começo de 2010 tinha como propósito satirizar a cultura consumista até o ponto em que ela se tornou parte da própria.

É nostalgia engarrafada para quem tem saudade de olhar para uma interface antiga sem ponderar o que ela realmente pode adicionar a um jogo. A eterna reciclagem do antigo no novo, para acertar em cheio o hipotálamo e fingir que sistemas operacionais antigos tem um ar “vintage”. Quer algo vintage? Então instala um Windows 95 e lida com os problemas insuportáveis que ele possui. Te garanto que a vontade de encostar em um vai embora rapidinho.

Kingsway

Total
Kingsway é um dos melhores exemplos de nostalgia engarrafada. Tenta se esconder por trás de um conceito de “sistema operacional antigo” que tem seu potencial perdido por não conseguir integrar propriamente as mecânicas de um RPG a não ser pelo aspecto visual. Um roguelike genérico, raso e repetitivo.
Fraco

Análise – Kingsway

About The Author
- Colaborador para a EGW e redator para o BABOO. Tento constantemente entender sistemas e relacioná-los às emoções e reações que sentimos nos jogos.